São tantos furos, elementos e pessoas mal utilizados que chega a ser irritante. A salada de frutas mistura vários elementos em uma trama só, mas não consegue criar um todo consumível. Pra piorar, constrói cenas de tensão para destruí-las com a inserção de pontos chave frustrantes – o maior deles, o clímax geral do filme, sem graça para um diretor que alimentou expectativas em torno de seus personagens e de seus malabarismos visuais ao longo de toda a projeção.Tiro no pé, e mal dado ainda...
São tantos furos, elementos e pessoas mal utilizados que chega a ser irritante. A salada de frutas mistura vários elementos em uma trama só, mas não consegue criar um todo consumível. Pra piorar, constrói cenas de tensão para destruí-las com a inserção de pontos chave frustrantes – o maior deles, o clímax geral do filme, sem graça para um diretor que alimentou expectativas em torno de seus personagens e de seus malabarismos visuais ao longo de toda a projeção.Tiro no pé, e mal dado ainda...




O mundo de Romero acabou, tornou-se uma terra fantasma sem idiomas ou diferenças raciais na superfície. Os homens se escondem como ratos, se acotovelam em subterrâneos, olham o mundo atrás de grades. A ironia dessa situação é que o homem, que se esconde aterrorizado de medo dos mortos vivos que dominam o mundo e perambulam cambaleantes e sorrateiros é o mesmo homem que trata os zumbis como animais. Há uma dubiedade fascinante nesse cenário criado por Romero. Somos os aterrorizados e nos escondemos, mas também laçamos os zumbis como gado, os tratamos como meros pedaços de carne ambulante. Essa dubiedade de discurso é o grande valor dos filmes de Romero - o que era uma trilogia tornou-se já um sexteto de discurso afinado e inimitável.
“O Dia dos Mortos” é, da trilogia clássica, o mais nauseante e explícito. Mas se Romero se absteve das parábolas sociais mais elevadas – presentes em “O Despertar dos Mortos”, seu filme mais “leve”e ainda assim, o melhor – manteve a carga de ironia indissociável do seu discurso, se fartou no grotesco - as mortes nunca tinham sido tão explicitas. O filme apavorou platéias em 1985 e nas locadoras chegou a ter sua locação proibida para menores – e disso eu lembro bem. Corpos rasgados ao meio, cabeças arrancadas, vísceras expostas... Cenas comuns em alguns filmes de terror hoje, mas estamos falando, vejam, de 1985... quase 25 anos atrás, quando quem arriscava esse tipo de subterfúgio vinha de fora do esquemão hollywoodiano, se escondia na periferia ou assinava com sobrenome italiano.
Em “O Dia dos Mortos”, civis e militares dividem uma instalação subterrânea, esperando não se sabe o que, para que um dia possam fugir, mas sem saber para onde. Não há destino definidos, apenas a busca por mais pessoas e por algo que faça os dias parecerem menos opressores. Essa opressão fará a diferença e será o estopim para que tudo desmorone. Quer dizer... é o fim do mundo, quase literalmente. Ninguém troca idéias sobre seus planos para o futuro, e o que o diretor joga no liquidificador é tensão e diálogos rápidos. É confronto em todas as suas instâncias. É o cientista contra os militares, homem(ns) contra mulher, negro contra brancos, pacifistas idealistas contra reacionários sádicos... vivos contra mortos.
Aliás, o cientista que usa cadáveres e zumbis capturados para tentar entender seu comportamento é o eco de ironia que Romero insere no seu pequeno mundo virado de ponta cabeça. O diretor se dá ao luxo de, pela primeira vez, tornar um Zumbi personagem, é Bub é um personagem de tanta força que captura a platéia, elemento essencial para que qualquer intenção narrativa funcione. No fundo, ele tem mais profundidade que a quase totalidade dos humanos do seu filme, e isso não foi um desvio acidental... Romero é o cara.


“Geleiras do Inferno” ( Island in the Sky, 1953 ) não parece um filme de William Wellman em termos de “tamanho”, mas é perfeitamente compreensível para o ex-piloto da primeira guerra mundial, que transformou a aviação em uma de suas paixões. E “Geleiras do Inferno” é um tributo a esse tipo de profissional, ao senso de família, à camaradagem explícita. Wellman faz questão de transformar essa camaradagem no principal ator do filme – mais do que John Wayne. Wayne é, no caso, o estopim e o motivo das demonstrações de irmandade. O resto é desculpa para o diretor de “Asas” visitar, novamente, os céus – agora, no gelado Alasca, para reproduzir a missão de resgate de um grupo que cai com um avião de reconhecimento em uma região remota.
A missão de resgate, aliás, resume-se às idas e vindas dos vôos de resgate dos companheiros de Dooley (Wayne) e, principalmente, da luta pela sobrevivência dele e dos seus companheiros, perdidos num tapete de gelo. Mas “Geleiras do Inferno” também remete à sua época e envelheceu muito. A construção dramática em torno da situação dos sobreviventes é tão pálida que não chega a afetar ao público – falta o senso de urgência que poderia trazer algum drama real, palpável, à história. O conto de sobrevivência arquitetado por Wellman soa mais agradável como homenagem à classe do que como hino de coragem. É uma história de camaradagem simpática – e com um John Wayne tentando, mas não conseguindo, sair de seu personagem habitual: Dooley comanda as ações, com o mesmo peso no sotaque de quando Wayne anda pelo velho oeste, mas com menos rudeza. Parece um homem mais moderno, sem as armas e o chapéu... troca a areia pelo gelo, mas no fundo calça as mesmas botas.
“Falando Grego” é a prova de como algumas pessoas se apegam a uma fórmula e têm
a) dificuldade para trabalhar fora delas
b) predisposição de sugar delas o máximo que puder
Nia Vardalos foi “descoberta” por Tom Hanks e sua esposa, Rita Wilson, quando atuava na peça original que deu origem ao filme “Casamento Grego”. O casal gostou tanto que financiou a ida de Vardalos para o cinema. O filme foi um sucesso, muito graças aos coadjuvantes hilários, aos costumes gregos traduzidos a um nível nonsense e à própria Vardalos, que não é engraçada, mas sabe como poucas interagir em torno de elementos terceiros. Esses elementos são piadas relacionadas aos modos e costumes típicos da sua Grécia, com a qual ela brinca.
