Os homens que dizem Nii

Escrito por Fábio Rockenbach

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O humor nunca mais foi o mesmo depois de 05 de outubro de 1969, quando um sexteto anárquico e irreverente surgiu pela primeira vez na televisão britânica. O “Monty Python” revolucionou o humor unindo sarcasmo e diálogos cortantes durante 4 anos, invadiu o cinema com duas obras-primas nos anos 70 e deixou um legado que foi mal mantido: o humor tornou-se visual e o besteirol descerebrado tomou o lugar das referências culturais. Uma pena, mas o original está ao alcance de todos.

Digam “Nii!!” em uníssono na próxima segunda, fãs da comédia. O dia 05 de outubro é a data em que o humor mundial alcançou a maioridade, que o humor moderno começou a engatinhar e, ironicamente, em que ele também começou a morrer - porque basta surgir para que se esteja datado para, um dia, ser (mal) imitado, e se tornar lugar comum.

O dia 05 de outubro marca a primeira aparição do grupo inglês Monty Phyton na televisão britânica, com o irreverente “Monty Python’s Flying Circus”, o show de comédia televisiva que inaugurou o que ficou conhecido como “humor britânico” - e o momento em que nasceu as bases do humor que tem¬perou coisas como “TV Pirata”, “Casseta & Planeta” e os filmes dos irmãos Zucker e Abrahams nos anos 80 ( Top Secret, Apertem os Cintos o Piloto Su¬miu e Corra que a Polícia vem Aí). A receita implantada pelo Monty Python acabou se deturpando pela mediocridade, deu origem ao besteirol, tornou-se dependente ( e muito ) do humor visual e deixou de lado o humor verbal e inteligente, marcas do grupo. Não são poucos, hoje, os que não entendem o humor do Monty Python. É um reflexo de uma criatura que eles próprios criaram e que foi sendo transformada para pior.

Como série televisiva, “Monty Python’s Flying Circus” consistiu de 45 episódios divididos em 4 temporadas que ampliaram a influência do grupo para outras mídias. Durou de 1969 a 1974, e o impacto do sexteto se expandiu também com a invasão dos cinemas a partir de “Monty Phyton e o Cálice Sagrado”, de 1975, e “A Vida de Brian”, de 1979, as obras-primas do humor que se elevam na filmografia que tem momentos irregulares, como “O Senti-do da Vida” e “Ao Vivo do Hollywood Bowl”. Separados, Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam investiram em outros filmes como “Erik, o Viking” e “Um Peixe Chamado Wanda”. Nada comparado ao impacto do humor anárquico exercitado nos 4 anos da série e nas duas obras dos anos 70: o número de gags por minuto é incomparável em produções onde os Phyton’s brincam até mesmo com a precariedade das produções.
Em “A Vida de Brian”, eleito pela Tottal film, Channel 4 e Channel 5 a melhor comédia da história e o 6º melhor filme britânico de todos os tempos, o grupo brinca com dogmas católicos ao colocarem um pobre coitado sendo confundido com Jesus Cristo desde o momento em que nasce até sua morte. “O Cálice Sagrado” tira onda de personagens caros à história mitológica britânica. Nada que importe para eles: as risadas do público sempre soaram mais altas do que qualquer protesto. Seguem soando ainda hoje, 40 anos depois. Digam “Nii!!” então, na segunda-feira. O grupo completa 40 anos de humor…

O MELHOR DO PYTHON

A PIADA MAIS ENGRAÇADA DO MUNDO
A piada mais engraçada do mundo mata qualquer um que a lê, e é até usada no cam¬po de batalha da segunda guerra mundial. Um dos mais famosos quadros do grupo, presentes no primeiro episódio do programa.





FUTEBOL DOS FILÓSOFOS
Brilhante esquete que coloca em um cam¬po de futebol pensadores alemães contra os pensadores gregos: Kant, Marx e outros enfrentando Platão, Sócratos, Aristóteles e cia, em um jogo arbitrado por Confúcio. Os comentários - “O time alemão destruiu o meio campo inglês de Bertrand, Locke e Hobbes no jogo passado” - são geniais para quem aprendeu alguma coisa sobre os grandes pensadores.






DÉJA VU
O apresentador de um programa científico começa a falar sobre porque sentimos a sensação de “Déja Vu” e… bom, só assistindo. Filmes como “Feitiço do Tempo” surgiram baseados no que se vê aqui – e o final é hilário.





O HOMEM QUE TERMINA AS SENTENÇAS
- Um esquete do Monty Python sobre um homem que ajuda as pessoas a…
- …terminar suas sentenças?
- Sim, obrigado.






COMO NÃO SER VISTO
O Monty Python mostra os segredos para não ser visto, sob uma narração que apresenta paisagens onde as pessoas “não estão”




Especial LOTR - O Retorno do Rei

Escrito por Fábio Rockenbach

( Lord of the Rings - The Return of the King, EUA, 2003 )
Direção de Peter Jackson, com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Billy Boyd, Liv Tyler, John Rhys-Davies, Dominic Monaghan, Christopher Lee, Orlando Bloom, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Douriff, Andy Serkis



Enquanto Frodo e Sam adentram em Mordor rumo à Montanha da Perdição, Sauron prepara um ataque derradeiro à Gondor, o grande reino dos Homens. Aragorn, Legolas e Gimli partem para a Senda dos Mortos, buscando o auxílio de um exército que somente o rei de Gondor pode invocar, enquanto Gandalf organiza a defesa de Minas Tirith, esperando pelo socorro de Rohan.

Falar de “O Retorno do Rei”, conclusão da saga do Anel que marcou para sempre um ponto divisor no cinema fantástico é, de certa forma, mencionar superlativos. E, claro, sempre há aqueles que passam a desgostar de um filme exatamente por esses superlativos. Eles indicam, entretanto, que o filme foi êxito, e o público não é tão idiota. Há aqueles sucessos de bilheteria provocados pelo momento, mas que caem no esquecimento tempos depois ( Armageddon foi um sucesso de bilheteria estrondoso, e quem lembra do filme com carinho hoje? ). “O Retorno do Rei” foi um dos únicos três filmes a ultrapassar a barreira do bilhão de dólares em bilheteria, e perde apenas para “Titanic” entre as maiores bilheterias da história. É o maior vencedor da história do Oscar, com 11 estatuetas, ao lado do mesmo Titanic e de Ben Hur. E aos que desdenham de números ligados a bilheteria ou ao comercial Oscar, agüentem: é um triunfo do cinema espetáculo que apresenta o momento máximo da adaptação da mais cultuada obra literária da história. Um dos grandes momentos do cinema como espetáculo em 100 anos.

Jackson, percebe-se, consegue lidar melhor com as várias linhas narrativas, e ao longo da trilogia, elas foram ampliando-se. Aqui, ele consegue unir esses núcleos de forma extremamente satisfatória, sem quedas abruptas em momentos decisivos ou perdas de ritmo que pudessem incomodar o público, como aconteceu em “As Duas Torres”. As mudanças feitas pelo diretor não influenciaram na percepção da estória – apenas senti falta do destino de Saruman, o principal vilão visualizado pelo público nos filmes anteriores, erro que a versão Estendida corrigiu, apesar de que com mudanças. A ausência da seqüência do Expurgo do Condado, por mais que tenha irritado fãs, foi crucial: o final do filme já é longo, com praticamente 3 clímax diferentes, e a seqüência apenas alongaria ainda mais o final dessa estória.

