A Vida de Brian

Escrito por Fábio Rockenbach

(Monty Python's Life of Brian, ING, 1979 )
Direção de Terry Jones, com Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin


"A Vida de Brian" não foi eleito em diversas pesquisas entre críticos e público ( em enquetes da Tottal film, Channel 4 e Channel 5 ) o melhor filme de comédia de todos os tempos ( e o 6º melhor filme britânico da história pela mesma Tottal Film ) sem motivos. O timing para a palavra certa, a reação certa e a tirada certa nunca estiveram tão ajustados pelo grupo Monty Python quanto aqui. É comum a maioria das pessoas considerarem “O Cálice Sagrado” como a melhor comédia do grupo e o filme mais engraçado de todos os tempos. No quesito” quantidade de gags e piadas”, é provável que seja, mas em termos técnicos, de narrativa, ritmo e qualidade visual, “A Vida de Brian” é o melhor filme do hilariante grupo inglês que fez escola no humor mundial. Em uma opinião muito particular, é também a melhor comédia de todos os tempos. Quer saber alguns porquês?

Um exemplo desse timing ajustado: numa das mais hilárias cenas de todos os tempos, Pilatos interroga o judeu Brian, um pobre coitado que nasceu em uma manjedoura vizinha à de Jesus Cristo e seria, pelo resto da vida, confundido com o Messias. Preso durante uma invasão à sede do poder romano em Jerusalém ( e após uma briga entre os incontáveis grupos contrários ao domínio romano na galiléia ), Brian é escoltado pelo centurião e dois soldados. E encara um Pôncio Pilatos que troca o “r” pelo “l”.

Pilatos: Qual seu nome, Judeu?
Brian: Brian, senhor.
Pilatos:Oh, "Blian", é?
Brian: Não não, Brian.
( bofetão na cara )
Pilatos:Oh, o pequeno judeu tem "espílito".
Centurião: O que senhor?
Pilatos:" Espílito"!
Centurião:Ah, sim, claro.
Pilatos:Não, não. "Espílito", "blavula", ímpeto.
Centurião:Oh, sim... Uns 11, senhor.
...
Pilatos:Então... "quelia" nos fazer uma "sulplesa"?
Brian: Fazer o que senhor?
Pilatos:Insolente. "Allebent" com ele, centulião?
(bofetão na cara )
Centurião:E "atilamos" no chão senhor?
Pilatos:Que?
Centurião:"Atilamos" ele no chão senhor?
Pilatos:Oh, sim. Atile-o no chão.
(jogam-no no chão)
Pilatos:Agora, judeu "alogante".
Brian:Não sou judeu. Sou romano.
Pilatos:"Lomano?"
Brian:Não, não. Romano.
(bofetão na cara )

Alguns segundos depois dessa troca de idéias hilariante – que se repete ao longo de todo o filme em diferentes situações e locais e tem muito mais sentido vista do que escrita – Pilatos tenta saber o que há de tão engraçado no nome romano do pai de Brian. E a menção de “biggus dikkus” ( Enormus Pintus ) desencadeia também na platéia risos incontroláveis. Até que, depois de praticamente torturar seus soldados citando o nome do amigo – e eles não podem rir – vem um silêncio de alguns segundos, enquanto Pilatos observa seus soldados. Esse silêncio é quebrado por uma frase, simples, que revela a magnitude desse timing ajustado.
- Ele tem uma esposa, sabiam?
Não é preciso muito para que todos saibam que as próximas palavras serão o clímax da cena. E como esse, esses pequenos clímax surgem ao longo de toda a projeção. Em termos gerais, “A Vida de Brian” é mais coeso e “fechado” do que “O Cálice Sagrado”, também uma obra-prima da comédia, e tem momentos inesquecíveis.

