Os Caçadores da Arca Perdida

Escrito por Fábio Rockenbach

( Raiders of the Lost Ark - EUA - 1981 )
Direção de Steven Spielberg, com Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, John Rhys-Davies, Denholm Elliot, Ronald Lacey

Vinte e sete anos se passaram desde que “Os Caçadores da Arca Perdida estreou reunindo um misto de desconfiança e esperança. Em 1981, George Lucas colhia os frutos do sucesso avassalador de “O Império Contra-Ataca” nas bilheterias – e na crítica – do mundo inteiro, enquanto Steven Spielberg se recuperava do fracasso comercial de “1941 – Uma Guerra Muito Louca”. Quando estreou, “Caçadores...” mergulhou em um cinema menos ingênuo, menos leve e atormentado por uma profunda depressão coletiva, herança direta do cinema dos anos 70. Fazia 4 anos que o próprio Lucas havia iniciado uma nova onda com "Star Wars" mas de forma geral, ainda se respirava o clima amargo da década anterior nas telas. Obras pesadas e amargas como “Amargo Regresso”, “O Expresso da Meia Noite”, “O Franco Atirador” e “Touro Indomável” ainda davam as cartas nos anos anteriores em meio aos “blockbusters” ( o termo não existia ) que timidamente começavam a surgir nos cinemas. A desconfiança com as qualidades de Spielberg, pelo seu retumbante fracasso, mesclaram-se à falta de fé de grande parte dos estúdios como próprio Lucas, quando ele afirmou que aquele roteiro maluco, repleto de extras em diversos países, perseguições, cenários gigantescos e muita ação seria rodado com meros 20 milhões de dólares. Mesmo com o sucesso de produções anteriores, não seria de todo injusto dizer que a era dos grandes filmes-pipoca do cinema, se nasceu com Tubarão e Star Wars, foi consolidada com “Os Caçadores da Arca Perdida”. E aos que pensem que isso é demérito: longe disso. Se as lições de Spielberg se perderam, passa longe de ser culpa deles.
O Indiana Jones que surgiu em 1981 é, de certa forma, diferente daquele que reapareceu por duas oportunidades nas telas do cinema, em 1984 e 1989. Se nas seqüências Spielberg claramente deita-se em cima do carisma que o herói conquistou, em 1981 o espírito era outro. Ainda que o roteiro de Lawrence Kasdan consiga unir de forma admirável pequenas pitadas de humor, o foco é outro. O arqueólogo aventureiro de 1981 é mais soturno, mais sério, mais obstinado. Analisando friamente, o primeiro filme de uma das séries mais lucrativas de todos os tempos é o único que reúne os predicados para ser chamado de clássico num futuro próximo – se já não o é. Apresenta um herói que, como o próprio Spielberg explica, inspira-se no Fred Dobbs de Humphrey Bogart em "O Tesouro de Sierra Madre". Ironicamente, ele que sempre quis dirigir um filme de 007 - daí vem a característica dos filmes começarem com uma cena de ação separada do resto da história - destruiu o estereótipo “James Bond” do herói invencível, sempre impecável, e trocou-o por um homem comum, sujeito às dores e escoriações que inevitavelmente surgem pelo caminho. Trocou o charme conquistador pela ironia e o cinismo. ( “Não são os anos querida, é a quilometragem.”) O “jeito” e a classe deram lugar à fórmula “vai do que jeito que der”. Deu certo. “Caçadores da Arca Perdida”, ao homenagear os seriados de aventura das matinés dos anos 30, criou ele próprio um estilo que viria a ser imitado, homenageado e plagiado posteriormente, sem nunca encontrar equivalentes.

Há alguns anos atrás, contar a história seria chover no molhado. Hoje não é. Se os filmes do arqueólogo são figurinha fácil na filmografia favorita de muita gente nascida nos anos 70 e começo dos anos 80, não são poucos os moleques nascidos na década de 90 que não travaram contato com a trilogia, absortos em filmes modernos recheados da mais alta tecnologia e efeitos visuais. Indiana Jones, arqueólogo e professor universitário que alterna seu tempo entre as aulas na universidade e viagens atrás de tesouros arqueológicos pelo mundo, é incumbido pelo governo dos Estados Unidos de encontrar a Arca da Aliança, onde Moisés teria guardado os Dez Mandamentos originais e, segundo a bíblia, seria fonte de imenso poder. O artefato repousa nas ruínas de uma antiga cidade egípcia descoberta pelos nazistas em 1936, no deserto próximo do Cairo.

Esse plot simples resume a obra, A maneira como ele se desenvolve nas telas reúne, de forma admirável, ritmo impecável, uma montagem absorvente – que consegue unir a ação incessante ao desenvolvimento da história sem atropelar tanto um como outro – e uma pequena conjunção de fatores do tipo “no lugar certo e na hora certa”. Harrison Ford cria mais do que um personagem de uma carreira, mas um alter-ego indissociável, e tem em Paul Freeman e Ronald Lacey perfeitos no papel por vezes ingrato de oponentes, aqui desenvolvidos por Kasdan de uma forma que não chegou nem perto de ser feita nos demais filmes. Se em “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada” os vilões são caricatos, em “Caçadores...” eles são plausíveis, o que só engrandece qualquer filme. John Rhys-Davies interpreta um Sallah que é contraponto perfeito ao amigo Indiana ( em A Última Cruzada ele torna-se apoio cômico ) e Karen Allen faz de Marion a parceira perfeita – em nova comparação, a Kate Capshaw histérica de “Templo...” e a Alisson Doddy insossa de “Cruzada...” não chegam a seus pés.

A fotografia de Douglas Slocombe combina com perfeição as sombras que ele próprio tanto gostava de acrescentar aos seus filmes com a dose exata de luz para recriar o clima nostálgico que Spielberg lhe pedira, meses antes, quando ainda escrevia o roteiro da aventura junto com Kasdan. Já a trilha sonora de Williams configura-se num de seus melhores trabalhos – e não falo apenas da marcha famosa, extremamente simples e icônica, mas de todo o trabalho que dá à busca pela Arca o background místico que complementa de forma perfeita a aventura.

Ao homenagear o cinema de aventura de antigamente, Spielberg opta pelo mínimo de efeitos – eles surgem claramente na seqüência final – e recria a década de 30 apenas com locações e maquetes, dando mais veracidade aos locais por onde Indiana passa. Abandona o humor nas seqüências de ação para criar, com o apanhado delas, o maior filme de aventuras de todos os tempos – a seqüência da perseguição no caminhão é, definitivamente, uma das grandes senão “a grande” seqüência de aventura da história do cinema.

Ao levar a sério uma história recheada de misticismo e tratá-la como uma homenagem, cria um marco moderno. Não é à toa que, para o quarto filme, Spielberg optou por recuperar vários elementos de “Caçadores...”, desde cenários a personagens. Indiana Jones tornou-se icônico levando-se a sério. Não que “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada” sejam ruins. Longe disso, equivalem-se no quesito diversão e entretenimento. O que faltou a eles foi a aura de que poderiam ser filmes únicos, o que era uma possibilidade quando "Caçadores..." foi filmado. Talvez tenha faltado, também, um pouco do clima pouco festivo daquele início de anos 80. Nesse clima, ao levar seu herói a sério, Spielberg criou um ponto chave na história do cinema. Ignorar esse fato simplesmente por se tratar de uma aventura é fechar os olhos para uma das obras mais importantes do cinema moderno.