Pois “Falando Grego” pode ser um aviso à carreira de Vardalos no cinema, se ela quiser manter uma: é hora de se reciclar. A fórmula que ela criou continua funcionando para boa parte do público, sem o mesmo charme de sua estréia e com um desenvolvimento fraco em algumas idéias do roteiro, que são óbvias ao extremo já na metade do filme - mas isso pouco interessa ao seu público cativo, que irá embarcar no conto de fadas de “Falando Grego”, e que vai rir de muitas de suas tiradas sobre os costumes gregos, agora “in loco”. Sua guia de turismo para os tours em Atenas, que precisa conviver com todo o tipo de turista e busca o amor e a felicidade profissional é uma desculpa para, mais uma vez, flutuar em torno de coadjuvantes que são os verdadeiros donos do filme, que validam a trajetória de sua personagem - uma trajetória que é óbvia, escancarada e desde os primeiros minutos, tem seu destino decidido e afirmado. A única questão é como ela conseguirá o que busca.
“Falando Grego” vai agradar seu público alvo, mas Vardalos precisa mostrar se tem algo a dar fora do terreno seguro de sua Grécia natal. Vai chegar um momento em que o estoque de piadas sobre o país vai se esgotar e não vai restar nada senão ela fazer piada sobre as piadas que ela fez anteriormente.
A idéia de um filme quase de “não-ficção” em uma produção de estúdios seria ousada em termos de retorno nas bilheterias hoje. O que dirá de 1948, quando “O Demônio da Noite” foi produzido e lançado pelo Eagle-Lion, pequeno estúdio britânico que se especializou em pequenos filmes “B”, alguns com notável valor artístico, e foi encerrado em 1954. Assisti “O Demônio da Noite” há duas semanas, mas somente neste final de semana me lembrei do filme quando vi “Um Certo Capitão Lockhart”, de Anthony Mann. O fato é que Mann seria o diretor não-creditado que responde por “O Demônio da Noite” - e a magnífica cena final nos esgotos de Los Angeles seria um belo indicativo de que Mann assina pela produção, efetivamente, mais do que Alfred Werker.
Há três elementos que se sobressaem em “O Demônio da Noite”. O primeiro deles é a fotografia em claro-escuro que marcou o cinema noir, mas Werker ( ou Mann ) não utilizam o contraste para acentuar nenhuma personalidade, nenhum personagem ou nenhuma intenção: é apenas um estilo que, num todo, não traz implicações na compreensão dos elementos do filme. Richard Basehart faz isso por si próprio, criando um personagem - o assassino procurado pela polícia - baseado em uma personalidade inconstante e imprevisível ( mas é bom ressaltar o belo trabalho de profundidade de campo que Orson Welles revolucionou em 1941, e que Werker - ou Mann - trabalham de forma eficiente, apesar de vazia de significado, em muitos momentos )
O segundo elemento é a frieza trazida pela decisão de fazer, do filme, quase um documentário sobre o processo de investigação forense da polícia atrás de seu assassino - baseado em um caso real ocorrido nos anos 40 em Los Angeles. Esse processo também sucumbiu ao tempo, não como estilo de narrativa, mas como elemento da narrativa: é ingênuo e documental demais, principalmente em seu argumento.
O terceiro elemento é o senso de urgência que, mesmo na frieza, gera sequências que definem o que há de melhor no filme: sua técnica. O cerco à casa do assassino, após um policial se disfarçar de entregador de leite, e a climática sequência final - já se comentou de como ela decorre dos clímax dramáticos de filmes dos anos 30 - nos esgotos de Los Angeles são cenas marcantes demais para relegarem ao filme o papel de obscurantismo que ele ganhou com o passar dos anos. A ironia é que, se fosse assinado por Anthony Mann, seria lembrado como um passo fora da estrada do diretor, mas um passo bem dado. Como é assinado por Werker, é um filme “interessante” mas relegado ao esquecimento.
Não é uma obra-prima, mas mostra como o talento pode fazer a diferença, mesmo tocando de leve a superfície.


O diretor também aproveita para inserir velhos postulados do gênero: o ataque de índios, a cavalaria, a presença do mítico Wyatt Earp como um dos personagens. É como se, não sabendo se voltaria ao gênero, ele aproveitasse para colocar a mão em todos esses elementos de uma só vez. Todos passam rasantes ao largo da caçada de Lin McAdam a Dutch Henry, o irmão renegado com quem tem contas familiares a acertar, tão fortes que transformam uma caçada até a morte em uma obsessão. A forma equilibrada como Mann insere tantos elementos, e faz o público acompanhar tanto a trajetória dos irmãos como de um inanimado rifle, é um feito. Uma p... lição de como em pouco tempo – não mais do que 90 minutos – todos esses ingredientes possam ser misturados sem tirar a unidade de uma história que é forte em si própria. Não há humor, não há quedas na narrativa, momentos de descanso ou inserções inúteis. A própria menção ao massacre de Custer pelos Sioux é um comentário breve de como velhos clichês poderiam estar mudando, apesar dele não se aprofundar nessa idéia. Tampouco as menções à guerra da secessão, episódios paralelos à maioria dos filmes do gênero que eram pouco mencionados em outras produções – posteriormente, John Ford faria menção ao fazer de seu Ethan Edwards em ~Rastros de Ódio”um veterano derrotado do mesmo conflito. O brilhantismo de “Winchester 73” está em conseguir equilibrar todos esses elementos com uma direção segura e movimentos sempre calculados de câmera que revelam todo o domínio do espaço cênico por parte de Mann. A dobradinha ainda renderia outros momentos memoráveis, mas Mann pôde entregar seu filme com a certeza de ter visitado os elementos clássicos do gênero com uma grande dose de maturidade e muita profundidade. O que veio depois só comprovaria a força do que foi apresentado aqui.


