



Paul Newman, de “Golpe de Mestre”. Paul Newman, de “Butch Cassidy”. Paul Newman, de “Desafio à Corrupção”, “Inferno na Torre”, “Marcado pela Sarjeta”. Mas acima de tudo, Paul Newman, de “Rebeldia Indomável”. Se fosse preciso escolher um filme – e é uma possibilidade idiota – para definir o que representou Paul Newman na história do cinema, bastaria a indicação de “Rebeldia Indomável”para apresentar os predicados de um dos maiores mitos da história do cinema, digno representante de um tempo onde tudo em uma produção podia girar em torno de uma interpretação, do carisma infindável de um astro, da própria essência dele em cada frame de um filme.
“Rebeldia Indomável” transpira Paul Newman em cada segundo, e por mais que pareça exagero tantas afirmações em torno do carisma do grande astro em seu papel mais famoso, o de Luke Jackson, sua presença é tão hipnótica que confirma a idéia de que, hoje, tempos como o de “Cool Hand Luke”não existem mais, porque os grandes astros, da forma como existiam antes, não existem mais ( e não é demérito a todo o talento absurdo de atores como Pacino, DeNiro e outros ), e que exemplos do que acontece aqui no filme de Stuart Rosenberg são únicos. O filme é a apoteose de um ator. Tudo gira em torno dele, tudo é feito por ele, tudo responde a ele.
O Luke de Newman é um rebelde por natureza, preso por um crime insignificante e condenado a dois anos de trabalhos em uma colônia penal rigorosa em suas normas e convenções. O lugar errado para um homem que jamais se dobrou a nenhum tipo de regra, mesmo sem saber ao certo porque ele age assim. Faz parte de sua natureza, ele não pode evitar – como fica claro na conversa que ele tem com sua mãe ( Jo Van Fleet, admirável em poucos minutos em cena, sentada, atingindo um nível de interpretação que muitos atores apenas sonham em uma carreira inteira ). Uma característica indissociável de Luke, que se percebe desde a luta de boxe célebre com Dragline ( George Kennedy, ganhador do Oscar de coadjuvante, enquanto Newman foi indicado pelo desempenho) , primeiro seu desafeto, e pouco a pouco dependente do sopro de vida e inconformidade de Luke. Luke era o filho mais amado ( “Sempre se ama mais a um filho do que a outro”diz sua mãe, com amargor ) mas não correspondeu äs expectativas, simplesmente porque jamais se dobrou a atender à expectativas de ninguém.A presença de uma personalidade tão forte em um ambiente fechado só pode causar problemas, e causam.
Mas a imposição do sistema tentando dobrar a personalidade do prisioneiro é desafiada com uma simples frase: “Vai ter que me matar!” E como dobrar um homem que se dispõe a comer 50 ovos em uma hora apenas para ganhar uma aposta? Um homem que afirma sem pudores que, em determinadas situações, mais vale a pena não ter nada, nem um ás na manga, mas se sentir livre para fazer a jogada que bem entender?
Essa veia inconformista transpira em cada poro da interpretação de Newman. A ironia do sistema, na figura do diretor da colônia penal, é alegar falta de comunicação ( toda a frase se tornou Cult e popular depois que o Guns n`Roses a usou na íntegra na introdução de uma de suas músicas, “Civil War”). Esse tipo de reação ao sistema e ä sua forma de comunicação e suas normas tornou o personagem de Luke em um ícone do inconformismo. “Me ame, me odeie, mas prove que está aí” grita ele, na chuva, para Deus, esperando uma resposta – que, obviamente, não surge. Esse ressentimento com os rumos da própria vida ainda surgem em uma cena memorável, onde Newman toca e canta "Plastic Jesus" após perder a única pessoa que parecia entendê-lo.
O sorriso de Newman cai como uma luva para transparecer ironia e uma madura sensibilidade ao tema em resposta ao “Ele é nosso”pregado pelos guardas da prisão – a própria encarnação do sistema controlador, representada principalmente pelo chefe dos guardas que nunca mostra seus olhos, sempre se esconde atrás dos óculos espelhadas que refletem o mundo da colônia penal. O sorriso de Luke, ao finalmente se dar conta de que eles – os guardas, a prisão, a vida, o sistema, as regras –“ jamais bateriam nele novamente” sela com chave de ouro uma obra que atesta o esplendor máximo de um dos maiores atores da história do cinema. “Rebeldia Indomável”é essencial.


Não é por acaso que “Afundem o Bismarck” de Lewis Gilbert é mais conhecido como um semi-documentário do que, propriamente, um filme de ficção. Todo o desenrolar da trama, baseado em livro de CS Forester, é conduzida de forma documental, extremamente burocrática, sem sub-tramas de destaque – ou ao menos que consigam emergir com algum destaque – complementando a trama principal. Mas essa reconstituição da operação deflagrada pelo comando naval aliado para afundar o Bismarck, couraçado de guerra que era o orgulho da frota alemã e o mais poderoso navio singrando os mares em 1941, não é chata para quem gosta do tema. Soa educacional, mas fácil de assistir.
