Conta Comigo

Escrito por Fábio Rockenbach

( Stand by Me, EUA, 1986 )
Direção de Rob Reiner
Com Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connel, Kiefer Sutherland, John Cusack



"

Eu nunca mais tive amigos como os que eu tive aos 12 anos. Jesus, e quem teve?"


É difícil escrever sobre “Conta Comigo” sem escorregar no sentimentalismo, mas a tarefa fica mais fácil quando se sabe que, ao fazer isso, ninguém cai no lugar comum. Quem afinal não tem um lugar guardado na lembrança para essa pequena fábula nostálgica que consegue a proeza de soar absurdamente lírica e real ao mesmo tempo? Porque é de memórias e lembranças ao mesmo tempo tristes e dolorosas que é preenchido cada frame de um filme que, a rigor, não foi concebido para ser grandioso, apenas sincero. Quando a primeira cena do filme mostra Richard Dreyfuss estupefato dentro de um carro, com um recorte de jornal, e a melodia lenta de “Stand by Me” move a cena ao fundo, já somos agarrados de imediato. Dois jovens amigos de bicicleta passam pelo carro de Dreyfuss, que olha para eles com o olhar perdido no tempo. É uma viagem apenas de volta para uma época de inocência e descobrimentos, de onde não nos sentimos retirados nem quando o filme termina, amargo é verdade, mas como uma celebração da verdadeira amizade.

Muita gente estranhou que a história seja uma adaptação de um conto de Stephen King, mas os elementos mais ricos da carreira do escritor estão lá. Não me refiro, claro, aos sonhos e pesadelos que habitam a mente deste americano que se tornou o maior nome da literatura de horror moderna. Me refiro às pessoas e ao cotidiano insólito que somente a imaginação - e nesse caso a lembrança – de King conseguem evocar. A pequena cidade do interior, perdida de tudo, ligada à civilização mais por um fiapo de curiosidade e imaginação de seus habitantes é quase um paraíso da infância ( “Eu vivia em uma pequena cidade no Oregon chamada Castle Rock. Tinha apenas 1200 habitantes, mas para mim era o mundo inteiro.”). E Castle Rock é, usualmente, o nome que King dá às cidades onde ambienta suas histórias.

Nesse pequeno universo, havia mais espaço para a amizade e a descoberta do mundo, em um tempo onde as horas passavam lentas. É no personagem Gordie Lachance (Wil Wheaton) que a narrativa é centrada, e em como ele se refugia do esquecimento dos seus pais após a morte do irmão – e na culpa que eles colocam nele em não ser igual ao irmão – junto com três grandes amigos: Chris Chambers ( River Phoenix ), seu melhor amigo, marcado por pertencer à uma família de vagabundos e marginais, o louco Teddy Duchamp ( Corey Feldman ), absolutamente desligado da realidade e de qualquer noção de risco e o afoito Vern Tessio ( Jerry O’Connell ) que leva o grupo a uma aventura insólita: encontrar o corpo de um garoto que 12 anos que desapareceu dias atrás. Uma conversa entre o irmão e um amigo de Vern revela que eles encontraram o garoto morto ao lado de uma ferrovia, milhas de distância de Castle Rock. E é baseado mais na possibilidade de se aventurar e ficarem famosos do que na curiosidade de ver um cadáver que os quatro embarcam em uma viagem pelas idílicas paisagens do interior do Oregon.

"Acontece às vezes. Amigos vão e vêm de nossas vidas..."