Se a intenção de Welles era mostrar que podia ser comercial, matou a charada e ganhou a aposta, seja ela qual tenha sido, com Spiegel, porque é muito fácil e ligeiro acompanhar a trama de “O Estranho”, sendo capturado de uma cena a outra pela forma ágil com que o roteiro de Anthony Veiller conduz a trama sem perder tempo na construção dos personagens ou explicar mais sobre de que forma Kindler, o criminoso, se tornou Rankin, o professor, e apagou todos os seus rastros. Se essa construção das personagens é rasa, sobra uma encenação metódica de cada ato dessa história. Welles era um mestre em falar pelas imagens, pela composição de cada quadro, pela posição exata da cena e pela forma como ela se movia e interagia de forma quase simbiótica com o ambiente. Em grau menor, é o que ele faz aqui também – e a forma como ele retira de cena o rosto de Kindler – ele próprio – e move a atenção da platéia para o que acontece ao fundo, na porta de uma Igreja que é o epicentro de toda a ação, para depois recolocar Kindler na cena, já na meia hora final, denuncia sua presença. Nas mãos de outro diretor, talvez “O Estranho” fosse alijado de construções de cena como essa, que ocorrem em diversos momentos. A forma como elementos e personagens entram e desaparecem o raio de ação da câmera e se complementam com o resto da construção é maravilhoso. É uma pena que, se começa com pleno vigor e é sustentado por uma interpretação magistral de Edward G. Robinson – Welles, já comentei, exagera em algumas reações – o filme termine de forma tão abrupta após uma meia hora final, com o clímax na torre do relógio, sendo tão brilhante. Chamar “O Estranho” de filme menor só é admitido quando se tem, na filmografia, “coisas” como “Cidadão Kane”, “Soberba” e “A Marca da Maldade” mesmo. Do contrário, é sacrilégio...
( The Stranger, 1946, EUA ) Direção de Orson Welles, com Orson Welles, Loretta Young, Edward G. Robinson, Richard Long, Martha Wentworth


Sob o som do genial Duke Ellington, debaixo dos braços das interpretações de James Stewart , Lee Remick e George C. Scott, sob o olhar de Otto Preminger, pouco importa que o que tanto tenha provocado polêmica em “Anatomia de um Crime” – a menção e discussão de temas como estupro, roupas íntimos, métodos contraceptivos, sexo e a própria sexualidade – hoje soe envelhecido demais para causar impacto, porque a força do clássico de Otto Preminger – que muitos consideram o melhor filme de tribunal de todos os tempos – permanece a mesma naquilo que importa: sua narrativa, e a forma como atrai e prende o público em sua teia. Sobretudo, a maneira como respeita a inteligência do público.
Escrita pelo juiz John D. Voelker, “Anatomia de um Crime” traz James Stewart como um ex-promotor com pouco dinheiro e pouco se lixando para a vida, mais interessado em pescar e descansar, que aceita voltar aos tribunais para defender um tenente do exército acusado de matar o dono de um bar, que teria estuprado sua mulher. Porém, nem o tenente é flor que se cheire – sempre frio, calculista e notadamente ciumento – nem a mulher é a santidade que deveria ser para que o caso tivesse mais chances de sucesso. Só isso já mostraria o quanto “Anatomia de um Crime” investe na falta de nitidez de personagens e situações para confundir o público, mas é ainda melhor.
O filme é sempre dúbio. O final é dúbio. As certezas na mente do público são dúbias, e talvez seja esse o grande mérito desse clássico de Preminger. O público sabe tanto quanto Paul Biegler. E esse dilema básico, inocente ou culpado, é tão habilmente conduzido por Preminger que não é raro que a audiência se sinta dividida quanto a suas opiniões: em dado momento, a atuação do assistente da promotoria geral representado por George C. Scott é tão agressiva e convincente, e Biegler se torna tão inconveniente com nossa busca pela verdade, que percebemos que na verdade não existem lados para os quais torcer em “Anatomia de um Crime”. Existe, isso sim, o lado cujas ações acompanhamos de forma privilegiada, bem de perto.
O clássico de Premminger surgiu de forma oportuna para ajudar a desmontar a imbecil censura imposta nas produções americanas já desde duas décadas antes: vocabulário direto, franco, sem papas na língua – a definição que seria usada no tribunal para o termo “calcinha” origina uma interrupção no julgamento e uma troca de idéias entre o juiz e os dois advogados, para que se tenha idéia dos tempos hipócritas que se viviam nos Estados Unidos dos anos 50, sob a regulação do conservador Código Hays, que tornou Hollywood um lugar inocente – até demais – nos anos 30 a 50. (Em todo esse contexto, é memorável também a participação do juiz Joseph N. Welch, interpretando o próprio juiz que preside o caso: foi Welch quem colocou em seu devido lugar o Senador Joseph MaCarthy, que conduziu a perseguição comunista na América na década de 50, e entrou para a história ao encarar o senador e lhe perguntar, sem papas na língua: O Senhor não tem vergonha?)
Preminger, como de costume em seus bons tempos, emite seus julgamentos de sentido em alguns momentos, de forma tímida, mas reveladora. A lata de lixo que aparece nos momentos finais, e tudo o que é dito em frente a ela dá uma indicação do que ele apontaria como verdade absoluta da história, a sua noção de caráter e moralidade. Dúbia, como o resto do filme, ou pelo menos livre para entendimentos: o público formula o seu.
(Anatomy of a murder, EUA, 1959 ) Direção de Otto Preminger, com om James Stewart , Lee Remick , Ben Gazarra , George C. Scott 160 min

O brilhantismo com que Brian DePalma nos conduz na história de Carrie White é tão perverso quanto poderia ser uma adaptação de um romance de Stephen King, mas o terror em “Carrie, a Estranha” não vem do medo do desconhecido, de criaturas sobrenaturais ou mesmo do banho de sangue que ela entrega na palma da mão do espectador na climática seqüência do baile. O terror no filme de DePalma vem do fanatismo religioso e do preconceito. São esses dois elementos que causam repulsa e ódio, e alimentam, pouco a pouco, um sentimento tão dúbio no espectador que, quando Carrie arregala seus olhos de forma demoníaca, coberta de sangue, há um certo júbilo da platéia. Ela queria isso, tanto quanto Carrie. Ela queria ver a menina ridicularizada pelos colegas de escola e imersa em um inferno dentro de sua própria casa se vingar de todos – e sequer as pessoas que se importavam com ela conseguem se livrar de sua fúria demoníaca. E essa é outra face do terror psicológico de “Carrie”: a platéia quer ver sangue.