“Afundem o Bismarck” lembra muito “A Caçada ao Outubro Vermelho”, mas a temática é tão óbvia que o fato do filme de McTiernam beber dessa fonte não significa nenhuma inspiração. Obviamente, a dinâmica da história de 1989 é mais ágil, menos didática, mais absorvente. O que não significa, também, que “Afundem o Bismarck” seja enfadonho, mesmo que seja um filme onde muitas das emoções e conflitos não saiam do gabinete – pelo menos as que têm alguma profundidade à trama. Mesmo essas, porém, não são aprofundadas a um nível minimamente compreensível para elementos do roteiro que recebem tanta menção, como todo o plot envolvendo o filho de Sheppard, o oficial interpretado por Kenneth More que assume o comando das operações navais aliadas justamente quando o Bismarck é avistado em seu ancoradouro na Noruega. Se a trama paralela envolvendo o filho de Sheppard serve para demonstrar o alcance das emoções aparentemente inexistentes do personagem, simplesmente não precisaria ser mais do que mencionado, porque não evolui nas poucas cenas em que ele aparece. É um filme onde as emoções e conflitos não saem do gabinete e ali se estabelece o único núcleo interpretativo de peso (onde se destaca Dana Wynter como Davis, assessora particular de Sheppard)
O almirante Lutjens de Karel Stepanek, grande vilão do filme, é um escalador militar, um homem que admite ter sido negligenciado, e usa sua posição – e o navio – para ser visto, celebrado e bajulado. Sua petulância e auto-suficiência são a derrota do Bismarck. Lutjens é uma caricatura, típica da época em que o filme foi feito, apresentado mais como um personagem imaginado ( vilanesco, obviamente ) do que humano. Olhos esbugalhados, frases de efeito que não se enquadram em um vilão minimamente real (nenhum oficial alemão na guerra dizia algo como “Nunca se esqueçam que são nazistas”).
Um dos maiores problemas do filme de Gilbert é não estabelecer no público a dimensão e importância da caçada que conduz toda a trama. Ele pouco mostra do poderoso Bismarck. Falha, assim, em estabelecer a dimensão da ameaça que movimenta todo o comando naval aliado – os efeitos, baseados em cenas de documentários e maquetes não prejudicam o filme como muitos afirmam. O maior erro é que em nenhum momento a grandiosidade e o poder do Bismarck é convincentemente apresentado ao público.
Historicamente, na cronologia dos acontecimentos, o filme é quase impecável, empatia ampliada pela participação de Ed Murrow, um dos mais famosos repórteres da história do jornalismo norte-americano, citando sua célebre reportagem "This is London...", considerada uma das três maiores da história do jornalismo – mas falta um ritmo crescente de tensão e interesse. É linear em seu ritmo, nunca amplia ou o diminui. Quando chegamos ao ponto culminante da caçada, tudo termina como se fosse apenas mais uma página do roteiro. Não a ação em si, mas a construção do clima narrativo torna-se tão fechada quanto o roteiro linear. O estilo documental de “Afundem o Bismarck” acaba sendo os dois lados da moeda: é o grande mérito pela autenticidade, e o calcanhar de aquiles pela falta de emoção. Nada que admiradores do gênero venham a reclamar muito.
Direção de Peter Collison, com Micharl Caine, Noel Coward, Raf Vallone, Benny Hill, Rossano Braz


Se você assistiu “Uma Saída de Mestre” com Mark Whalberg, Charlize Theron e Edward Norton e ficou curioso para conhecer o original “Um Golpe à Italiana”, com Michael Caine, esteja bem ciente que a refilmagem de 2003 puxou apenas a idéia de um golpe realizado na Itália e o uso das Mini Coopers na fuga. E só. “Um Golpe à Italiana” é, acima de tudo, uma diversão ligeira, uma comédia com toques de noonsense embalada pelo típico ritmo da época. Não tenta ser séria, não prima pela atenção aos mínimos detalhes do suntuoso golpe que dá título ao filme. Na verdade, não quer essa seriedade. Exala um charme próprio do início ao fim, sempre conduzido por um Michael Caine nitidamente se divertindo à beça com seu personagem – e tem como coadjuvante de luxo um Noel Coward impagável como um lorde britânico expert em patrocinar grandes golpes, preso (?!) em uma penitenciária nos Estados Unidos, de olho em todos os movimentos do trabalho patrocinado por ele na Itália.