É em “O Retorno do Rei” que todo o cuidado de Jackson com seus personagens, mesmo o secundários, transparece de forma absurda. A preparação citada anteriormente na crítica de “As Duas Torres” é o que possibilita a overdose de emoções que não se restringe aos personagens principais: a estória de Théoden e Eowyn emociona e envolve tanto quanto o drama de Frodo e Sam em Mordor ou a atitude de Aragorn de enfim lutar contra seus demônios e aceitar seu destino como Rei de Gondor. É em “O Retorno do Rei” que as mais de 6 horas anteriores se justificam – e não à toa, Jackson brincou dizendo que “fizemos os dois primeiros filmes para podermos, enfim, filmar “O Retorno do Rei”. È tarefa para poucos: os três filmes apresentaram mais de 100 personagens com falas e cerca de 20 retratados com substância e calma, algo difícil de se encontrar em um mero filme comercial. A agilidade com que o diretor conseguiu editar diversas estórias e fatos acontecendo simultaneamente é de se usar em qualquer aula de edição em cursos de cinema, como exemplo de como manter o fio da meada sem quebrar o ritmo ou descuidar do que, outrora, foi tão importante.

Em “O Retorno do Rei” o diretor abraça, finalmente, toda a mitologia que vinha preparando, fazendo uso inclusive de canções – algo que Tolkien usa e abusa ao longo de toda a narrativa. A seqüência em que Faramir e seus cavaleiros rumam para a morte enquanto Denethor se esbalda em um banquete é um notável exemplo: Pippin canta para o rei uma melodia triste e chora, não apenas por Faramir, mas pela fraqueza que ele enxerga no rei às sua frente, enquanto o monarca se suja com um suco vermelho que simboliza o sangue do próprio filho, sendo derramado em Osgilitah.


A Batalha nos Campos de Pellenor, que toma as telas e a atenção das platéias por longos 40 minutos, é o exemplo máximo a ser copiado e a servir de inspiração no que diz respeito a batalhas em uma tela de cinema. Ela reflete em 40 minutos tudo o que foi planejado, vivido e buscado pelos personagens. É a tour de force da jornada de todas as raças criadas por Tolkien e Jackson faz jus a todo esse significado: ela é insana, violenta, monumental em todas as proporções. Espelha o próprio épico que ele criou, e ainda consegue reunir nessa dezena de minutos momentos notáveis: a chegada dos cavaleiros de Rohan, a carga dos cavaleiros contra o exército de Orcs, o ataque dos Nazgul à Minas Tirith, o avanço dos Olifantes, a célebre luta entre Eowyn e o Nazgul, cantada em verso e prosa por amantes da saga ( e que ganha uma versão fílmica magnífica ), a invasão da grande cidade, e um momento que nunca deveria ter sido removido das versão para os cinemas: o encontro entre Gandalf e o rei Bruxo de Angmar, líder dos Nazgul. É um momento precioso, onde Gandalf é derrotado pelo Nazgul e salvo da morte pela chegada de Rohan a Pelennor- e justifica uma frase que ficou na versão original, onde ele diz ao líder dos Orcs que “cuidará do mago branco”, algo que nunca acontece na versão dos cinemas. Já a seqüência com o "Boca de Sauron" em frente ao Portão Negro, se não é essencial, aprofunda e explica o sentimento de entrega e sacrifício feito por Aragorn e o restante da comitiva quando se dispõem a enfrentar Sauron.

Jackson, todos sabem, é um cineasta inquieto com sua câmera. Gosta de movimentá-la, e isso confere agilidade e grandiosidade aos longos planos que atestam a magnitude da recriação feita pela WETA de tudo o que Tolkien imaginou como sendo a Terra Média. Gimli permanece como o alívio cômico, mas desta vez Jackson soube dosar melhor essa intervenção humorística. A partir de determinado momento, quando as cicatrizes da batalha em Helm’s Deep começam a cicatrizar, ele encara a tarefa de terminar a estória com seriedade. Transparece isso ao mostrar a transfiguração de Frodo – pode-se sentir o peso do fardo que ele carrega, apenas mencionado no primeiro filme e exercitado no segundo, a partir da seqüência dos Pântanos Mortos. Se é o núcleo que menos empolga ao público, a jornada de Frodo e Sam é a essência de tudo o que acontece na trilogia. E ela se justifica em uma cena emocionante: quando Sam diz que não pode carregar o anel, mas pode carregar Frodo. É o resumo do sentimento de abnegação e fidelidade do escudeiro com seu mestre. Sam é, para todos os efeitos, e numa opinião muito particular, o grande herói de saga do Anel. Tolkien reconhece isso, e deixa que ele encerre essa estória, apropriadamente.


A trilha sonora, mantendo a característica das anteriores, continua criando temas únicos para cada filme sem esquecer dos anteriores. Assim, na primeira parte de O Retorno do Rei, temas conhecidos de As Duas Torres continuam ecoando nos ouvidos, principalmente o tema dos cavaleiros de Rohan ( que aparecerá de forma derradeira momentos antes da batalha nos campos de Pelennor).

Existem pequenos deslizes, mas a maior parte deles está no fato de as exigências comerciais forçarem cortes na versão para os cinemas que Jackson, sabidamente, gostaria de não ter feito. Arwen, que era apenas um contraponto romântico à saga, praticamente desaparece neste terceiro filme, justificando sua aparição apenas para pedir ao pai que forje Anduril novamente e a leve a Aragorn. O plot romântico entre Faramir e Eowyn soa artificial na versão estendida - talvez seja o único momento em toda a saga que isso aconteça. E Jackson deixa claro como foi difícil, para ele, encerrar a estória com a qual se identificou tanto durane sete anos. O grande público não entende essa demora em terminar tudo após um clímax eletrizante. Jackson reserva esse direito aos fãs: a seqüência dos Portos Cinzentos é uma das mais belas do cinema, e apresenta também o ponto alto da trilha de Howard Shore. É difícil não se emocionar, mesmo sabendo que Jackson induz essa emoção – e faz isso também para ele, como fã.

Exemplo máximo do cinema como reprodutor de sonhos e mundos impossíveis de existirem, “O Retorno do Rei” é um produto atípico: foi concebido como uma homenagem a uma obra tida como impossível de ser adaptada. Hoje, não é difícil imaginar o filme como um exemplar do cinema fantástico difícil de, um dia, ser batido, porque não se resume à excelência técnica: foi feito a partir de uma estória que, também ela, dificilmente será igualada. As imitações e tentativas que vieram depois exemplificam isso. “O Senhor dos Anéis” é mais do que uma página na história do cinema: ganhou um capítulo só seu, não importa o quanto seus detratores protestem. “Algumas feridas nunca saram”. Para velhos e novos fãs, a saga dos povos da terra média e dos homens do leste contra Sauron é programa para, no mínimo, uma nova visita anual. Longa vida aos DVDs, que propiciam essa passagem de volta no momento em que bem entendermos.