Adaptado do primeiro romance de sucesso de King, “Carrie” se apóia de forma magistral em duas atuações: a de Sissy Spacek, genial como a garota introspectiva, de cabelos divididos, postura amedrontada e gestos nervosos, e principalmente de Piper Laurie como sua mãe, fanática religiosa. Mais do que os colegas, é ela a responsável pelo banho de sangue que a menina, que possui dons telecinéticos, promove no Baile de Formatura. Mesmo que o fanatismo não cegue a menina, que sonha em interagir com seus colegas e sabe que o dom que possui não é uma manifestação do demônio, uma vida inteira criada dentro dos costumes castradores da mãe alimentam a explosão dos poderes ocultos da menina, que é ridicularizada no Baile.
Rever “Carrie” com atenção mostra um domínio invejável de DePalma sobre o tema ao qual se debruça. Ele alterna momentos tocantes e idílicos com abruptas intervenções no clima da cena, de forma tão brusca que levam o espectador de um lado a outro de sua percepção. O inocente banho é repentinamente interrompido pelo terror de Carrie com a primeira menstruação em um vestiário repleto de garotas prontas a ridicularizarem-na. A expectativa de um garoto, circundando as árvores em planos alternados de câmera, atrás de Carrie, é interrompido abruptamente pela manifestação rápida dos seus poderes. Na sua primeira aparição, a câmera sobrevoa a quadra do colégio para repousar, candidamente, no rosto de Carrie, na primeira manifestação de sua pouca popularidade. E toda e qualquer manifestação dos poderes ocultos da jovem surgem em momentos rápidos, que estouram sob um único acorde da trilha de Pino Donaggio – trilha, aliás, exemplar, que bebe na fonte de Bernard Herrmann mas consegue alternar os acordes assustadores com momentos tocantes.
E a construção do horror adolescente, em suas várias faces, atinge seu auge estilístico na seqüência do baile: A transformação da jovem, de Rainha do Baile para Rainha da Morte, quando Carrie, coberta de sangue, exibe seus olhos abertos e frios, sua expressão sem emoção, quando as portas se fecham, e a tela se divide em duas para mostrar a reação do público apavorado e as expressões de Carrie, apenas contemplando a destruição que promove. Já seria digno de constar em um dos grandes momentos da carreira de DePalma – que ensaia os momentos de slowmotion e antecipação que retomaria com tanto brilhantismo posteriormente na seqüência em que Amy Irving prevê o que está para acontecer mas tenta, sem sucesso, impedir. A força dos grandes olhos de Sissy Spacek mesclados com o vermelho que cobre seu rosto são assustadores e DePalma volta a trazer o espectador para o outro lado da moeda quando ela retorna para casa, apenas para, novamente, girar o botão novamente em uma seqüência que atesta toda a repulsa do público para com a figura da mãe. Essa capacidade de trabalhar tão bem o terror de forma não gratuita e constante coloca o filme de DePalma como um dos grandes momentos do gênero.
(Carrie, EUA, 1976 ) Direção de Brian DePalma, com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Kat, Nancy Allen, John Travolta. 98min(Sink the Bismarck, EUA, 1960 ) Direção de Lewis Gilbert, com Kenneth More, Dana Wynter, Carl Mohner, Laurence Naismith, Karel Stepanek, Maurice Denham, Geoffrey Keen, Michael Hordern, Esmond Knight, Edward R Murrow
Razão e Sensibilidade
( Sense and Sensibility, EUA, 1995 ) Direção de Ang Lee, com Emma Thompson, Kate Winslet, Hugh Grant, Akan Rickman, Tom Wilkinson 


De longe a melhor revisão do mês. É ótimo ver que todo o frescor da adaptação dos sempre sisudos romances de Jane Austen não tenha sido apenas saboroso de assistir em seu lançamento, mas parece ter ficado ainda melhor depois de mais de 10 anos. É quase absurdo como o filme, na verdade, é uma espécie de novela, um dramalhão onde tudo se concentra em ditos e não ditos, em fofocas, pessoas que se intrometem na vida alheia, o rigor e a supervisão de uma sociedade fuxiqueira intervindo na vida das pessoas. Absurdo porque é delicioso de se assistir, e tão simples que chega a irritar a forma como Ang Lee desfila esse rosário de pequenas histórias e personagens de forma tão natural.
O mais genial em “Razão e Sensibilidade” é como o filme se sustenta em uma espinha dorsal chamada Emma Thompson ( autora do roteiro oscarizado ) e nela se apóia um elenco brilhante. Ela é a mais velha de 3 irmãs, que junto com a mãe é obrigada a abandonar a propriedade onde moram quando o pai e esposo morre. O filho do primeiro casamento herda a propriedade e influenciado pela esposa não tem intenção de ajudar sua meia-família. Em uma sociedade que sobrevivia graças à aparência e ao dinheiro, 4 mulheres pobres não constituem um panorama muito otimista. Os floreios dos homens que surgem na vida delas, as tramóias sociais envolvendo aparências e a busca pelo casamento e o amor movem toda a narrativa. Mas o melhor é a forma como Elinor, a personagem de Thompson, estabelece um diálogo de austeridade com a platéia: a emoção reprimida, as aparências, a doação e a entrega, sempre seus sentimentos em último lugar, sempre as verdadeiras emoções represadas, escondidas. Toda essa construção explode de forma climática no soluço de emoção contida mais genial da história do cinema. De longe, é o melhor filme baseado na obra de Austen e uma das grandes obras dos anos 90.