Em alguns momentos, a completa inverossimilhança de algumas situações beira o ridículo, mas o desenrolar da ação mostra, aos poucos, que tudo é uma grande brincadeira. O trabalho em questão é roubar quatro milhões de dólares transportados por um comboio da Fiat em Turim. Para isso, o grande grupo de simpáticos trapaceiros comandados por Charlie Croker (Caine) investe em sabotar o sistema de tráfego de Turim, driblar os olhos atentos da Máfia italiana e se empenhar em uma rota de fuga maluca que tem tudo para dar errado, mas como não poderia deixar de ser, se transforma na grande graça do filme. É na meia hora final que “Um Golpe à Italiana” justifica toda a atenção que captura do espectador – apesar de o filme inteiro ser orquestrado em torno do golpe, a maior parte dele é gasta na construção de seus personagens e na apresentação do que se configura como uma grande brincadeira, uma diversão, apesar de ser o “grande golpe do século XX”. A presença da máfia como oposição ao grupo poderia ser melhor explorada no momento do golpe e o noonsense de algumas situações pode acabar atrapalhando um pouco – em determinados momentos, as tiradas cômicas acabam ficando deslocadas – mas mesmo isso não tira o sorriso em ver Noel Coward regozijando-se na prisão, aplaudido até por guardas, após o trabalho bem realizado. A fuga em si, se não tem a edição tresloucada da refilmagem, é uma diversão só, apesar de ter algumas seqüências completamente sem sentido, reforçando o sentido de uma grande brincadeira com ( e para ) o espectador.
Tudo termina no embalo irônico de “This is the self-preservation society” e um final simplesmente genial – que ainda motiva algumas discussões sobre o que terá, afinal, acontecido. Esses 5 minutos finais são tão geniais que, sozinho, compensa as falhas de um roteiro com argumento brilhante mas furos óbvios. É preciso ver para crer, mas a última frase de Croker no filme, e o insólito de sua situação deveriam ser mais lembrados como uma das grandes cenas do cinema. Termina “Um Golpe à Italiana” de forma magistral, e é impossível não sorrir quando sobem os créditos. O cinema, definitivamente, é muito divertido quando não se leva a sério.
Direção de Jack Clayton, com Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins


Toda a gramática cinematográfica do mais famoso plot das histórias de terror – a antiga casa assombrada – tem em “Os Inocentes” sua obra de referência definitiva. Mas Jack Clayton não fez apenas um filme assustador. Existe conteúdo na superfície de uma aparente superficialidade da história. A perda da inocência é um dos motes que circundam a história baseada no livro “A Volta do Parafuso” de Henry James, publicado em 1898. Há um leve ensejo de sexualidade reprimida na estranha relação de uma governanta com duas crianças em uma antiga mansão na Inglaterra, e acima de tudo há um visual magnífico, principal colaborador para que o grande elemento triunfante do filme de Clayton seja um exemplo: o terror não é explícito, ele é sugerido, é psicológico, e mesmo quando se torna visual, não é apelativo.
São tantas camadas compondo esse objeto que elas se alternam na condução da história com uma unidade impressionante. A governanta de Deborah Kerr é contratada para cuidar de duas adoráveis crianças, dois irmãos sem pais praticamente abandonadas pelo tio que mora em Londres. A mansão vitoriana onde ela terá, além das crianças, a companhia dos empregados da casa – em particular a empregada temerosa – é um personagem á parte. Ela esconde uma história de obsessão, sexo e morte que gravita em torno dos personagens, principalmente das crianças. A governanta começa a pensar que não estão sós na mansão. A suspeita de uma presença maligna se cristaliza aos seus olhos em diversos momentos, mas ninguém mais parece enxergá-las. E essa presença começa a se manifestar alterando o comportamento das crianças, que é assustadoramente dúbio, distante e insensível em alguns momentos. Se a existência desses espíritos não era afirmada categoricamente no livro de James, aqui eles aparecem, mas Clayton constrói essa teia de diferentes motivações de forma a plantar a dúvida no público: eles existem ou ela está enlouquecendo?
“Os Inocentes” é corajoso por trazer em uma de suas camadas uma relação estranha entre Kerr e o menino, que alterna a inocência de uma criança com um comportamento adulto e implacável. Não mais de uma vez, essa relação arranha a superfície da sugestão sexual, reprimida, ( contribuição de Truman Capote para o roteiro? ) confusa na mente da mulher que cada vez mais percebe que a história contada pela empregada ainda tem ecos no lugar.