Vídeos

Gandalf enfrenta o Rei-Bruxo de Angmar em Minas Tirith


A Carga dos Rohirrim nos Campos de Pelennor


Eowyn encara o Rei Bruxo


Pippin canta para Denethor enquanto Faramir ruma para a morte


Sam carrega Frodo na Montanha da Perdição


Os Portos Cinzentos



Especial LOTR - A Música da Terra Média

Escrito por Fábio Rockenbach

Um apanhado dos melhores momentos do especial The Lord of the Rings Symphony, regido por Howard Shore ( estou atrás deste DVD desesperadamente ). Para relembrar as mais conhecidas melodias da trilogia.

Concerning Hobbits / The Shire


The Bridge of Khaza-Dum


Rohan


Return of the King


The Breaking of Fellowship


The March of Ents


The Grey Havens


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Especial LOTR - As Duas Torres

Escrito por Fábio Rockenbach

( Lord of the Rings - The Two Towers, EUA, 2002 )
Direção de Peter Jackson, com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Billy Boyd, Liv Tyler, John Rhys-Davies, Dominic Monaghan, Christopher Lee, Orlando Bloom, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Douriff, Andy Serkis


A Sociedade está desfeita. Enquanto Frodo e Sam rumam para Mordor, encontram Gollum e o tornam seu guia, Aragorn, Legolas e Gimli partem no encalço de Merry e Pippin, seqüestrados pelos Orcs de Saruman. Os três entram em contato com o rei Théoden de Rohan, que está prestes a ser atacado por um exército de 10 mil Orcs e decide esperar pelo inimigo na fortaleza do Abismo de Helm.

PS: As críticas dos filmes são longos mesmo, porque me propus a dissecar vários elementos da adaptação. Leia se quiser ou passe longe...

As Duas Torres é o capítulo do meio de uma longa estória, elemento intermediário, e só isso já ampliaria as dificuldades de sua transposição para as telas. Usualmente, este segundo ato tende a ser, sempre, mais sombrio e pessimista, o que não significa necessariamente que possa perder em qualidade em relação aos demais – vide, por exemplo, o magnífico “O Império Contra-Ataca”, ponto máximo dos seis filmes da série Star Wars. Mas As Duas Torres é, também, um divisor de águas dentro da narrativa da saga do anel, porque em determinado momento, ele proclama uma mudança de rumo e de sentidos na saga.

É a partir de determinado momento, no primeiro terço de As Duas Torres, que “O Senhor dos Anéis” muda drasticamente, porque caracteriza-se pela inserção de um elemento importantíssimo: a entrada dos mundos dos homens na maior saga da Terra Média. Se em todo o primeiro filme – descontando-se a maravilhosa apresentação do condado e o contato com os elfos em Lothlórien – a narrativa é centrada na jornada dos nove integrantes da sociedade do anel, e a preocupação maior é introduzir a cumplicidade dos personagens para com o público, em As Duas Torres toda a linha narrativa torna-se segmentada. Existem 4 acontecimentos paralelos dividindo a atenção do público, e reside na junção desses acontecimentos a maior dificuldade que Peter Jackson encontrou. Temos o núcleo do mal, personificado mais uma vez por Saruman, a jornada de Frodo e Sam rumo a Mordor, a interação de Merry e Pippin com Barbárvore em Fangorn e todo o núcleo de acontecimentos em torno do primeiro reino dos homens a ganhar destaque na estória, envolvendo Aragorn, Legolas, Gimli, Théoden e os cavaleiros de Rohan. Se em “O Retorno do Rei” Jackson alcançou admirável equilíbrio nos cortes entre diferentes núcleos, aqui esses cortes abruptos acabam fragmentando a narrativa. Não que, por exemplo, a diferença de ritmo entre o que acontece no Abismo de Helm e em Fangorn seja culpa do diretor, mas o público sente essa quebra. Se há remédios para alguns males, o remédio para “As Duas Torres” chama-se “Versão Estendida”. Não tente raciocinar demais, é simples: quanto maior o filme – e a versão estendida tem cerca de 50 minutos a mais – melhor é o ritmo, não importa o quão incongruente possa parecer a afirmação.

Se em todo o primeiro filme [...]a narrativa é centrada na jornada dos nove integrantes da sociedade do anel, e a preocupação maior é introduzir a cumplicidade dos personagens para com o público, em As Duas Torres toda a linha narrativa torna-se segmentada.

A começar pela adaptação, foi em “As Duas Torres” que os fãs mais se indignaram com as mudanças propostas por Peter Jackson, principalmente no que diz respeito ao aparecimento de elfos em Helm’s Deep. Não bastasse ser uma heresia a tudo o que Tolkien escreveu, vai contra a própria abertura fantástica do primeiro filme, onde Cate Blanchett narra com voz poderosa que “uma última aliança de homens e elfos marchou contra os exércitos de Mordor”. Mas tudo bem: Jackson queria dar mais destaque à participação dos elfos na estória do Um Anel. O bom é que, menos para aqueles aficcionados fanáticos, essa inserção não traz maiores prejuízos à obra no que se refere à adaptação para o cinema. No que se refere à ação, “As Duas Torres” amplia os sentidos do primeiro filme nos seus 40 minutos finais, e o surgimento dos homens traz junto uma ação mais realista e menos fantástica. O público leigo é que se sentiu prejudicado pelo ritmo lento, mas Jackson deve ter optado por manter o que já havia estabelecido no primeiro filme: ser fiel às descrições e ao universo criado por Tolkien.

No que se refere à ação, “As Duas Torres” amplia os sentidos do primeiro filme nos seus 40 minutos finais, e o surgimento dos homens traz junto uma ação mais realista e menos fantástica.

É aí que entram as cenas deletadas para o cinema e que estão presentes em “As Duas Torres”. É absurdamente incompreensível que as cenas como Denethor, Boromir e Faramir não tenham sido vistas no cinema, porque elas dão base crucial para entender muito do que envolve a relação entre o pai e os dois irmãos, principalmente no último filme. Principalmente para entender porque Faramir está tão obcecado em levar o anel a Gondor. Outros momentos, como a jornada de Frodo, Sam e Gollum, algumas cenas de background entre Arwen e Aragorn e passagens em Osgiliath apenas ajudam a diminuir o impacto dos cortes abruptos. Com mais tempo, os núcleos fazem mais sentido e justificam todo o cuidado na transposição para as telas. Já havia comentado na crítica do primeiro filme de como Jackson trata todos os personagens com um carinho absurdo, inserindo cenas que nas mãos de outro diretor, ou em outro tipo de estórias, seriam descartadas para oferecer mais ação ao público. A cena em que Théoden lamenta a morte do filho para Gandalf é um exemplo. Théoden é um dos personagens dramaticamente mais fortes da trilogia, apesar de ser constantemente alçado a um segundo plano. Rei de um reino decadente, sem herdeiros, enxerga na sobrinha a força que queria para sucedê-lo mas não pode depositar nela essa confiança por ela ser mulher. E constantemente lamenta não estar à altura dos feitos dos antepassados. É uma personagem que nas mãos erradas soaria incrivelmente artificial, mas que Bernard Hill consegue doar contornos realistas. É com Théoden que pode-se exemplificar a preocupação de Peter Jackson com a fidelidade do espírito da obra, em cenas que num outro filme passariam rasas, ou sequer seriam filmadas, em prol da ação. A cena em frente ao túmulo do filho seria dispensável para a condução da estória, mas é crucial para que comecemos a entender a decepção do rei de Rohan por não estar à altura dos seus antepassados. Esse sentimento é indispensável para alcançar todo o sentimento que transborda no último filme, principalmente na relação entre ele e Eowyn.