Fugindo do Inferno
( The Great Escape, EUA, 1963 ) Direção de John Sturges, com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson, Donald Pleasance, James Coburn
O clássico por excelência dos filmes de fuga, o “Conde de Monte Cristo” dos campos de prisioneiros da segunda guerra mundial. O carisma desse sucesso de bilheteria e crítica não se apóia apenas nos nomes do elenco ( Steve McQueen nunca esteve tão à vontade, e o resto... bem, resto é insulto, basta olhar os nomes brilhantes envolvidos ), mas na forma como transforma um tema sério em entretenimento puro. O campo de prisioneiros americanos e britânicos é quase uma colônia de férias, com a diferença de que a bola de beisebol não pode ir além da cerca de arame. Toda a construção dessa história empolgante se sustenta em uma base que afronta o bom senso: os prisioneiros que mais se notabilizaram em fugir dos campos alemães são todos reunidos em um local só, um campo dito de fuga impossível. “Reunir todas as laranjas podres em uma cesta”. Não poderia haver idéia mais imbecil, mas como era de praxe retratar os alemães de forma pouco fulgurosas, tal concentração é um convite às mentes criativas de homens especializados em fugir dos buracos onde eram enfiados. Acompanhar essa trama é um passatempo delicioso, e a cena, logo no início, onde eles tentam fugir no meio de trabalhadores russos é um exemplo do frescor ingênuo e puramente aventuresco de um filme que teve a coragem de resolver suas diversas tramas de fuga da maneira menos fácil. O destino desses inglórios trapaceiros - mesmo uma cena de execução em massa não mostrada explicitamente – torna tudo mais amargo, e por isso mesmo, inesquecível.
13 dias que abalaram o mundo
( Thirteen Days, EUA, 2000 ) Direção de Roger Donalson, com Kevin Costner, Bruce Greenwood, Steven Culp, Dylan Baker
Roger Donaldson é um operário dedicado, que costuma sempre entregar o que se espera dele (“Cocktail”, “Sem Saída”, “O inferno de Dante”, “O novato”, “A Experiência). As parcerias com Kevin Costner são seus melhores trabalhos. Particularmente, “13 Dias que Abalaram o Mundo” ia no caminho certo para ser o melhor dos seus filmes, com austeridade e pés no chão. Sem emoção, sem exageros, revivendo a Crise dos Mísseis de Cuba quando a URSS decidiu armar mísseis nucleares em Cuba, foi descoberta pelos Estados Unidos e gerou o período de tensão que mais aproximou o mundo de uma terceira guerra mundial. A recapitulação desses eventos, vistos a partir, unicamente, dos interiores da Casa Branca, é primorosa na maior parte do tempo, ainda que evidenciando apenas um lado. Tecnicamente, e em sua narrativa, funciona muito bem – e o bom elenco ajuda muito. É fácil acompanhar esse tipo de trama ao lado de Costner, ator com empatia fácil e garantida. O melhor dessa história é perceber que Donaldson não está tão preocupado em revisar a história, mas contar a história de 3 amigos: os irmãos Kennedy e seu acessor Kenny O’Donnel. Tudo gira ao redor dessa amizade, e a forma como ele estabelece o presidente Kennedy como uma pessoa comum, apesar de admirada, e sempre sobre tensão é o melhor aspecto da história. As trocas de farpas e diálogos entre o trio é o que conduz o filme e estabelece o elo de ligação com o público, e atuações como as de Baker ( como Robert McNamara ) e Culp ( como Bob Kennedy, inclusive fisicamente semelhante ) auxilia nessa construção. Donaldson está tão interessado nisso que acaba se emocionando: é quando ele começa a ver o mito Kennedy maior do que o personagem, e a glorificação, as frases de efeito e gestos sob encomenda eclipsam o que vinha sendo brilhante na sua primeira metade. Ele cedeu ao ícone e ao discurso ufanista – mas que se releve seus méritos de ter feito uma obra com força própria e permanente.
Colors, as Cores da Violência
( Colors, 1987 ) Direção de Dennis Hopper, com Robert Duvall, Sean Penn, Maria Conchita Alonso
Colors foi um retrato polêmico da instável situação de violência que já atormentava as grandes cidades norte-americanas na metade da década de 80, principalmente quando a guerra de raças começou a se tornar insustentável. Não era apenas uma questão de negros e brancos, mas de hispanos, mexicanos, índios e negros lutando por bairros e territórios de tráfico. Colors foi um dos pimeiros filmes a abordar essa questão de frente. Se parece beber na fonte de alguns clichês desse tipo de tema, é bom ter em mente que foi um precursor. Penn, na pior fase de sua carreira, é um tira jovem e cheio de esperanças, que torna marginais e as ruas seu campo de batalha particular, para desespero do velho e experiente policial interpretado por Duvall, raposa das ruas que sabe que mais do que aplicar a lei, é melhor fazer acordos e guardar favores para sobreviver nas ruas. Em torno dos dois – e por causa deles – a tensão racial se desenvolve como uma teia pré-programada, onde todos sabem que a corda vai acordar, apenas não sabem quando e como. Hopper não estica a corda para testar sua resistência, apenas segue sobre ela com segurança.
Fuga do Século 23
( Logan’s Run, 1976 ) Direção de Michael Anderson, Michael York, Richard Jordan, Jenny Agutter, Roscoe Lee Browne, Farrah Fawcett-Majors
A idéia geral que move “Logan’s Run” é mais poderosa do que a canastrice dos efeitos, principalmente o confronto com o robô no gelo assim que ocorre a fuga da cidade. Michael Bay bebeu litros e litros do barril mal conservado deste filme para filmar “A Ilha”, mas se a madeira é velha e mal conservada, o líquido é saboroso. Ele pode resistir a qualquer efeito especial tosco, a qualquer representação datada ou teatralidade. O filme de Anderson também é notável por entender que quando se fala de um futuro pós-apocalíptico, a presença de ícones facilmente identificáveis facilita, e muito, a absorção da platéia no interesse do filme. E vemos Washington tomada de mato e ruínas, o capitólio destruído e a Biblioteca do Congresso ser, num misto de ironia e esperança, a residência do velho sobrevivente: em meio a livros, quadros, fotografias e toda a sabedoria do “velho mundo”, reside a única esperança de que alguém um dia se lembre disso. Na sociedade do futuro, todos vivem somente 30 anos, até passarem por um processo de “renovação” em uma cerimônia conhecida como “carrossel”. Mas alguns sabem que por trás disso existe uma outra realidade. A fuga dessa sociedade não é permitida, e para impedir isso existem os patrulheiros, como Logan. Logan, que descobre que tudo é uma farsa, a renovação é a morte e existem sobreviventes fora dos muros hermeticamente fechados da sociedade inodora onde vive. É saboroso caminhar pela Washington devastada e ouvir o velho sobrevivente afirmar que “vivíamos nessas casas, em grupos, várias pessoas, mas acho que elas se tornaram pequenas demais para nós.” É a idéia de “Fuga do Século 23” que sobrevive e voa mais alto do que a precariedade da produção e deve ser sempre lembrada.