O assustador no filme não vem do apelo visual – até porque kerr anuncia, com grandes olhos arregalados e expressão de espanto o surgimento das aparições nos cantos escuros e vidros da casa – mas de todo o clima de incerteza e inoperância da personagem no meio de um pesadelo psicológico. Vultos atravessam corredores à noite, surgem no meio de um lago, no topo de uma torre, sorriem demoniacamente por trás dos vidros. Esse terror psicológico é ampliado pelo brilhante contraste entre luz e sombra, pelo movimento das sombras nas paredes, no chão, no teto, pelos ângulos deconstrutivos, pela sobreposição de imagens alternando sonho e realidade, pelas brincadeiras com reflexos que também alternam o mundo real e o mundo espiritual. Pelo simples repetir de uma voz inocente cantando "Oh Willow Wally". No meio desse crescente terror psicológico, a história é ainda mais corajosa por não ceder à pressão do óbvio e incorrer em caminhos tristes em seu final. Não vai contra tudo aquilo que vinha construindo ao longo da história. É perturbador, e visualmente uma das experiências mais brilhantes da história do gênero – “Os Outros”, de Amenábar, bebeu muito na fonte do filme de Clayton.
(In the Heat of the Night, EUA, 1967)
Direção de Norman Jewison, com Sidney Poitier, Rod Steiger, Lee Grant, Warren Oates, Beah Richards.

É mais promissor do que propriamente competente este vencedor do Oscar de melhor filme, que entretanto parece prever em diversos aspectos o discurso do filme policial dos anos 90, trinta anos antes. Mas é um filme morno em sua resolução, ainda que sua força esteja não propriamente na busca pela solução de um crime, e sim na relação entre os envolvidos e o pano de fundo em que ela se desenrola. Estamos nos anos 60, em uma cidade do extremamente racista sul dos Estados Unidos, onde um importante empresário é encontrado morto na rua. O primeiro suspeito encontrado na estação ferroviária, altas horas da madrugada, é o negro Virgil Tibbs, vindo do norte, bem apessoado, sempre um olhar de fúria contida misturada com escárnio. É a força de Sidney Poitier como Tibbs que conduz o filme de Norman Jewison, mas é o oscarizado Rodd Steiger, como o chefe de polícia Gillespie, que dá liga a seus elementos dispersos. Tibbs é um oficial de polícia, o engano logo é desfeito, e por uma série de circunstâncias é ele quem acaba investigando o homicídio em uma comunidade extremamente racista.
Mais do que tenso – o que até consegue ser em alguns poucos momentos -, “No Calor da Noite” é um drama policial extremamente leve que apenas arranha na superficialidade o tema espinhoso que usa nas bordas de sua narrativa. Poitier entrega uma interpretação de um homem que todos percebem ter que enfrentar todos os dias a dúvida sobre sua capacidade, pela sua cor, um sentimento ampliado quando se está preso em uma pequena cidade do sul norte-americano nos anos 60. Mas Jewison não se arrisca a discutir mais essa situação, apenas a coloca como desencadeadora dos conflitos do filme, que se desenrolam com naturalidade e surpreendente leveza. Alguns momentos mostram que ele poderia ter um material diferente se ousasse: o industrial suspeito de matar o concorrente chora ao ser esbofeteado por Poitier, mais por indignação por ter sido humilhado por um negro do que pela raiva ou pela surpresa. E na estufa do mesmo suspeito, Tibbs ouve que ele “gosta de epífidos, entre todas as orquídeas, porque são como os pretos: precisam ser cuidados, alimentados, cultivados.” Preso na delegacia com um suspeito, Tibbs ouve dele a pergunta de “porque está vestido assim, como um branco?” Prestes a ir embora, ouve do delegado que “deveria ter sido chicoteado mais vezes para aprender.” Mas toda a revelação por trás de “No Calor da Noite” se dá quando Steiger encara o vingativo Tibbs e se surpreende: “Meu deus, você é como nós, não é?” para, bem mais tarde, confessar que o negro parecia ser o primeiro ser humano real a pisar naquela cidade em muitos anos. Gillespie não quer Tibbs por perto, mas precisa dele. E Gillespie no fundo, e apesar de toda a carga de rancor racista que construiu ao longo da sua vida, a ponto de ficar enojado com um breve momento de piedade demonstrado pelo negro - simpatiza com Tibbs porque, como o visitante, ele também não é bem visto na cidade.
Direção convencional com alguns bons momentos de Jewison, “No Calor da Noite” inspirou alguns bons temas do gênero décadas depois. Não tocou na ferida como poderia acontecer se fosse filmado hoje, mas pisou em terreno pedregoso para a época em que foi feito. Encarou a barra com bom humor e sutileza. O apoio de Jewison, longe de ser o bom argumento com fraca resolução, foi a dupla central que conduz o filme. Baseado em livro de John Ball, o argumento e a montagem de Hal Ashby também venceram o Oscar. A trilha é de Quincy Jones e a música-tema, que irrompe repentinamente na tela, “In the Heat of the Night”, sai da voz poderosa de Ray Charles. Os dois, claro, negros, e ótimos no que faziam.