É com Théoden que pode-se exemplificar a preocupação de Peter Jackson com a fidelidade do espírito da obra, em cenas que num outro filme passariam rasas, ou sequer seriam filmadas, em prol da ação. A cena em frente ao túmulo do filho seria dispensável para a condução da estória, mas é crucial para que comecemos a entender a decepção do rei de Rohan por não estar à altura dos seus antepassados.

E Miranda Otto é outro fruto do filme. Insere vida em uma estória que dá pouco espaço às mulheres – se Arwen não tivesse sua estória ampliada dos escritos complementares de Tolkien, Eowyn seria a única mulher a ter algum destaque nessa estória, fruto talvez da época e da sociedade em que a saga foi escrita na primeira metade do século XX. E Miranda Otto, de grandes olhos emanando sentimentos, justifica boa parte da atração que o núcleo de Rohan desperta.

E mesmo que Barbárvore seja um ótimo exemplo do poder de criação da WETA Digital combinada com a arte de Alan Lee, é em Gollum que reside um dos grandes feitos da trilogia. Os méritos, claro, vão para os técnicos da WETA, mas acima de tudo vão para Andy Serkis, já que todos os movimentos desse ser patético e estranhamente provocador de pena são obra de Serkis. É um personagem trágico, dividido entre duas personalidades e conduzido pela obsessão ao anel. Talvez seja a maior criação do universo literário de Tolkien.

Repetindo a crítica do primeiro filme: As Duas Torres funciona em si mesmo, mas é preciso ser visto como a metade de um longo filme de 12 horas. Nesse sentido, é um primor, porque desenvolve os personagens do filme anterior, apresenta novos núcleos e consegue, em apenas um filme, nos tornar cúmplices dos novos personagens da saga. Abre mão de apressar certas estórias e, ainda que apresente problemas nos cortes entre os núcleos, prepara de forma admirável o público para o clímax da série sem se descuidar da maior façanha do diretor: um respeito quase sagrado ao que está transpondo para a tela.

PS: Um certo crítico detonou a trilha sonora, dizendo que ela era mais do mesmo. Respeitosamente, discordo, seguindo na mesma linha do que escrevi para o primeiro filme: Howard Shore fez uma obra-prima. O mais do mesmo é uma menção tímida à trilha que se ouvia no primeiro filme, na verdade, como um elemento de ligação. Em determinado momento, a trilha de As Duas Torres ganha personalidade própria, com a inserção do núcleo de Rohan – uma melodia que é quase um lamento, facilmente identificável como o grande tema do segundo filme. E Shore fará o mesmo com o terceiro filme, criando uma transição gradual e lenta, concebendo os três filmes como um só. Bom que Howard Shore entendeu que é esse o espírito, ao contrário de muita gente “entendida” que analisa os filmes apenas separadamente.

PS2: Uma homenagem: Jackson deixou de fora do primeiro filme a seqüência em que os hobbits são engolidos pelo velho carvalho e são salvos por Tom Bombadil. Na versão estendida de As Duas Torres, é feita uma menção à essa cena, usando Merry, Pippin e Barbárvore em Fangorn. Trata-se de uma pequena homenagem para lembrar toda uma seqüência que os fãs gostariam de ter visto nos filmes mas não puderam. Em outro local e com outros protagonistas, mas a menção vale, e muito.

Especial LOTR - Alan Lee e o visual da saga...

Escrito por Fábio Rockenbach

Especial - O Senhor dos Anéis - Parte 4 - A influência de Alan Lee no visual da trilogia.

Para não alongar este post - haverá outro apenas para Alan Lee - basta dizer que o mais famoso ilustrador de Tolkien é um dos responsáveis pela magia da trilogia no cinema. Sua visão das descrições do autor foram a base das adaptações - ele foi consultor do filme para cenários e figurinos. Algumas de suas ilustrações foram a base para o desenvolvimento de várias cenas. Para comprovar, basta clicar nas imagens abaixo e ampliá-las, comparando as ilustrações com os filmes. Mais abaixo, as legendas das imagens, todas elas criadas décadas antes dos filmes.

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1. Rivendell ( Valfenda ), lar de Elrond. Na cena do filme, a partida da sociedade rumo à Mordor.
2. Os portões de Moria.
3. O interior de Moria. Desenho de produção fiel à interpretação de Alan Lee da descrição de Tolkien.
4. Frodo, Sam e Gollum em frente ao Portão Negro. A cena é igual à ilustração, inclusive no ângulo em que foi filmada.
5. Gollum é capturado por Sam e Frodo. Sem comentários...
6. A árvore branca de Gondor. No filme, na cena em que Gandalg e Pippin saem após conversarem com Denethor.
7. Frodo e Shelob. A aranha não aparece no frame capturado do filme ( ela está sobre Frodo ). o cenário e a composição são iguais aos imaginados por Lee.
8. Mintas Tirith. Composição fidelíssima à que Alan Lee teve - Nasmith tem um desenho muito semelhante da cidade dos Homens.
9. Isengard. Não encontrei nenhuma cena que mostrasse toda a torre - ela é altíssima - mas quem conhece os filmes vai reconhecer facilmente como ela foi imaginada por Lee décadas antes dos filmes.
10. O Abismo de Helm. Toda a cena, os cenários, as proporções... tudo foi desenhado por Lee e retratado fielmente por Jackson.

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Especial LOTR - Mania de Hitchcok

Escrito por Fábio Rockenbach

Especial O Senhor dos Anéis - Parte 3 - Peter Jackson e suas pontas na trilogia.

É, não é apenas Hitchcok e Shyamalan que gostam de aparecer em seus filmes. Fã declarado de Lord of the Rings, Peter Jackson também deu um jeito de aparecer nos filmes. Encontrei ele duas vezes,, uma em A Sociedade do Anel, e outra em As Duas Torres. É provável que ele também apareça em O Retorno do Rei. Só é preciso vasculhar - não percebi, mas também não tinha percebido a ponta dele no segundo filme até assistir de novo neste final de semana.

Em A Sociedade do Anel
Os hobbits chegam a Bri para encontrar Gandalf no Pônei Saltitante. Ao entrarem na cidade, dão de cara com tipos mal encarados embaixo da chuva. Jackson aparece inconfundível debaixo de chuva, com cara de mau. ( clique para ampliar )
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Em As Duas Torres
Os Orcs fazem a primeira investida contra o portão principal. Théoden ordena que segurem a porta e impeçam a invasão. Crianças e soldados começam a soltar pedras sobre os Orcs. Jackson entre eles, de armadura e tudo...
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Especial LOTR - Ilustradores: Ted Nasmith

Escrito por Fábio Rockenbach

Especial "O Senhor dos Anéis" parte 2: a influência do desenho de Ted Nasmith na concepção de Alan Lee e do filme

Texto: acréscimos do blog a um texto original de Daniel De Boni

Foram Alan Lee e John Howe, principalmente Lee, os nomes que mais influenciaram a produção dos três filmes na criação de cenários, figurinos e mesmo cenas – o que poderá ser comprovado em breve com um post comparativo de cenas e pinturas feitas por Lee com anos de antecedência. Mas também é impressionante como a visão de Lee e de Ted Nasmith se assemelha. Se Nasmith não foi consultor do filme, sua visão influenciou muito o diretor Peter Jackson – como as imagens postadas abaixo poderão mostrar, para quem lembrar do filme. Não é mera coinscidência: Nasmith é um dos mais idolatrados ilustradores de Tolkien há mais de 30 anos.