Um Ato de Liberdade
(Defiance – 2008 ) Direção de Edward Zwick, com Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Alexa Davalos
Os irmãos retratados neste filme de ação pouco comum de segunda guerra de Edward Zwick na verdade buscam acima de tudo vingança. Zus é frio, duro, não se importa com a morte. Tulia é centrado, aparenta ser mais sábio, mas no fundo busca esconder a fraqueza, e começa sua jornada buscando vingança. O Filme de Zwick não tem as tradicionais pitadas de heroísmo grandioso, apresenta uma competição entre os irmãos que fundam uma comunidade no meio da floresta da Bielorrúsia para resistir ao avanço nazista na região. É uma comunidade que represa seu ódio, e ele explode em uma cena que mesmo não apelando para o visual, consegue ser forte, quando um soldado alemão é capturado pelo grupo. Mas Zwick também não ousa, e cede aos chavões do cinemão. "Um Ato de Liberdade" podia ser grande se não cedesse a uma pouco compreensível tendência a se diminuir em suas idéias. Mas tem uma das melhores frases do ano quando entra no terreno da política e do poder naqueles tempos de guerra na europa: "“No oeste, um monstro com bigode pequeno. No leste, um monstro com bigode grande. É tudo o que preciso saber sobre política”.
Operação Valquíria
( Valkyrie – 2008 ) Direção de Bryan Singer, com Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Terence Stamp
Quem foi Stauffenberg? Talvez tivéssemos respostas se fosse outro ator, menos famoso, menos astro do que Tom Cruise no papel principal. O filme de Singer é correto, reto, direto, e esse é o problema. Foi feito para ser visto como espetáculo hollywoodiano, quando poderia enveredar por outros caminhos mais nebulosos. Se interessava mais saber o que houve com os envolvidos no plano para matar Hitler - já que o resultado todos sabem qual foi - porque, então, conhecemos tão pouco sobre eles, e principalmente, porque o enlace familiar deles acaba se resumindo a flashbacks e breves passagens? Os personagens secundários são os melhores apresentados em uma história que funciona em algumas seqüências de tensão, mas o filme não expõe a verdadeira verve dos envolvidos : o que os move não é salvar a Alemanha, mas seus próprios rabos acima de tudo. Que vale o filme é Wilkinson, dando de relho no elenco principal, ao interpretar um general de interesses dúbios que fica em cima do muro e se torna um dos grandes empecilhos ao plano por sua indireta condição. No fundo, se fosse para ser com Cruise, que o filme seguisse como começou: todo falado em alemão. Pelo menos haveria algum cheiro de personalidade. “Operação Valquíria” é tão correto que acaba sendo esquecível. Esperava-se mais do diretor que já fez “O Aprendiz” e “X-Men 2”.
Sem Lei e Sem Alma
( Gunfight at the OK Corral, 1957 ) Direção de John Sturges, com Burt Lancaster, Kirk Douglas, Rhonda Fleming, Jo Van Fleet
Clássico lembrado por muitos, “Sem lei e sem alma” é um filme reto. Não tem a sinuosidade marcante de outros clássicos do gênero. Não tem profundidade, não tem emoção, não tem reações. Não ousa, não transgride, não tenta ser, nem durante um segundo sequer, politicamente incorreto. É, até, correto demais. Os bons da versão deturpada de Sturges não morrem. Apenas se ferem, levemente – por mais que a história real tenha colocado a sete palmos da terra um dos irmãos de Wyatt, isso não pode acontecer na história reta e correta de Sturges. O resultado dessa linha reta são interpretações rasas – Burt Lancaster está pálido, uma tentativa de resgatar um herói que não pisca ao tomar suas decisões, mas que é tão natural quanto poderia ser Schwarzenegger interpretando Hamlet. A teatralidade excessiva, marca de alguns dos filmes da época, ajuda a enfraquecer toda a caracterização dramática de uma história poderosa. Aqui, essa história soa mera desculpa para um conto quase infantil dividindo o bem e o mal, os bons e os maus. De tudo que cerca a história de Earp, em “Sem Lei e Sem Alma” é o cemitério de Boot Hill que mais alcança os ouvidos, através da melodia que corta o filme em diversas ocasiões contando em forma de versos a história, mas que desaparece na importância quando se percebe que tudo o que ela canta é uma versão errada, fraca e amadora da famosa história. Como o famoso tiroteio dá nome ao filme, ele se torna uma seqüência longa no clímax do filme. É pensada não como um duelo, que realmente foi, mas uma troca de tiros que, novamente, retira da situação toda a tensão e o suspense que as outras versões souberam explorar. É uma pena tendo em vista os nomes dos envolvidos.
A Duquesa
( The Duchess, EUA, 2007 ) Direção de Saul Dibb, com Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper, Hayley Atwell
Visão que tenta fazer um paralelo da futilidade da sociedade no século XVIII com os tempos atuais, e faz isso da forma mais direta possível: a Georgiana Spencer vivida por Keira Knightley é antepassada da Diana Spencer que morreu em um túnel perseguida por Papparazzis. Ambas tinham características semelhantes: vividez, disposição, brilho próprio em meio a um ambiente seco e árido de frivolidades. Mas Saul Dibb cede à idéia de se render à sua protagonista. O problema é que, se Keira Knightley é linda – e parece casar bem com esse estilo de filme – ela não é, ainda, uma atriz esplendorosa a ponto de segurar a atenção de um filme inteiro. Pior, de ser o coração de toda a atenção do público a esse filme. “A Duquesa” tem um ponto forte na atuação contida de Ralph Fiennes, mas não deixa marcas na memória. Melhor assistir em alguma exibição na televisão, casualmente, zapeando canais.