( The Hustler, EUA, 1961 )
Direção de Robert Rossen, com Paul Newman, Jackie Gleason, George C. Scott, Piper Laurie

O que diferencia um vencedor de um perdedor? A coragem de arriscar ou a hora de saber parar? Eddie “Fast” Felson é um perdedor nato: tem tudo para ser o maior dos vencedores, mas não tem personalidade para saber, simplesmente, porque está jogando. É um personagem que surgiu despretensioso, e permanece despretensioso, ainda que seja um dos melhores personagens já surgidos para um ator no cinema. Paul Newman encarou Eddie Felson muito jovem, e quando vestiu a pele do personagem, vestiu uma criação que à primeira vista poderia ser de Brando, Dean, ou qualquer ator do famoso método do Actor’s Studio. Mas nenhum dos citados teria o que Newman esbanja no filme de Robert Rossen: a fome com que devora cada gesto, cada palavra, cada movimento de um notável perdedor. Eddie Felson, jogador de sinuca obcecado em vencer o lendário “Minesotta Fats”, seria um prato cheio para qualquer ator. Nem todos poderiam dar tamanha personalidade à ele sem soarem artificiais. Dos salões de bilhar espalhados pela noite à cama de Sarah Parkland, ele jamais deixa, nem por um minuto, de ser o personagem repleto de conflitos, absolutamente digno de pena e ao mesmo tempo admirável em uma falsa autoconfiança que precisa ser controlada.
E o que faria de Eddie um vencedor? O dinheiro e a glória, como pensa o jogador Bert Gordon de um também admirável George C. Scott, ou Felson só será um vencedor quando entender, afinal, qual a razão de jogar?Decadência, perversão e falsidade impregnam “Desafio à Corrupção”. É um filme melancólico, mas que esconde por trás da aparente incredulidade e falta de perspectivas a mesma matéria-prima que Martin Scorsese usou para retomar o mesmo personagem 25 anos depois em “A Cor do Dinheiro”. Nada melhor do que assistir um filme logo após o outro para perceber como Scorsese não fez apenas uma continuação: fez praticamente uma refilmagem, com uma reversão de papéis e uma releitura que justificam o primeiro filme. Eddie, o talentoso perdedor, Bert, o sanguessuga, Sarah, a impotente alcoólatra que só pode observar a queda, sendo arrastada junto. “Eles usam máscaras, e sob elas eles são pervertidos, degenerados e aleijados!” diz ela a Eddie, após pedir a ele que nunca mais se humilhe. São as mesmas palavras que ela escreve no vidro do banheiro como recado ao amante. E ainda que em meio ao whisky, ao cigarro, aos salões de bilhar vagabundos e às bebedeiras, o filme de Rossen deixa sempre uma brecha para que seu protagonista aprenda as mesmas lições que ele tentará passar a um jovem que é praticamente sua imagem e semelhança, em outro filme, 25 anos depois.
Felson encontra as respostas para tudo o que buscava no chão de um quarto de hotel. Após isso, tudo se resume a uma frase. “Aposte em mim Bert, eu não posso perder.” Para quem teve que perder muito para saber o que é vitória, não há mais derrotas possíveis.
( Where Eagles Dare, EUA, 1968 )
Direção de Brian Hutton, com Richard Burton, Clint Eastwood, Mary Ure, Patrick Wymark
"O Desafio das Águias" faz parte do "pacotão" de filmes sobre a segunda guerra mundial que surgiram aos borbotões nos 25 anos que se seguiram ao fim da guerra, em 1945. A premissa básica, nesses filmes, é a de considerar a guerra como um background de luxo para missões intrincadas de espionagem. De fato, filmes como esse foram inspiradores de missões em jogos para computador como "Medal of Honor" e "Call of Duty". A diferença é que, nesses jogos, a ambientação foi toda tirada do cinema pós-Resgate do Soldado Ryan. Mas o apelo desses filmes - e dos jogos - ainda está na atração que a segunda guerra mundial construiu no imaginário popular. Durante 6 anos, os eixos do bem e do mal ficaram claramente definido no imaginário de muitas pessoas. Seria loucura o cinema não aproveitar de tantas possibilidades abertas.
Apesar disso, esse encontro entre Richard Burton e Clint Eastwood rende muito menos do que poderia render. É um desperdício de uma boa estória de Alistair MacLean, que foi "convidado" a escrever essa trama especialmente para o cinema após o sucesso de "Os Canhões de Navarone", obra literária sua. MacLean sabia o terreno que estava pisando. O problema maior não foi dele. Burton é um oficial do exército britânico encarregado de chefiar uma missão de alto risco: resgatar um oficial mantido prisioneiro em uma fortaleza alemã encravada no norte da Bavária. E só. MacLean adiciona bons elementos de surpresa em sua história, que envolve mais do que um simples plano de infiltração na fortaleza, passando antes por um vilarejo e um quartel general controlados pelos alemães. É uma pena que o oficial interpretado por Burton seja, sempre, tão senhor da situação, e tão intocável em meio aos perigos, que jamais chegamos a temer que algo aconteça a ele. Já Eastwood prova que, como ator, sempre foi um excelente diretor, mas seu personagem, um tenente norte-americano, ainda é mais crível do que o "herói" do filme, por estar alheio a todas as tramas que envolvem os personagens. Para piorar, um oficial da Gestapo que se anuncia como o grande vilão do filme simplesmente torna-se descartável sem que sua presença ao longo de todo o filme soe como minimamente justificável.