Após ter lido O Senhor dos Anéis na década de 70 como estudante de arte quando ainda era bastante jovem, Ted Nasmith se tornou um apaixonado pela literatura Tolkineana. Isso ocorreu ainda antes de iniciar sua carreira como ilustrador. Ainda se passariam vários anos antes de começar a fazer ilustrações baseadas no Hobbit, no Senhor dos Anéis e no Silmarillion. Porém antes disso seu trabalho já era reconhecido na área de desenhos arquitetônicos, onde sua arte surrealística e sua grande dedicação arrebatavam elogios. Durante algum tempo ele dividiu seu trabalho entre a arte arquitetônica e Tolkien, além de outros tipos de ilustração, mas a Terra-média sempre foi à influência predominante da sua carreira.

Com dezenas de ilustrações de alta qualidade, Nasmith ganhou uma sólida reputação entre os fãs de Tolkien, e teve seu trabalho publicado em vários calendários e livros ao longo dos anos. Recentemente ilustrou sozinho uma edição comemorativa do Silmarillion, uma honra singular. Além do prazer complementar de trazer ao mundo visões da Terra-média, Ted Nasmith vê a sua arte como uma ponte que une dois reinos distantes, o nosso próprio mundo e Arda, o mundo criado por Tolkien, que não é outro mundo, mas apenas o nosso próprio em um período muito longínquo de tempo... milhares de anos atrás.

Conheça algumas das pinturas de Nasmith que influenciaram na produção ( clique para ampliar )

A Sociedade do Anel é emboscada na passagem de Caradhras
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A Fuga de Gandalf de Isengard

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Os Ents atacam Isengard

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Gandalf e as águias resgatam Sam e Frodo na Montanha da PerdiçãoPhotobucket

O adeus nos Portos Cinzentos
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Frodo e Gollum na Montanha da Perdição
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Veja a galeria completa de Ted Nasmith aqui
http://www.duvendor.com.br/galeria/thumbnails.php?album=4

Especial LOTR - A Idolatria por uma obra superior...

Escrito por Fábio Rockenbach

Especial "O Senhor dos Anéis - Parte 1": explicando a importância da obra literária e o respeito da adaptação com os fãs

É um prodígio constatar o respeito quase sagrado com que Peter Jackson tratou a adaptação para os cinemas de “O Senhor dos Anéis”. Para quem conheceu a obra somente a partir da repercussão das adaptações para o cinema, existe uma ausência de um background que explica essa reverência. Sempre fui um defensor de que as versões para o cinema sobrevivem sozinhas – eis porque também defendo as alterações feitas na adaptação – mas também sou um defensor ferrenho de que saboreia muito mais as três obras quem conhece Tolkien, quem as conheceu antes sequer dos filmes serem anunciados e saciava seus desejos da Terra Média observando os desenhos de Alan Lee, dos irmãos Hildebrandt, Ted Nasmith, John Howe e Angus Mc Bride. Esses fãs, que dessa forma mantiveram acesa a chama da obra, recebem nos filmes um presente especial.


Antes de mais nada, muita gente não entende a idolatria em torno da obra de Tolkien. Falta para muita gente esse conhecimento. “O Senhor dos Anéis” foi eleito o livro do século na Grã-Bretanha. Em números absolutos, só um livro no ocidente foi mais lido do que ele, a Bíblia. A trilogia do anel é o ponto máximo de uma obra que é absurdamente fabulosa. J.R.R. Tolkien, seu criador, notabilizou-se como lingüista, contemporâneo de C.S. Lewis e outros gênos. Lecionou em Oxford, e através de sua paixão por línguas antigas concebeu um universo fantástico. A rigor, considere que O Senhor dos Anéis só existe pela paixão de Tolkien pela lingüística. Encare assim: Tolkien criou línguas com uma estrutura gramatical perfeita: criou os símbolos que representam as letras, criou a fonética, definiu a gramática e até mesmo as exceções gramaticais. O Sindarin, as runas dos anões, a língua élfica, as línguas de vários povos que formam o background da trilogia foram criadas de forma perfeita por Tolkien – a tal ponto que existem comunidades na Inglaterra que falam entre si em élfico – mas para dar um sentido a essas línguas, Tolkien precisava de um mundo. Criou a Terra Média, fez um mapa de suas terras e acidentes geográficos, cada qual com sua particularidade.

E como todo mundo precisa de sentido, criou sua história e seus habitantes, desde o aspecto mitológico – os deuses que criaram a Terra Média – dividindo sua história em 3 eras. É como se a obra de Tolkien fosse o Antigo Testamento e o Novo Testamento da Terra Média. E esse mundo é completo: geograficamente, historicamente e linguisticamente. É a obra de uma vida, espalhada em diversos livros principais( O Silmarillion – o “Velho Testamento” da obra -, Contos Inacabados da Terra Média, O Hobbit, O Senhor dos Anéis... ) com outros complementares – como é o caso de As Aventuras de Tom Bombadil.

Esse processo começou nas trincheiras da primeira guerra mundial, quando esboçou o que seria O Senhor dos Anéis, mas começou com O Hobbit, aventura infanto-juvenil lançada pouco depois que fez enorme sucesso. Os apelos para uma continuação deram origem a “O Senhor dos Anéis” uma obra mais robusta, sombria e pesada, que só seria concluída na metade da década de 50. De lá até 2001, “O Senhor dos Anéis” manteve o posto de obra mais idolatrada da literatura mundial, e a referência para tudo o que se ouvia falar de mitologia: o mago de barbas brancas, trolls, elfos, dragões, anões, paladinos... enfim, todo o universo de aventuras de capa-e-espada e RPG. Não por acaso, a obra de Tolkien foi uma das maiores inspiradoras para George Lucas criar “Star Wars”, espécie de substituto futurista da mitologia de Tolkien. E Tolkien foi inspiração para que CS Lewis criasse “AS Crônicas de Nárnia”.

Quando me refiro ao respeito com que Jackson trata os fãs me refiro à maneira como ele traz vida e mostra aos fãs – como ele, um fã declarado da obra – a sua interpretação. Durante décadas, o mundo de Tolkien foi visto e discutido por artistas e fãs, baseado nas descrições detalhadas que Tolkein dava em seus livros. É por isso que, quando entra na casa de Frodo pela primeira vez, Gandalf dirige-se à sala e a câmera movimenta-se de cima abaixo de forma reverenciosa. É Jackson mostrando com detalhes, e com calma, a casa em Bolsão que durante mais de 40 anos só foi imaginada e vista em desenhos pelos fãs. É por isso que ele desvenda, lentamente, os caminhos, colinas e pequenos cantos do Condado quando Gandalf entra por ele no começo do primeiro filme – porque a visão do condado era algo que pertencia a cada fã, baseado na criação muito particular de Tolkien. É por isso que ele faz questão de dar um close em Isengard antes de desviar a câmera para Gandalf e Saruman em seu primeiro encontro: porque a Isengard que está ali foi imortalizada nos desenhos de Alan Lee durante décadas, e é prontamente reconhecida pelos fãs.

