Os Gritos do Silêncio

Escrito por Fábio Rockenbach

( The Killing Fields - EUA - 1984 )
Direção de Rolland Joffé, com Sam Waterston, Haing S. Ngor, John Malkovich

Houve um tempo em que Rolland Joffé fazia obras de inegável repercussão. Ainda que a carreira deste diretor britânico não tenha mudado a história do cinema, ou que ele não seja inovador, foi um competente artesão quando teve bons materiais e bons atores em mãos. Depois de “O Início do Fim”, em 1989, ele nunca mais conseguiu fazer algo que preste – “A Letra Escarlate” é terrível, e “Super Mario Bros” não deveria contar na filmografia de ninguém. A inspiração e os bons momentos de Joffé ficaram perdidos nos anos 80, em algum lugar entre as missões jesuíticas na América do Sul e o drama da guerra no Camboja. “A Missão” e “Os Gritos do Silêncio” foram os dois primeiros filmes do diretor, que saiu da televisão, em tela grande. No fim, é o legado que fica.


O título nacional de “The Killing Fields” passa uma visão muito mais poética do drama mostrado por Joffé. Seu filme não é uma obra magistral, mas se fosse apenas pelo desempenho impressionante de Haing S. Ngor, ele ficaria marcado na história. Ngor é um daqueles casos raros que surgem de tempos em tempos: este ator cambojano veio do nada para arrebatar o Oscar de melhor ator coadjuvante em 1984, em um ano em que Amadeus dominou a entrega do prêmio americano. Ngor é a alma e todo o sentido de “Os Gritos do Silêncio”, simplesmente porque seu personagem, Dith Pran, é a cerne dessa impressionante história real. Se Ngor não funcionasse, “Os Gritos do Silêncio” seria uma mera tentativa de emocionar pela denúncia das fortes imagens. Mas Ngor é maravilhoso, e acompanhar a jornada de seu personagem justifica tudo o que acontece ao seu redor.


É ao redor do ator Cambojano que circula Sam Waterston, como o repórter do New York Times Sydney Schanberg, enviado para cobrir a queda do regime de Phnom Penh para o Khmer Vermelho de Pol Pot no Camboja. Em meio a um país arrasado pela guerra – primeiro a guerra do Vietnam, que trouxe conseqüências ao Camboja durante a década anterior, e depois pela guerra civil – Schanberg tem em seu guia local, Dith Pran, não apenas o apoio logístico, mas um escape para as atrocidades que testemunha. Extremamente calmo, Pran coloca-se não somente como um elo entre o americano e seu país, mas como um muro, protegendo-o dos costumes que Schanberg, horrorizado pela guerra, não consegue entender.

A distância entre os valores do repórter americano da realidade que ele encontra no Camboja, entretanto, é enorme. Schanberg não se cansa de gritar aos quatro ventos que “é americano e tem seus direitos”, sem entender que o país onde ele se encontra está em frangalhos. Joffé costura as cenas de Pran e Schanberg usando, por vezes, de recursos que podem soar aproveitadores. Não são poucas as vezes que ele mostra crianças trucidadas pela guerra em meio aos destroços, acompanhada de execuções ao ar livre. Mas essas cenas, que retratam o cenário encontrado por Schanberg e Pran, é o background através do qual ele, habilmente, cria na platéia a sensação de unidade entre os dois. Constantemente, o cambojano e o americano dividem a tela. Seja em primeiro plano, seja alternando ambos nesse papel, Waterston e Ngor dividem a tela em quase toda a primeira metade do filme. É como se, aos poucos, a presença de um fosse indissociável do outro, mesmo que ambos transpareçam tanta diferença em seus rostos: Pran claramente deixou de querer protestar ou se indignar, calejado pela vida no Camboja, enquanto Schanberg manifesta no rosto a raiva e a indignação, principalmente contra o exército americano presente no local – e completamente passivo ao massacre.
Quando o Khmer invade o Camboja, Schanberg e os demais jornalistas americanos e britânicos conseguem fugir do país, junto com o exército americano. Mas Pran fica para trás, para viver, nos quatro anos seguintes, um infernal conto de sobrevivência que é, no final das contas, a grande razão de existir do filme de Joffé: capturado pelo Khmer, enviado a um campo de concentração – os chamados “campos de extermínio” do Khmer Vermelho, do título original – Pran é o retrato mais absurdo de um regime totalitário. Um homem indefeso tratado como animal até por crianças empunhando armas. O relato destes quatro anos vividos entre o inferno e o purgatório, e o desespero de Schanberg, em Nova Iorque, por notícias do amigo, conferem força a “Gritos do Silêncio”, porque sustentam-se no talento magistral de Ngor. E na mais chocante cena do filme, amarrado, ajoelhado e à mercê do humor de seus captores, Ngor passa uma humanidade e uma tristeza surpreendentes através do seu olhar. É nesses momentos que sua história emociona. Joffé não tocou seu público pelas cenas do horror no Camboja, mas pelos olhos e pela tristeza do rosto de um ator. O fato do próprio Ngor ter sofrido na pele parte do que Pran sofreu quando vivia no Camboja ajuda a explicar de onde ele tirou inspiração para compor seu personagem. Quando o rosto envelhecido e maltratado pela guerra do cambojano encontra Schanberg, nos sentimos párias se não nos emocionamos. Joffé manipula o espectador – usa “Imagine” de John Lennon em mais de uma oportunidade – mas acaba tendo a sorte de ter à sua disposição uma história poderosa e um ator sincero que sobrepõem-se à qualquer tentativa de ludibriar o público com recursos baratos...

Pran escapou dos campos de extermínio quando o Khmer começou a deixar o poder, em 1979, em uma árdua jornada de semanas através de pântanos e matas, e tornou-se repórter do New Iorque Times. Schanberg ganhou o Pulitzer por sua cobertura e publicou “A Morte e a Vida de Dith Pran” que serviu de base para o filme. Ngor faleceu em 1996 e Pran morreu em março de 2008.