"O Desafio das Águias" é uma prova cabal de que uma boa estória, nas mãos erradas, torna-se apenas uma boa intenção - e é preciso mais do que boas intenções para fazer um grande filme (grande mesmo, com mais de duas horas e meia). O que restou foi, isso sim, uma vontade danada de conhecer os livros de Alistair MacLean - e de jogar de novo Medal of Honor.
( 2001, A Space Odyssey, EUA, 1968 )
Direção de Stanley Kubrick, com Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Douglas Rain ( a voz de HAL 9000 )


Da alvorada ao infinito
“My god, it’s full of stars”
Stanley Kubrick não podia ser rotulado como humilde. Nunca foi, ou não teria procurado Arthur Clarke, em uma tarde de 1964, com a pretensão de levar às telas um conto sobre a relação entre o universo e o homem. No choque entre duas mentes, talvez à frente de seu tempo, o que sobrou foi uma obra que mesmo datada em seu título tornou-se atemporal. Mais do que isso: “2001 – Uma Odisséia no Espaço”coloca-se em uma categoria diferente. Não se trata somente de um filme. Complementa-se pela obra literária e justifica-se pelas idéias que provoca, e não pelo que explica. Para a consagrada crítica Pauline Kael, “...a linha da narrativa de Kubrick é, talvez, a mais redundantemente gloriosa de todos os tempos.” Não é exagero, porque essa narrativa versa sobre o imponderável da raça humana frente ao universo que ele não conhece ( e nunca vai conhecer, na verdade ). É preciso petulância e confiança para se dispor a falar com propriedade sobre o assunto. Kubrick falou, mostrou e justificou, porque era petulante e tinha coragem.
Os astronautas de Kubrick pisaram na Lua antes dos astronautas da NASA, mas não é exagero afirmar que um fato complementa outro. Toda a tecnologia utilizada para criar a mais realista reprodução da vida no espaço – antes que houvesse sequer exemplos práticos – surgiu da colaboração da própria NASA na produção. Vêem daí a maior parte dos US$ 10 milhões gastos na produção. Eles rapidamente se converteram em US$ 190 milhões, mas esses números não expressam a importância dessa colaboração. A reprodução de futuro de Kubrick é tão perfeita hoje - com CGIs e realidade virtual - como era em 1968. E se hoje a ficção é um veículo para dialogar sobre as possibilidades – e os temores – de nosso futuro, muito deve-se à “2001”, porque antes de 1968, a ficção era um gênero discriminado, infantil e que versava sobre nossas possibilidades mais como um exercício de desejos e menos como uma análise série das nossas possibilidades. Cada frame, cada ângulo de câmera, cada fala em um filme de Stanley Kubrick têm algum propósito. Nunca são acidentais. Quando decidiu compor sua sinfonia sobre o homem e o universo, claramente dividida em quatro atos ( A Aurora do Homem, O Ano 2001, Missão: Júpiter e Além do Infinito ), Kubrick sabia que não poderia fornecer respostas completas, mas poderia deixar perguntas no ar. E esse era, justamente, o maior objetivo de ambos, diretor e escritor. Usando como base “A Sentinela”, escrito em 1951 por Clarke, eles conceberam um conto que pudesse abrigar as raízes da evolução do homem como ser superior, o momento em que alcança o que acharia ser o ápice e, finalmente, a forma como ele percebe sua insignificância frente ao universo.

O primeiro movimento da “sinfonia” composta por Kubrick retrocede há milhões de anos atrás, e acompanha como o homem começa a se diferenciar dos demais animais quando passa a usar o raciocínio lógico e a fazer uso de ferramentas, o seu grande diferencial evolutivo. Observando (provocando...) tudo, um monólito negro cravado na terra próximo a uma tribo de homens pré-históricos. ( e a cena em que essa descoberta se concretiza coloca, em um contra-plongée, o homem – macaco – em um plano superior, até encerrar a cena no mais célebre corte da história do cinema, evoluindo a ferramenta do primário osso à moderna nave espacial ).