Esse texto é apenas uma introdução. Não tenho a bagagem literária – apesar de ter liso a obra duas vezes – para introduzir o universo de Tolkien. Queria apenas provocar quem não entende toda a louvação em torno de filmes e obras, de que há um imenso universo por trás das 12 horas de filmes vistas nos cinemas, ou mesmo além das milhares de páginas do livro. Um bom passo inicial para conhecer isso é conhecer os artistas que representaram Tolkien para o mundo por décadas. É o assunto do próximo post ( em meio aos posts, estou absorto em uma maratona de 16 horas de filme. Para quem já assistiu, é a melhor forma de entender e sentir novamente toda a carga de emoção e magia imposta por Jackson, bem como sentir melhor a diferença entre os filmes. Até a segunda, devo terminar ela... )

Para quem quiser saber mais sobre Tolkien
http://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Tolkien
http://duvendor.com.br/
http://www.valinor.com.br/



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O Eterno Oeste de Mitos e Lendas

Escrito por Fábio Rockenbach



No post anterior já havia explicado que a idéia de relembrar o western partiu do pessoal do Multiplot. Considerado "o" gênero americano - e endeusado pela trupe da Cahiers - os filmes do gênero sempre passaram uma idéia simplista ao povão: o próprio título "bangue-bangue" da cultura popular resume isso. Mas é tudo:? Longe disso. Os westerns-spagetthiu de Leone trazem muito mais por trás do que simplesmente pistoleiros solitários e de poucas palavras. Alguns títulos de Ford e Hawks usam de matizes clássicas do gênero para falarem sobre discriminação racial, conflitos psicológicos e demônios interiores. Anthony Mann, um dos mais subestimados diretores do gênero, fez isso também, e Sam Peckinpah usou da violência para rever o gênero de um ponto de vista bem mais realista e abatido.
Como cada um mereceria uma visão própria, a hora agora é de, simplesmente, relembrar o gênero americano por excelência...

1860 - 1890.
Nenhum período tão curto da história recebeu, até hoje, tanta atenção. Apenas trinta anos serviram de inspiração para o surgimento daquele que é o mais americano dos gêneros - segundo a crítica francesa, talvez o único gênero genuinamente americano. Durante esses trinta anos ocorreu a fase áurea de expansão colonialista dos Estados Unidos em direção ao oeste de seu próprio território. Um período curto, marcado pelo surgimento de lendas e pela bravura trazida pelo tema do desbravamento e do colonialismo - uma nova terra surgia das mãos dos trabalhadores e dos homens de coragem.
Era uma terra árida, desértica, selvagem - destinada aos fortes. Foi um tempo onde se espalharam os feitos de coragem e covardia de homens que entraram para a própria história americana. Nomes como os do xerife Wyatt Earp e de Bufalo Bill, personagens reais que inspiraram diferentes versões de suas histórias para o cinema.
Foi exatamente o cinema que logo percebeu as possibilidades de se aproveitar toda a magia vinda das histórias da expansão para o oeste - O Grande Assalto de Trem, de Edwin S. Porter, pode ser considerado o primeiro policial do cinema, e também o primeiro western. Alguns dos primeiros heróis do cinema foram os caubóis, mudos ainda, mas já corajosos no manejo de uma pistola - Tom Mix e William S. hart fazem parte destes heróis precursores, além do próprio Bufalo Bill em pessoa.

Colonização do oeste, na época, significava levar o progresso e as leis da civilização a uma terra bárbara, que reagia aos bons mocinhos com grande hostilidade. Os índios eram tratados como povos brutos e violentos - monstros bárbaros combatidos pela intrépida cavalaria. Essa visão turva prevaleceu durante praticamente toda a grande fase do western, que durou, de uma maneira mais precisa, de 1939 até 1969 - trinta anos, exatamente igual ao período que registra o gênero.
Coinscidentemente, foi justamente com um filme que louvava essa mesma visão que o gênero tornou-se grande no ano de 1939. Várias já eram as produções baratas do gênero, exibidas a toque de caixa nas matinés, com enredos simples - The Covered Wagon ( 1922 ), de Raoul Walsh, chegou a chamar a atenção, mas logo o estilo seria jogado de novo na vala dos filmes comuns. Críticos atribuem à grande depressão com a crise de 29 o fato do g~enero ter demorado tanto a agradar o público, que durante um bom tempo preferiu filmes leves, urbanos, que os fizessem sonhar com uma vida melhor e os caubóis empoeirados e com roupas rasgadas não eram bem o objeto dos sonhos dos americanos- mas quando John Ford lançou "No Tempo das Diligências" em 38, o western tornava-se um gênero respeitado. O filme, clássico inquestionável, tinha como herói um ator que já havia feito diversos filmes B de aventura para pequenos estúdios - John Wayne, que havia estrelado o filme de Walsh em 22 - e trazia, então, um dos temas mais caros ao gênero: a história da carruagem que cruza o oeste e é surpreendida por um violento ataque de índios.

John Ford reinaria no gênero desde então - mas não de forma absoluta - com uma série de obras-primas. Dividiria o posto com cineastas como Howard Hawks ( o único a fazer frente a ele ), Henry King, John Sturges, William Wellman, Sam Peckinpah e Sergio Leone, entre outros. O gênero foi visitado por diretores acostumados a pisarem em outros gêneros, e de forma deslumbrante, como fizeram, entre outros, Fred Zinneman e George Stevens.
Os anos 40, que viram a aurora do gênero, testemunharam os grandes westerns de ação. William Wellman lança em 43 "Consciências Mortas". Três anos depois, é a vez de John Ford lançar um clássico, "Paixão dos Fortes" - história do mítico xerife Wyatt Earp, segundo Ford, ouvida da boca do próprio Earp. E o próprio Ford lançou, em 48, "Forte Apache" e 49, "Legião Invencível ". No primeiro, teve Henry Fonda. No segundo e no terceiro , John Wayne, seu ator preferido e presença constante nos seus maiores filmes ( aliás, nos grandes filmes do gênero também com outros diretores ).
Já lançada na platéia e gravada a figura mítica do xerife - essencial para a manutenção da paz numa época de transgressão e dificuldades em manter a lei - os anos 50 trataram de trazer ao cinema a consolidação e os anos de ouro do gênero, que viu-se dividido em dois estilos: o filme de ação e o western psicológico.

