10.000 A.C.

Escrito por Fábio Rockenbach

(10,000 B.C. - EUA - 2008 )

Direção de Roland Emmerich, com Steven Strait, Camilla Belle, Cliff Curtis



Roland Emmerich é um covarde. À base de muito dinheiro, criou uma fórmula eficientíssima,fez a cama e deitou nela. Abdicou de ser corajoso, de apostar em seu talento, de fazer alguma diferença. Parece ter apostado na sua habilidade em criar cenas monumentais, grandiosas, de trazer ao público momentos que ele só poderia ver em um cinema - e em um de seus filmes - e, com esta cama feita, esqueceu de levantar e seguir em frente. "10.000 A.C." é um retrocesso imenso depois de acertar a mão em "O Dia Depois de Amanhã". De certa forma, é uma decepção tão grande, senão maior do que foi Godzilla. Em Godzilla, pelo menos, ele prometia destruição e a imensa criatura. Em "10.000 a.C." ele promete muita ação, mas tudo o que conseguiu criar nesse sentido pôde ser resumido no trailer. O resto é um enxerto entre estas cenas.

Emmerich é um covarde porque tem medo de trocar idéias com a inteligência do público. Porque, quando poderia tirar sua história banal do lugar comum, optou por soluções ridículas, como se o fato de fazer um filme ambientado 6 mil anos antes da invenção da escrita fosse suficiente para jogar nesse mundo particular fatos miraculosos, magia, soluções, enfim, que surgem do nada para facilitar a vida do roteirista(?). Seria mais fácil se decidisse criar uma fantasia em um mundo imaginário, como fez George Lucas em Willow. Haveria espaço para as soluções esdrúxulas que encontra.
A história de "10.000 a.C." é banal, mas não seria problema se fosse desenvolvida de forma a respeitar a inteligência do público. Em uma tribo de nômades, nos últimos tempos antesque o homem descobrisse a agricultura, 10.000 anos antes de cristo, uma profecia envolve uma garota de olhos azuis e um caçador capaz de matar um mamute. Junte a isso a chegada deuma civilização invasora que mata quase a tribo inteira e leva a garota como refém, e está feito o combustível. O herói parte atrás da amada, arregimentando no caminho outras tribospara lutarem contra o opressor.
Emmerich é um covarde porque se arma dos mais habituais clichês sem o mínimo pudor. Mais de uma vez, mortes acontecem no tempo exato para que o moribundo profira suas palavras a quem o carrega nos braços. Por duas vezes, o oponente caído se levanta para atingir alguém pelas costas. Em um sem número de vezes, o diretor tenta nos emocionar em momentos chaves através do uso sem parcimônia de uma trilha sonora ora grandiosa, ora épica, nos momentos mais precisos. Ele sabe que o personagem principal não conquista o público. Falta empatia para que nos importemos mais com o personagem.
Emmerich é um covarde porque vende um épico repleto de animais pré-históricos, mas parece que em algum ponto da produção o orçamento estourou no desenvolvimento de mamutes, tigres dente-de-sabre ( que convence na primeira aparição, mas é extremamente digital na segunda ) e de um outro animal que surge em uma cena que bebe da fonte de cenas semelhantes em "Jurassic Park - O Mundo Perdido" e "O Retorno da Múmia". Optou por colocar seus primatas falando inglês e interagindo entre si com falas mais pomposas do que muitos épicos da Idade Média. Em 10.000 a.C, Emmerich apresenta tribos com dentes brilhantes enfrentando uma civilização que traz o que parece ser um tema caro ao diretor: como já havia feito em Stargate, ele faz uso de elementos da cultura Egípcia de forma descarada, mandando definitivamente pelos ares qualquer cuidado histórico, que o filme, aliás, já havia perdido há muito tempo.
E Emmerich é extremamente covarde porque, rendendo-se ao lugar comum, a clichês e a soluções fáceis que desafiam a inteligência e a paciência do público, ignorou um exemplo acabado, o de Mel Gibson em "Apocalypto". Em linhas gerais o épico maia de Gibson é extremamente parecido, mas o ator/diretor optou por trazer o espectador ao mundo retratado por ele - e não o contrário - respeitando o idioma e a época. Trouxe drama sem se render a clichês, usou a violência para dizer que seu épico não é mera aventura para Sessão da Tarde, e seu protagonista tem empatia com o público. Emmerich poderia ter lido nas linhas retas da aventura da Gibson. Mais sorte com a próxima destruição do mundo - pelo menos é quase certo que ele estará pisando em terreno conhecido, e não arrumando uma desculpa para criar mamutes e tigres computadorizados em um mundo habitado por humanos caracterizados como de épocas extremamente indecisas - o chefe dos sequestradores parece saído de um filme na linha "O Escorpião Rei".
Vou rever "A Guerra do Fogo" que ganho mais...