Atos que desafiam a Morte
(Death Defying Acts, EUA, 2007 ) Direção de Death Defying Acts, com Catherine Zeta-Jones, Guy Pearce, Timothy Spall, Saoirse Ronan, Jack Bailey, Aaron Brown
O Ilusionista e O Grande Truque, com mágicos de mentira, frutos da imaginação, acabam sendo mais palpáveis do que a história do verdadeiro mágico e ilusionista que inspirou todos, o quase lendário Houdini. Incrivelmente, aqui Houdini é coadjuvante, ou uma desculpa para o que parece ter sido pensado como um veículo para dois nomes conhecidos que, no entanto, em nenhum momento exalam a mínima química que fazer o público acreditar na intensidade do que vê – e isso é essencial para dar o mínimo de veracidade à trama, já que esses sentimentos são catalisadores.
Qual a razão, afinal, do filme de Gillian Armstrong falar de Houdini ou transformá-lo em um background de luxo para uma história que nunca diz ao certo onde quer chegar? O interesse romântico – que não empolga – torna o que já era fraco em um drama fácil, açucarado. O público acompanha as duas na busca por saber mais sobre o mágico, talvez o grande astro pop de sua época - antes de saberem o que significava isso - mas o roteiro não se esforça para jogar alguma luz em uma das mais misteriosas personalidades da história. A audiência acaba ludibriada, sem entender muito além do jogo de obviedades que o roteiro reserva nesse pseudo-aprendizado. Pior, o roteiro joga com possibilidades e parece não percebê-las, especialmente quando enfoca a parceria entre Houdini e seu assistente: qualquer cena dos dois tem mais profundidade do que as ditas tramas principais, como que evocando uma história que pedia para surgir, mas ficou eclipsada. Ninguém percebeu que estava nessas entrelinhas que surgem brevemente a verdadeira história que ainda não foi contada no cinema? “Atos que Desafiam a Morte” joga com muitas possibilidades, e não trilha nenhum caminho. Fica sempre na metade.
Próximas críticas rápidas:
Geleiras do Inferno, Che – O Argentino, O Homem que odiava as mulheres, Superman 2 – The Richard Donner Cut, A Última Amante , Jasão e o Velo de Ouro, Sinbad e o Olho do Tigre, Guerra de Noivas.


“O Império do Sol” é menos um filme de guerra do que uma história de como um ser humano pode se esconder dentro de uma cápsula e fazer do mundo exterior não um completo desconhecido, mas um universo moldado à suas vontades, e nele sobreviver. Principalmente quando se é uma criança. No fundo, é disso que se trata aquele que talvez seja o mais descaradamente apelativo filme de Spielberg: a história de uma guerra que é transformada em um mundo particular. Em que um menino molda as circunstâncias e as interpreta de tal maneira a fazer com que as resistências se dobrem. A cápsula na qual ele se refugia é sua paixão por aviões. O mundo que ele cria é tão seu que se torna um mini-cosmo que recheia de importância coisas que pareceriam banais. Que não se veja “Império do Sol” como um filme de guerra ou a odisséia de um menino sobrevivendo aos horrores da guerra ( o mesmo tipo de frases prontas que surgem sempre que se fala no filme ). É uma história que quase foi posta a perder pela vontade de Spielberg de suplantar seu material, sem perceber o quão bom ele é.
A paixão anormal por aviões do jovem Jim, ironicamente, acaba separando-o do seu mundo, mas o mantém vivo no novo universo. É por causa de um avião, no caso um de brinquedo, que ele se separa dos pais durante a confusão que se instala em Shangai quando tropas japonesas invadem a cidade durante a 2ª Guerra Mundial. Mas é irônico constatar que são vários os “mundos” que surgem na trajetória de Jim – uma história autobiográfica do escritor JJ Ballard. O primeiro mundo irreal é aquele no qual ele vive com seus pais no meio da sociedade britânica que se forma em Shangai. Uma realidade tão fantasiosa que faz com que o garoto enxergue as mazelas nativas do local como uma curiosidade mórbida. Não à toa, ele chega a dizer em certo momento que “é inglês, mas nunca pisou na Inglaterra”. É um inglês, mas seu país soa tão falso e distante para ele que talvez por isso alimente a vontade de entrar para o grupo americano durante os anos de cativeiro no campo de concentração.
Sua Inglaterra de faz de conta é sustentada sob o fio de uma navalha em uma terra longínqua e repleta de tensões. O segundo mundo que ele conhece é o mundo das ruas, que surge como um choque. E o terceiro é aquele que surge moldado pela sua fantasia, mesclado com a realidade do campo de concentração para onde é enviado, e onde se relaciona com uma nova sociedade, formada por britânicos e americanos, especialmente pelo seu ídolo, Basey ( John Malkovich ).
Durante sua passagem por esses três mundos, Spielberg pincela as descobertas de Jim sempre alimentadas pelo amor incondicional que ele nutre por aviões. Faz uma homanegam a “...E O vento Levou”, com um imenso pôster do filme onde a cena do incêndio em Atlanta pintada no cartaz compõe um paralelo interessante com as ruas da cidade destruídas pelo avanço japonês. Essa pequena composição é mais interessante do que as inúmeras cenas em que Spielberg, de forma desnecessária e superficial, cria seqüências de beleza plástica vazias. Dessa síndrome nem a trilha de John Williams consegue se desvencilhar – apesar de pomposa, ela deixa claro a vontade do filme de ser maior do que realmente é.

Mas é interessante lembrar que mesmo seqüências que soam forçadas são importantes porque determinam que Spielberg constrói seu filme sobre um ponto de vista fantasioso, sob a visão de Jim. É uma indicação muito sutil, mas que vai se cristalizando pouco a pouco. A cena de Jim prestando continência e sendo retribuído por 3 pilotos japoneses é um exemplo. Esse tipo de reação impensável à determinadas situações reflete que aquela realidade é a realidade criada pelo seu protagonista, sua bolha, sua válvula de escape. E nesse mundo, as coisas acontecem para alimentar a visão idealista de Jim, ainda que ela soe inverossímil – e a comprovação dessa tom disfarçado como realidade vem no piloto que, sorrindo abana para Jim enquanto bombardeia o campo de pouso japonês ao lado do campo de concentração. É uma visão lírica da guerra mesclando realidade e fantasia. É quase como uma coleção de lembranças que, por mais que se saiba serem irreais, sejam tão palpáveis ao verdadeiro protagonista, o JJ Ballard que escreveu a história autobiográfica e colaborou no roteiro.