Os grandes westerns de ação da época, entre dezenas de produções baratas que fácil aceitação entre o público - um tema de fácil realização e pouca diferença em seus argumentos - são produções que, por um motivo ou outro, diferenciaram-se da produção em geral graças á qualidade de seus realizadores; "Os Brutos Também Amam" ( 1953 ), de George Stevens - o pistoleiro misterioso que chega do nada para mudar uma pequena cidade atormentada por um assassino - "Matador" ( 1950 ) de Henry King - o tema do pistoleiro mais rápido que todos, tendo sempre que provar seu valor a quem o desafia - " Vera Cruz" ( 1954 ) de Rober Aldrich - dois homens contratados para escoltar uma carga, e que decidem roubá-la - "Sem Lei, Sem Alma" ( 1957 ), de John Sturges - mais um filme sobre a vida de Wyat Earp e o duelo lendário contra os irmãos Clanton no Curral OK e "Da Terra Nascem os Homens" ( 1958 ) de William Wyller - western épico que tem na disputa pela terra sua motivação principal.
Os westerns psicológicos, por sua vez, traziam outras preocupações além da ação. Uma construção psicológica mais bem pensada de seus personagens proporcionava dramas humanos em meio aos tiros e mortes. Talvez o primeiro deles tenha sido "Rio Vermelho" ( 1948 ) de Howard Hawks, onde John Wayne interpreta um caubói desafiado pelo próprio filho adotivo ao levar um rebanho de gado do sul. O embate entre pai e filho permeia a trama, já descrita como uma "ópera a cavalo". Os anos 50 viram a consolidação do estilo com clássicos do porte de "Matar ou Morrer" ( 1952 ) de Fred Zinneman, "Johnny Guitar" ( 1954 ) de Nicholas Ray e "Onde Começa o Inferno" ( 1958 ) de Howard Hawks. Curiosamente, Matar ou Morrer e Onde Começa o Inferno oferecem visões opostas: no primeiro filme, Gary Cooper é o xerife que pede auxílio para enfrentar um bandido mas é ignorado e abandonado por todos na cidade. Howard Hawks não admitia isso e em resposta filmou "Onde Começa o Inferno", em que John Wayne é o xerife que recusa qualquer ajuda para enfrentar bandidos em superioridade numérica. O maior de todos, sem dúvida, veio das mãos de John Ford, em 1956. Em sua maior atuação, John Wayne transformou o personagem Ethan Edwards no maior retrato de solidão, amargura e obstinação no insuperável Rastros de Ódio - western denso e sombrio sobre a busca incansável de um homem atrás da sobrinha raptada por índios comanches.

Os anos 60 viu nascer uma corrente fora dos Estados Unidos, de produções baratas que fizeram grande sucesso pelo mundo - o chamado western-spaghetti. O diretor Sergio Leone e o ator clint Eastwood foram os nomes que mais fama fizeram, mas nomes como os de Giulianno Gemma e Franco Nero também tornaram-se famosos. Leone e Eastwood alcançaram grande êxito com um western mais satírico que o tradicional de Ford e Hawks, sempre com a trilha sonora de Ennio Morricone e, constantemente, a figura do estranho sem nome - comum a todo o western-spaghetti, de forma geral. Em "Por um Punhado de Dólares" ( 64 ) o diretor fez alusão ao clássico Yojimbo, de Akira Kurosawa. Iniciou também uma trilogia, completada com "Por uns Dólares a Mais" (65) e "Três Homens em Conflito" (67), o melhor deles - que trouxe, de quebra, um dos mais famosos temas musicais do gênero.



Nos Estados Unidos, é o começo do fim para um gênero genuinamente americano. John Sturges faz uma homenagem a um clássico de Akira Kurosawa - o diretor japonês sempre foi fonte de inspiração para o gênero, apesar de, assumidamente, inspirar-se neles para fazer seus filmes - em 1960. "Sete Homens e um Destino" inspira-se em "Os Sete Samurais" e faz sua própria história. Tornou-se um dos grandes westerns do cinema e trouxe a mais conhecida de todas as trilhas musicais - um tema para o próprio gênero. Em 63, Henry Hathaway, George Marshall e John Ford dirigiram o ambicioso "A Conquista do Oeste" - o título diz tudo - com um elenco de astros. Em 61, Marlon Brando teve sua única experiência na direção, com um western psicológico, "A Face Oculta". Ao longo da história, outros nomes de peso deixaram suas marcas no gênero, como King Vidor em "Duelo ao Sol" ( 1946 ) e o próprio John Wayne dirigindo, em "O Álamo" ( 1960 ). Em 69, Wayne receberia enfim o Oscar merecido por uma brilhante carreira com "Bravura Indômita", pouco antes de morrer.

Parecia que o western previa seus últimos instantes de genialidade. No mesmo ano da premiação de Wayne, herói maior do cinema americano, surgiam as três últimas obras-primas a encerrarem um ciclo na história do cinema. "Butch Cassidy" de George Roy - Hill - western alegre, descompromissado e movimentado com Paul Newman e Robert Redford - "Meu Ódio Será Tua Herança" - apologia ao próprio fim do gênero dirigida por Sam Peckinpah, contando a história de veteranos bandidos aplicando seu último golpe - e "Era uma vez no Oeste" - obra-prima máxima do diretor Sergio Leone trazendo um dos mitos do gênero, Henry Fonda, pela primeira e única vez no assustador papel de vilão.

Os anos 70 teriam tentativas frustradas de fazer o gênero retornar aos bons tempos. Os dois únicos filmes que conseguiram alguma atenção foram filmes comprometidos socialmente com a lembrança dos verdadeiros donos do território invadido pelo homem branco. A defesa dos índios como seres humanos e não meros inimigos hostis e selvagens chegou com força em "O Pequeno Grande Homem" ( 1970 ) de Arthur Penn e "Um Homem Chamado Cavalo" ( 1970 ) de Elliot Silverstein, com marcantes desempenhos, respectivamente, de Dustin Hoffman e Richard Harris. A premissa, no entanto, não era nova. O precursor no estilo foi "Flechas de Fogo" ( 1950 ), de Delmer Daves, com James Stewart - outro mito do gênero que compôs com o diretor Anthony Mann grandes obras como "Winchester 73", de 1950 - Stewart estrelaria grandes clássicos de outros diretores também, como "O Homem que Matou o Fascínora" ( 62 ) de John Ford. foi nesse filme que o personagem de Edmond O'Brien disse a frase que norteou a própria carreira de Ford: "Quando a lenda é mais interessante que a realidade... imprima-se a lenda".
Dos grandes mestres, apenas Sam Peckinpah resistiu nos anos 70, com "Pat Garret & Billy the Kid", de 73. Mas o gênero já agonizava. Prova da dificuldade ocorreu com "O Portal do Paraíso"
( 1980 ) de Michael Cimino, o maior fracasso comercial da história do cinema, que faliu a United Artists. Silverado ( 85 ) de Lawrence Kasdan, ainda trouxe algum sopro de vida ao gênero - mas ele carecia, então, de novas idéias num cinema já completamente voltado aos efeitos especiais e ao apelo comercial.

