Carruagens de Fogo

Escrito por Fábio Rockenbach

( Chariots of Fire - EUA - 1981 )
Direção de Hugh Hudson, com Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm, Nigel Havers, Brad Davis


“Cada um corre à sua maneira. Mas de onde vem a força que conduz ao fim da disputa?”
( Eric Lidell )
Carruagens de Fogo é um filme que sofreu – e ainda sofre – de um injusto preconceito. De certa forma, é um filme que envelheceu – ou cuja temática acabou envelhecendo. Grande parte desse preconceito se deve a ter desbancado, na corrida pelo prêmio de melhor filme do Oscar, obras como “Reds” e “Os Caçadores da Arca Perdida”, reconhecidamente mais competentes. De certa forma, o preconceito contra o filme de Hugh Hudson é quase um “orgulho ferido”. “Carruagens...” é extremamente acadêmico e simplesmente correto? Sim, mas não se resume a isso.

Se hoje obras exaltando os feitos pessoais e heróicos de atletas ou grupos de pessoas são lançados aos borbotões a cada ano, a culpa não é de Hudson. Muitos deles bebem da mesma fonte que o diretor britânico encontrou, mas o filme foi de certa forma um pioneiro. Faz uso de recursos que hoje soam clichês, mas mesmo feito há 27 anos atrás, ainda consegue ser mais competente do que a maioria de seus filhotes contemporâneos – a história envolve esporte, mas o que Hudson está fazendo não é simplesmente contar uma história de superação e transposição de limites, mas acima de tudo humana. “Carruagens de Fogo” fala sobre preconceito e motivações, funcionando como retrato de época.


Hudson conduz a história de Harold Abrahams e Eric Lidell de forma acadêmica. Não re-inventa a roda, e segue a passos firmes por uma estrada conhecida, em linha reta. “Carruagens de Fogo” não surpreende por inovações narrativas ou visuais, tampouco tem interpretações magistrais que possam, sozinhas, justificar um filme. Mas é um filme sincero. Centra nas figuras do inglês e judeu Abrahams (Ben Cross) e no missionário e atleta escocês Lidell (Ian Charleson) sua atenção. A intenção anunciada é mostrar como Abrahams e Lidell – conhecido como o “escocês voador” – conquistaram a glória máxima nas Olimpíadas de 1924 competindo com a supostamente imbatível equipe norte-americana de atletismo. O fato consumado, entretanto, traduz a busca por vitória na busca por uma resposta: no caso de Abrahams, para o preconceito. No caso de Lidell, para Deus em si. Judeu em uma Inglaterra anglo-saxônica e extremamente conservadora, Abrahams enxerga nas corridas a única maneira de superar a adversidade social e o preconceito e fazer com que suas pernas o levem não para frente, mas acima das dificuldades. Refugia-se na própria fama de corredor entre seus pares para fazer com que eles o vejam não como judeu, mas como vencedor. Não é à toa que a derrota é tão cara para Abrahams: quando ela acontece, não é o inglês que está derrotado. É o judeu que aparece. Abrahams é obcecado pela vitória porque ela é a única coisa que pode leva-lo adiante em sua própria condição social.
Já para Lidell, correr não é buscar o primeiro lugar por glória particular. É uma catarse. Dono de um presente divino, o da velocidade e da resistência, ele é, antes de um esportista, um missionário. Ama a velocidade, mas ama a Deus antes de tudo e o conflito entre o esporte e a religião o atormenta. Mas, como ele próprio diz, há o lamento, “mas jamais a dúvida” sobre suas escolhas. Vencer uma corrida é atestar a glória de Deus agindo sobre ele. Não é a toa, também, que Abrahams contemple boquiaberto Lidell correr e cruzar a linha de chegada em completo êxtase, sem entender como aquele homem pode fazer de algo ( para ele ) tão sério um simples exercício de alegria.

É através dessas duas visões de competição e entrega, enfim, que Hudson conduz seu drama: de forma acadêmica, sim, mas jamais enjoativa, auxiliado por uma trilha sonora magistral do grego Vangelis – o tema principal tornou-se um tema de hoje e sempre do cinema, mas toda a trilha é simplesmente genial. E é nas cenas de corrida que o diretor mostra virtuosismo: alterna cenas onde a câmera acompanha o corredor, em câmera lenta, com tomadas secas, sem trilha. É nessas cenas, que cortam o clima do filme, que o diretor parece nos lembrar que tudo aquilo que está sendo discutido resume-se, no momento da competição, a menos de 10 segundos, no caso de Abrahams. Dez segundos secos, que podem fazer a diferença entre a glória e a decepção. Alternando entre essas duas maneiras de mostrar o momento máximo dos protagonistas – e repare que Lidell é reverenciado com a visão poética das corridas, enquanto Abrahams é mostrado da forma real, seca, sem ufanismos – é que Hudson escancara que sua busca é pelos motivos da corrida, mais do que pelos vencedores, ainda que sejam esses os que têm seus nomes guardados na história.

2 Comentários:

  1. Priscila disse...

    Acabei de ver o filme. Crítica extremamente competente!

  2. Rossana Rodrigues disse...

    Muito bom o comentário...excelente filme