Com um roteiro primoroso de Raynold Gideon e Bruce Evans, que respeita toda a nostalgia e os elementos próprios do conto de Stephen King, Rob Reiner preocupa-se apenas em transmitir beleza a uma história que serve para afirmar os valores da amizade e para decretar o fim da inocência. Conta com um elenco jovem primoroso, é verdade, mas toma o cuidado de permanecer no limite entre o burlesco e o caricatural, sem nunca escorregar. Assim, mesmo centrando a narrativa em Gordie, consegue transformar todos os quatro em personagens palpáveis, cativantes, cada qual com suas características. E se Gordie é o centro da narrativa, é o Chris Chambers de River Phoenix que confere a base e a força que conduzem “Conta Comigo”. É aqui, mais do que em qualquer outro de seus filmes, que se lamenta a perda precoce do ator, anos depois, por overdose. Ele transforma Chambers em uma pequena tragédia, um jovem que passa uma imagem forte aos outros, mas para seu melhor amigo revela toda a incerteza quanto ao futuro. E quando chegam ao fim da jornada, eles percebem como é duro o golpe da realidade quando batida de frente com o sonho. Percebem também que a experiência decretou, instintivamente, o fim de uma época. A inocência, aquela que guiou os quatro até o fim da jornada, foi extinguindo-se ao longo do caminho. Restou apenas a lembrança.

A história secundária envolvendo o bando de delinqüentes liderado por Kiefer Sutherland apenas completa a construção do quadro que, na verdade, poderia ser formado apenas pelos quatro protagonistas. Quando os dois grupos se encontram, tudo o que deveria ter sido assimilado já é passado. O fim da jornada tem um sabor amargo, mas é temperado por uma nostalgia triste que se mescla com a lembrança de tudo o que aconteceu até ali. "Conta Comigo", na verdade, é quase um exemplo vivo de inveja: todos sonhamos em um dia ter vivido essa história, com amigos como aqueles, em lugares como aquele. E é, afinal, de lembranças que essa estória é movida. Poderia ser “história”, com H mesmo, porque mesmo quem nunca viveu naquele tempo ou teve experiências semelhantes guarda um pouco da experiência como se fosse algo só seu, lá dentro. E quantos filmes um dia conseguiram fazer isso em qualquer platéia?

E se você não viu logo abaixo, aqui está uma amostra pura de nostalgia

http://seculodaluz.blogspot.com/2008/06/sesso-nostalgia-em-algum-lugar-na-nossa.html

6 Comentários:

  1. Alecs disse...

    '"Conta Comigo", na verdade, é quase um exemplo vivo de inveja: todos sonhamos em um dia ter vivido essa história, com amigos como aqueles, em lugares como aquele.'

    nossa...
    essa frase me causou arrepios e me trouxe algumas lágrimas.
    engraçado como as vezes o mesmo filme desperta o mesmo sentimento em pessoas diferentes.
    ainda mais este, que irá me por depressivo, amargurado e subjugado pelo resto da vida.
    mas não é por isso, que será ignorado.hehehe
    gostaria de tê-lo feito, isso sim.
    não proponho refilmá-lo, porque claramente, não se pode alcançar o mesmo resultado.
    já sei o que vou assistir amanhã... hehehe.. obrigado!

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Diria que é um filme para hoje e sempre

  3. Anônimo disse...

    Tomek disse:

    Cara, estava navegando e encontrei seu Blog... visualmente ele é o melhor que eu já descobri na Net. Muito bonito e organizado mesmo! Os textos sobre o Spielberg (Top 10) e sobre "Conta Comigo" estão excelentes. Parabéns!! Valeu!!

    PS.: No Top 10 das musas faltou a Maria Grazia Cucinotta. Ah se eu pudesse ser o Carteiro...

  4. Fábio L. Rockenbach disse...

    Valeu Tomek, volte sempre. Aliás, falar sobre Spielberg e Conta Comigo não é nada difícil. Sobre a Cucinotta, eu queria ser aquela bolinha........

  5. Ivan disse...

    Fábio, lindo o texto. Expressa o que eu penso e sinto em relação ao filme. Interessante o comentário sobre King, pois, apesar de ser fã de muitos de seus livros horripilantes, histórias como o "O Corredor da morte"(À Espera de um Milagre), "Um Sonho de Liberdade" e "Conta Comigo" não têm nada de necessariamente assustador, mas representam uma grande sensibilidade do escritor ao tratar de temas como a amizade.

  6. henrique disse...

    Romântico!