A rigor, esse primeiro movimento é complementado pelo último, enquanto os dois movimentos do meio da história encarregam-se de fornecer os elementos que justificam as afirmativas expressas no início e no final do filme. Em 2001, um misterioso monólito é encontrado na Lua (uma sentinela cujo contato com o homem alerta uma inteligência superior de que, ao alcançar o terreno lunar, o homem tornou-se apto a vôos mais altos). Meses mais tarde, uma expedição enviada a Júpiter para descobrir as origens desse mistério acaba em tragédia quando o supercomputador HAL 9000 aparentemente enlouquece, sabotando a missão e tentando matar todos os astronautas, até ser desligado pelo único remanescente da tripulação.

“2001” é a obra de um artista tão seguro de si que se permitiu o luxo de não abrir nenhuma brecha em sua linha narrativa com o intuito de conquistar o público. Kubrick não fez “2001” para o grande público, e aparentemente não estava preocupado com isso. Obra e filme, se nasceram juntas a partir de um mesmo processo criativo, explicitam o fato de pertencerem a pais diferentes. Clarke deu à sua obra um sentido visionário, quase profético. Já Kubrick fez de “2001” um exercício visual muito particular. Meticuloso. Enigmático. Crítico. E silencioso ( menos de 2/3 do filme contém algum diálogo ).
Sutilmente, Kubrick expõe a insignificância do homem através da sua relação com o novo ambiente, o espaço. Ao atravessar as fronteiras de seu pequeno planeta, o homem perde o controle das suas ferramentas ( a caneta que voa na gravidade zero ), regride até tornar-se quase um bebê, que precisa aprender a andar de novo ( lentamente, e com ajuda de botas especiais ) e precisa ajuda até para respirar (a respiração pesada dentro do capacete, várias vezes amplificada em mais de um momento do filme reforça essa dependência e essa dificuldade). O uso das cores também tem seu sutil significado: o vermelho representa o perigo, a ameaça – presente nos avisos das telas e no frio e insensível olho eletrônico de Hal – enquanto o azul do planeta representa a esperança, o futuro ( maximizado na cena final ). E tão importante quanto o jogo visual, a trilha sonora de temas clássicos complementa a narrativa, denotando evolução e ritmo em uma valsa de Strauss ou a pompa e a circunstância em uma peça sinfônica do mesmo compositor ( Also Sprach Zarathustra ).

A tecnologia, um dos dois grandes alvos do “discurso” de Kubrick – o outro é a já dita relação entre o homem e o universo - é ao mesmo tempo a grande conquista e a grande vilã. E a ironia suprema é verificar que, de todos os personagens, é a máquina o único ser a esboçar algum tipo de emoção, a fugir da lógica fria dos números e o pensamento racional. Não é à toa que, no momento em que começa a “morrer”, HAL começa a cantar “Daisy” como se fosse uma criança, contrapondo aos personagens humanos que não demonstram uma só emoção durante o filme, seja nas cenas de perigo ou de tensão. O quase romantismo presente no último ato que vem logo depois, e sua visão poética dessa relação entre homem e universo, até contrasta com a frieza racional do segundo e terceiro atos, mas é perfeitamente justificável porque Kubrick e Clarke também querem dizer que, apesar de pequeno, o homem tem, sim, importância.
O ano que data o filme tornou-se passado, o homem não vive em estações orbitais, não tem tecnologia para fazer vôos tripulados à Júpiter. Mesmo assim – e considerando que muito do que é visto já tornou-se realidade - 2001 não envelheceu. O que sobrevive, mais do que título ou previsões, é seu conceito, e ele não vai deixar de fazer sentido jamais, porque não se propõe a fornecer respostas. “2001” foi feito para gerar perguntas, e tem gerado novas a cada revisão.

PS: A estória já foi tão divulgada que, praticamente, tornou-se uma verdade. Mas se não dá para convencer o mundo, pelo menos entre nós fica estabelecido: HAL não é um anagrama para IBM, como o próprio Clarke revelou mais de uma vez. Se apenas uma vez for suficiente, fiquem com o comentário do próprio escritor presente nos extras excelentes da edição especial lançada este ano no Brasil. Ou, se preferirem, fiquem com a afirmação que ele fez a David Stork em uma entrevista, pouco antes de morrer:
- Tentei, por anos, acabar com a lenda de que HAL viesse de IBM. HAL vem de “Heuristic ALgorithmic” e significa que ele pode trabalhar com um programa pronto ou pode olhar em volta e procurar uma solução melhor. Desta forma, você vai ter o melhor de dois mundos. Foi assim que HAL foi criado.”
( The Agony and the Ecstasy, EUA, 1965 )
Direção de Carol Reed, com Charlton Heston, Rex Harrison, Diane Cilento, Harry Andrews, Alberto Lupo, Adolfo Celi
''Quando você vai terminar este trabaho?''