Por trás das cenas criadas quase sob encomenda para o ápice do sentimentalismo – em muitas das vezes totalmente barato – de Spielberg existe a todo instante um murmúrio que sussurra ao espectador, como que dito pelo próprio Ballard: “Ei, você pode achar que não cola, mas é assim que EU me lembro daquele tempo, quarenta anos atrás. São as MINHAS lembranças de garoto de uma época totalmente surreal para uma criança”.
É baseado nessas idéias que “Império do Sol”, se assim compreendido, pode deixar de ser excessivamente tolo e exagerado, e se enquadrar quase como um sonho relembrado, e não um filme real de guerra. Não é. Provavelmente, nunca foi, apesar de algumas vozes contrárias.
É uma lembrança surreal com quase três horas de duração, como as que nós mesmos temos de certos eventos que, com o passar do tempo, por mais que jurem ter sido diferentes, acabem se transformando em memórias que nós construímos e alimentamos. E aí nem adianta dizerem que não foi bem assim. Para Ballard, aquele piloto realmente acenou para ele durante o bombardeio, os soldados japoneses realmente lhe prestaram continência e por alguns instantes, ele jurou que a bomba atômica era a alma de uma recém falecida subindo aos céus. Essa é – acima das tentativas extremamente forçadas do diretor – a grande beleza que se sobressai de “O Império do Sol”, além da presença forte de Christian Bale. Seu olhar destroçado na cena final cria um momento que é difícil de ser ignorado e vale mais do que todas as criações supostamente engrandecedoras do diretor nas quase três horas anteriores.


Paul Newman, de “Golpe de Mestre”. Paul Newman, de “Butch Cassidy”. Paul Newman, de “Desafio à Corrupção”, “Inferno na Torre”, “Marcado pela Sarjeta”. Mas acima de tudo, Paul Newman, de “Rebeldia Indomável”. Se fosse preciso escolher um filme – e é uma possibilidade idiota – para definir o que representou Paul Newman na história do cinema, bastaria a indicação de “Rebeldia Indomável”para apresentar os predicados de um dos maiores mitos da história do cinema, digno representante de um tempo onde tudo em uma produção podia girar em torno de uma interpretação, do carisma infindável de um astro, da própria essência dele em cada frame de um filme.
“Rebeldia Indomável” transpira Paul Newman em cada segundo, e por mais que pareça exagero tantas afirmações em torno do carisma do grande astro em seu papel mais famoso, o de Luke Jackson, sua presença é tão hipnótica que confirma a idéia de que, hoje, tempos como o de “Cool Hand Luke”não existem mais, porque os grandes astros, da forma como existiam antes, não existem mais ( e não é demérito a todo o talento absurdo de atores como Pacino, DeNiro e outros ), e que exemplos do que acontece aqui no filme de Stuart Rosenberg são únicos. O filme é a apoteose de um ator. Tudo gira em torno dele, tudo é feito por ele, tudo responde a ele.
O Luke de Newman é um rebelde por natureza, preso por um crime insignificante e condenado a dois anos de trabalhos em uma colônia penal rigorosa em suas normas e convenções. O lugar errado para um homem que jamais se dobrou a nenhum tipo de regra, mesmo sem saber ao certo porque ele age assim. Faz parte de sua natureza, ele não pode evitar – como fica claro na conversa que ele tem com sua mãe ( Jo Van Fleet, admirável em poucos minutos em cena, sentada, atingindo um nível de interpretação que muitos atores apenas sonham em uma carreira inteira ). Uma característica indissociável de Luke, que se percebe desde a luta de boxe célebre com Dragline ( George Kennedy, ganhador do Oscar de coadjuvante, enquanto Newman foi indicado pelo desempenho) , primeiro seu desafeto, e pouco a pouco dependente do sopro de vida e inconformidade de Luke. Luke era o filho mais amado ( “Sempre se ama mais a um filho do que a outro”diz sua mãe, com amargor ) mas não correspondeu äs expectativas, simplesmente porque jamais se dobrou a atender à expectativas de ninguém.A presença de uma personalidade tão forte em um ambiente fechado só pode causar problemas, e causam.
Mas a imposição do sistema tentando dobrar a personalidade do prisioneiro é desafiada com uma simples frase: “Vai ter que me matar!” E como dobrar um homem que se dispõe a comer 50 ovos em uma hora apenas para ganhar uma aposta? Um homem que afirma sem pudores que, em determinadas situações, mais vale a pena não ter nada, nem um ás na manga, mas se sentir livre para fazer a jogada que bem entender?
Essa veia inconformista transpira em cada poro da interpretação de Newman. A ironia do sistema, na figura do diretor da colônia penal, é alegar falta de comunicação ( toda a frase se tornou Cult e popular depois que o Guns n`Roses a usou na íntegra na introdução de uma de suas músicas, “Civil War”). Esse tipo de reação ao sistema e ä sua forma de comunicação e suas normas tornou o personagem de Luke em um ícone do inconformismo. “Me ame, me odeie, mas prove que está aí” grita ele, na chuva, para Deus, esperando uma resposta – que, obviamente, não surge. Esse ressentimento com os rumos da própria vida ainda surgem em uma cena memorável, onde Newman toca e canta "Plastic Jesus" após perder a única pessoa que parecia entendê-lo.
O sorriso de Newman cai como uma luva para transparecer ironia e uma madura sensibilidade ao tema em resposta ao “Ele é nosso”pregado pelos guardas da prisão – a própria encarnação do sistema controlador, representada principalmente pelo chefe dos guardas que nunca mostra seus olhos, sempre se esconde atrás dos óculos espelhadas que refletem o mundo da colônia penal. O sorriso de Luke, ao finalmente se dar conta de que eles – os guardas, a prisão, a vida, o sistema, as regras –“ jamais bateriam nele novamente” sela com chave de ouro uma obra que atesta o esplendor máximo de um dos maiores atores da história do cinema. “Rebeldia Indomável”é essencial.




