Antes só do que mal Acompanhado

Escrito por Fábio Rockenbach

(Planes, Trains and Automobiles, EUA, 1987)
Direção de John Hughes, com Steve Martin, John Candy, Laila Robins, Michael McKean, Kevin Bacon


Bons tempos onde se ia ao cinema para rir das peças que o cotidiano podia pregar em qualquer um. Onde comediantes não precisavam apelar para histerismos e caretas para provocar alguma risada. Steve Martin era assim... ainda é ( sou daqueles que acreditam piamente que falta a ele apenas um bom roteiro que não apele para situações insólitas como desculpa para o humor, como ter 12 filhos, por exemplos ). Até mesmo filmes do Jim Carrey dos anos 80, o comediante Chevy Chase, fazia uso do cotidiano para fazer rir, e não de uma situação extraordinária - vide um homem ter dupla personalidade ou não poder mentir durante um dia inteiro. E isso não quer dizer que esses recursos não existiam naquela época: o próprio Steve Martin, por exemplo, já interpretou um homem em uma situação extraordinária em "Um Espírito Baixou em Mim" ou em "Roxanne", talvez o melhor filme da sua carreira. "Os Safados", com Michael Caine, e este "Antes Só do que Mal Acompanhado" são bons exemplares do bom cinema de comédia daquela época.

Toda essa enrolação foi só para dizer que estão em Steve Martin e John Candy a grande graça deste filme de John Hughes que não se rende a caretas e histrionismos visuais para provocar riso e tristeza. A história do publicitário Neal ( Steve Martin ), que enfrenta situações inacreditáveis enquanto tenta voltar para casa, do outro lado do país, a tempo do almoço de ação de graças, é de uma simplicidade revoltante, mas é brilhante porque não se sustenta apenas nos percalços que surgem em seu caminho, e no caminho de Del, vendedor interpretado por Candy que surge como um karma para acompanhar a jornada de Neal. Hughes, autor do roteiro, apostou de forma sábia que a melhor maneira de tornar o filme um sucesso seria tornar a platéia não uma observadora do caos e das armações do destino na jornada da dupla, mas de torná-la quase uma companheira de viagem. Rimos, muito, do que acontece com Neal e Del não pela graça das situações em si, mas pela reação espontânea e natural de Candy e Martin. Por mais absurda que seja toda a estória, essa dupla de comediantes brilhante faz com que tudo pareça real, o que acentua o humor nervoso do filme. Candy ainda tinha a propriedade de se tornar um maldito animal indefeso quando queria, de propiciar pena com um olhar vago e perdido, e o que poderia soar como simples clichê emotivo acaba sendo um elemento importante de uma estória que fala de amizade e bons sentimentos acima de tudo. Acima até mesmo das risadas. Essas vêm como um brinde extraordinário.

Bons tempos onde fatos simples e pessoas comuns rendiam boas comédias, e não apenas para fazer gargalhar. Um mero sorriso no canto da boca ao final de um filme também faz muito bem...