Aliás, o grupo inglês mexeu com fogo ao brincar com todo o catecismo referente à passagem de Jesus na terra, ironizou dogmas católicos e fez pouco de conceitos caros à qualquer religião, como a idéia de um messias, votos de silêncio e sacrifício. Tudo isso vem por terra quando acompanhamos a vida do pobre Brian no tempo de Cristo. Não há muito o que resumir dessa epopéia do humor, exceto que o filme oferece poucos minutos de descanso e, ao contrário de comédias besteirol cheias de gags da atualidade, seu humor é construído em cima do diálogo – que muitas vezes requer até certo nível cultural para ser perfeitamente compreendido. Em “O Cálice Sagrado”, o humor de uma das cenas, por exemplo, surge na discussão sobre feudalismo, servidão e propriedade privada. Diálogo cabeça com tiradas hilariantes. Em “A Vida de Brian”, a troca de idéias rápida, e as vozes e caras impagáveis dos membros da trupe, que se revezam em diversos papéis denotam uma versatilidade supreendente. E como a cerne de qualquer filme do grupo não são momentos de beleza visual ou roteiros profundos, o melhor é apontar alguns "porquês" do status dessa obra-prima cômica.

Momentos inesquecíveis ( apenas para citar alguns )
- a cena inicial, onde toda a pompa sugere o início de um antigo épico cristão, para logo ser desmascarado com a confusão dos Reis Magos, dando presentes a Brian. A recepção da “mãe” de Brian é hilariante.
- O que fazem aqui a uma hora dessas da madrugada.
- Somos 3 Reis magos, viemos prestar homenagem ao seu filho.
- Homenagem? Vocês estão é bêbados. Fora daqui.

- as mulheres que compram barbas postiças para comparecerem aos apedrejamentos em público e precisam disfarçar a voz.

- Brian é pego pichando o muro com mensagens anti-romanas e repreendido por um centurião, que o ensina a escrever direito, e depois manda ele escrever 100 vezes a frase correta no muro.

- os romanos indo e vindo à casa do velho onde os conspiradores se reúnem para revistar os aposentos e buscar encontrar um dos diversos membros conspiradores escondidos no pequeno barraco. Eles encontram uma colher e entregam ao centurião.

- Brian foge dos seguidores que acham que ele é o messias e se envolve com um eremita que não abria a boca há anos. A hilária seqüência termina com os seguidores prestando homenagens a Brian e perguntando a ele o que fazer.
- Vão se foder. – diz Brian
Todos levantam a cabeça e começam a se olhar, vagarosamente.
- Como fazemos isso, senhor?

- Os dois carrascos fingindo-se de débeis mentais para o centurião.

- A lista dos crucificados, onde o centurião pergunta a cada um que passa qual sua pena e indica o caminho para cada um pegar sua cruz. A um deles, ele pergunta.
- Crucificação?
- Ah, não. Liberdade. Disseram que eu não fiz nada e poderia sair e viver em algum lugar por aí.
- Oh, bem, isso é ótimo. Então, pode ir.
- Ah, não. Brincadeirinha. É crucificação mesmo.
- Oh, ótimo. Então pode ir e pegar sua cruz.

- Toda a seqüência de crucificação: o engano referente ao nome ( “Meu nome é Brian, e o da minha esposa também” ), o pelotão suicida e a hilariante cena final com os crucificados cantando “Sempre veja o lado bom da vida” alegremente.

O melhor mesmo é rever para dar ( muitas ) gargalhadas.

3 Comentários:

  1. Isabela disse...

    Esse eu não vi, mas tentarei assistir, parece ser uma boa pedida.

  2. Pedro Henrique disse...

    A Vida de Brian é um filme belíssimo. Os diálogos que você escolheu são sensacionais.

    Abraço!!!

  3. Brida disse...

    È fantastico este filme assisti na época na globo, quando de sabado a noite logo após a novela a globo exibia filmes aliás erá uma sequencia de filmes como seção coruja, bons tempos aqueles em que a tv se preocupava com bons programas...
    vale a pena assistir esse filme