Preciso confessar que, de Carol Reed, conheço apenas “O Terceiro Homem” e este “Agonia e Êxtase”. Obras como Oliver, Ídolo Caído e A Chave são um mistério. É difícil, então, querer fazer uma comparação desta biografia romantizada de Michelângelo com outros filmes da obra do britânico, e extremamente injusto. Aliás, seria injusto comparar “O Terceiro Homem” com filmes de vários diretores. A história de Harry Lime em Viena é uma tour de force para qualquer carreira. Mas, sendo minha única referência, “Agonia e Êxtase” acaba se tornando uma obra pálida não pelo seu resultado final, mas pelo que se espera que Carol Reed possa fazer.
“Agonia e Êxtase” é um típico produto do cinema americano da metade do século, que transformou até mesmo Moisés em ídolo pop. Baseia-se no romance de Irving Stone sobre os bastidores da pintura da Capela Sistina, na relação entre Michelângelo (Charlton Heston) e o papa Júlio II (Rex Harrison), e tenta lançar alguma luz ao tornar um dos mais famosos gênios da arte na história humana em um ser mais próximo do espectador, com seus conflitos e defeitos. E é aí que acaba descobrindo-se o calcanhar de Aquiles da história – como não li a obra de Stone, é difícil dizer se o problema foi o livro ou o roteiro de Phillip Dunne ( Como Era Verde meu Vale ). Opta-se por privilegiar os conflitos na relação entre Michelângelo e Júlio II, mas para satisfazer ao grande público, há a tentativa de mostrar um sutil romance do pintor com a Condessa de Médici, que acaba não saindo do lugar. Terminamos o filme sem conhecer mais do processo criativo do pintor, nem as razões interiores dos seus conflitos. Michelângelo é mostrado como um homem perturbado por sua obsessão com a arte e a perfeição, mas conhecemos pouco do homem depois de mais de duas horas. É como se nos fosse contada uma impactante história de alguém que conhecemos muito pouco. O fato de o filme começar com um curta documentário sobre a vida de Michelângelo é um indicativo de que, talvez, os próprios produtores tenham se dado conta de que o filme não responde a muitas perguntas sobre seu personagem principal. Acaba tornando-se uma seqüência que, se apresenta-o ao público leigo, poderia ser dispensável se tais perguntas fossem ao menos abordadas no roteiro. Para piorar, o desenvolvimento do filme ainda coloca o célebre arquiteto Bramante como um quase vilão da história.
Por isso “Agonia e Êxatse” empalidece na comparação com outra obra de Reed. Se em “O Terceiro Homem” acabamos conhecendo muito de Harry Lime, um americano comum perdido na podridão de Viena, aqui temos um filme inteiro dedicado a apenas uma pessoa, um roteiro que apresenta uma série de discussões e conflitos de seu protagonista e essa personalidade termina ainda como um mistério. Outros personagens, como o pintor Rafael, um dos mestres do Renascimento, surgem em cena apenas como coadjuvante a balizar a genialidade de Michelângelo, quando é contratado para substituir o italiano e mostra-se claramente contrário a intervir na obra de outro artista, principalmente um de tamanha genialidade.
Apesar desse problema básico, “Agonia e Êxtase” obtém sucesso quando trata-se de retratar os bastidores da criação de uma das maiores obras-primas da humanidade, e ao mostrar como o período entre 1508 e 1512, em que Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina, mexeu com o gênio. Posicionando sua câmera no alto dos andaimes onde o artista passou quatro anos pendurado, Reed nos dá a dimensão do tortuoso processo, e da pressão sofrida pela constante cobrança de um papa que, se protegia Michelângelo e patrocinava as artes – chamado de o Papa Guerreiro, foi um dos maiores incentivadores da arte a sentar no trono de São Pedro – também mostrava-se ansioso para ter seu túmulo, “o maior do cristianismo no Vaticano”, desenhado e esculpido.
É uma pena que essa relação tão bem construída entre Harrison e Heston não tenha um complemento à altura nos elementos que a cercam. O filme foi indicado aos oscars de direção de arte, fotografia, figurino, música original e som ( não ganhou nenhum ) mas, a rigor, não apresenta nada de impressionante ou acima da média em nenhum dos quesitos. Mesmo a fotografia, que poderia explorar as nuances de luz e sombra no teto da capela sistina – e talvez fazer um balanço com o humor e o espírito inquieto do protagonista – é burocrática, optando pela iluminação de estúdio que caracterizou boa parte dos grandes épicos daquele tempo. A diferença é que, aqui, havia material humano para um aprofundamento maior. “Agonia e Êxtase” foi um fiasco em termos de bilheteria. Custou a fortuna de US$ 12 milhões e não recuperou o investimento, apesar de ser indicado como um dos melhores filmes do ano pela National Board of Review.
Ainda que não seja pesado ou enjoativo, o que para um filme com mais de 2 horas pode ser considerado um ponto extremamente positivo, faltou libertar Michelângelo para o público, da mesma forma que ele pregava libertar a estátua do mármore onde ele a criava.