Em 1990, Kevin Costner descobriu o potencial do western como filme épico e fez de "Dança com Lobos" - um hino pacifista em favor da cultura indígena - o grande vencedor do Oscar com 07 prêmios, incluindo melhor filme e direção. Abriu uma porta para o renascimento do gênero. A vitória no Oscar, em 92, de "Os Imperdoáveis" de Clint Eastwood mostrou que ainda havia muito o que explorar no gênero. Um dos seus maiores mitos provocava neste filme a desmistificação de vários de seus postulados ( não existem heróis ou vilões e todos tem seus erros a confessar e a pagar ). A partir de então vários filmes invadiram o mercado: "Maverick", "Quatro Mulheres e um Destino", "Wyatt Earp", "Tombstone", "Lendas da Paixão", "Newton Boys". Alguns com alguma qualidade, como o mal avaliado e mal recebido "Wyatt Earp" de Lawrence Kasdan... ou a ótima aventura proporcionada por "Tombstone" de George Pan Cosmatos - ambos contando a mesma história clássica do xerife Wyatt Earp. Mesmo que sem a mesma consistência, qualidade ou periodicidade de antes, o gênero americano tem reaparecido para uma sobrevida com releituras interessantes. "Os Três Enterros de Melquiades Estrada", "Os Indomáveis" e "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford".
No fundo, o gênero permanece o mais americano e legítimo de todos que já trouxeram personagens de carne e osso - ou icônicos - para povoar as telas do cinema. Que viva para sempre...

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Escrito por Fábio Rockenbach

"Quando a lenda for mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda"

Aproveitando a onda do pessoal do Multiplot, que tem publicado um especial sobre um dos mais fundamentais gêneros da história do cinema - e injustamente desvalorizado por muitos - é oportuno linkar a idéia e relembrar um pouco de um estilo de filme que retrata uma época que, praticamente, terminou quando o cinema nasceu.
Não seria exagero, também, afirmar que toda a mitologia do western - aquela que ficou no imaginário popular - foi construída por dois homens. Hawks, Mann, Leone, Peckinpah, Stevens e outros passaram por ele e fizeram suas próprias leituras, mas no imaginário popular, western se resume a índios e cowboys, diligências atravessando o Monument Valley, um rosto, e um diretor...

A frase famosa que abre o texto foi entoada pelo personagem de Edmond O'Brien no clássico "The Man Who Shot Liberty Valance" ( O Homem que Matou o Fascínora ) de 1962, e tornou-se símbolo da própria carreira do diretor do filme, John Ford. Nesse caso, a lenda diz respeito ao mais americano cineasta da história do cinema - um homem de posições fortes, às vezes corajosas, mas sempre certo de suas idéias. O próprio nome John Ford já traz consigo a lembrança do cinema americano das décadas de 30,40,50 e 60 - e realizações de um homem que guarda o recorde de ter sido o único diretor da história a ganhar 04 Oscars de direção.

Mas todo esse espírito seria inútil se Ford nãoencontrasse um nome à altura para traduzi-lo em palavras e interpretação à frente das câmeras - afinal, o irlandês temperamental até experimentou a carreira de ator, mas não admitiria voltar para a frente das câmeras. Ford acabaria encontrando seu alter-ego na figura igualmente mítica de John Wayne - o herói americano por excelência, representante máximo do desbravador durão, corajoso, bom de briga e que esconde por trás da carrapaça o senso de lealdade, dever e respeito às mulheres que ama sem querer demonstrar. Foi o arquétipo básico do homem que representa sozinho o próprio gênero onde sua parceria com John Ford rendeu os maiores dividendos para o cinema mundial - o western, reconhecidamente, pasmem, o mais americano dos gêneros.

Para Ford a prova de suas convicções foi exercida em mais de quatro décadas de cinema, sempre insistindo em tirar de suas filmes as mínimas concessões à vulgaridade ou à baixesa. A miopia que o fazia insistir na idéia de que os grandes vilões da expansão americana para o oeste foram os índios é perdoada quando se analisa seus filmes e se mostra que os bons costumes e a tradição sempre superam qualquer adversidade. Ford, além dos bons costumes, prezava seu conservadorismo. A mulher, no ambiente árido do oeste, é tratada como um ser frágil com obrigações estritamente domésticas - cabe ao homem, duro e capaz de responder ao ambiente hostil - a tarefa de comandar. Mas ele faz sua concessão: deixa claro que nessa ambiente rústica eram as mulheres que passavam a sabedoria, afinal, eram as únicas que sabiam ler e escrever. Raros foram os filmes em que essa idéia não esteve presente, e quando houveram, foi na forma de comédia que o diretor soube passá-la - vide o clássico "Depois do Vendaval".

A parceria com John Wayne só não foi absoluta porque, ao lado de James Stewart e Henry Fonda, Ford criou outros grandes clássicos. Fonda atuou com o diretor em "As Vinhas da Ira" e "Paixão dos Fortes" enquanto Stewart teve a chance de atuar até mesmo com Wayne em "O Homem que Matou o Fascín
ora", para citar os mais conhecidos. Mas foi com Wayne que o diretor construiu a mitologia do western americano - sua parceria com ele pode ser considerada a precursora de outras posteriores, como a de DeNiro e Scorsese. Foi através de Wayne que ele encontrava a válvula de escape ideal para sua idealização do herói americano. Combiná-lo com a paisagem desértica do Monumment Valley davam-lhe satisfação - e durão por durão, Wayne era um dos atores qye suportavam o diretor que não admitia que os atores fizessem sugestões. Suas idéias eram absolutas.

Essa relação entre dois mitos pode ser melhor entendida quando se deixa claro que as imagens de ambos, ator e diretor, estavam indissociavelmente marcadas por estereótipos. No caso de Ford, era a de um cinema essencialmente direcionado pela figura masculina - e daí para fazer do western seu gênero mais marcante é um passo. Já Wayne tornou-se mais do que um ator ou um homem, uma figura símbolo. Alex Podgorny, em sua biografia do astro, colocou melhor a situação: " John Wayne, um das estrelas maiores do cinema, também é um dos problemas maiores do cinema. Sua imagem como um ícone de individualismo american
o e o espírito de fronteira obscureceu sua carreira de tal forma que é quase impossível para espectadores e escritores separarem a lenda de Wayne, o ator de Wayne, o homem ".
Poucos conseguem perceber que essa imagem mítica do ator se configura nos tipos criados por ele -mas a imagem de sujeito durão e decidido era na verdade um esquema que ele criou para compensar uma falta de talento interpretativo, mas durante os anos ele acabou apoiando-se no estratagema criado - e encaixou como uma luva para o que John Ford queria em seus filmes. Quando, em 1956, os dois rodaram juntos "Rastros de Ódio", o ator já estava preparado por anos de ensaio para encarnar o solitário, mau humorado, amargurado e vingativo Ethan Edwards.
A carreira de ambos passeou lado a lado com o western durante praticamente duas décadas. Nesse ínterim, Ford alternou-se em outros gêneros, ganhando seus quatro Oscars por "O Delator", "As Vinhas da Ira", "Como Era Verde Meu Vale" e "Depois do Vendaval", enquanto Wayne permaneceu praticamente fiel ao gênero que o criou. Quando, nos anos 60, eles perceberam que o western decaía, Ford começou a parar. Wayne encontrou nos filmes de guerra, como "Os Boinas Verdes", uma saída para continuar interpretando seus tipos durões. Os dois, porém, ficariam eternizados em uma parceria memorável, que deixou para o cinema filmes como "No Tempo das Diligências", "Forte Apache", "Sangue de Heróis" e "Rastros de Ódio", entre tantos que construíram no western. Dois mitos americanos eternizando um gênero americano.