The Oxford Murders

Escrito por Fábio Rockenbach

( 2008, Espanha / França )
Direção de Alex de La Iglesia, com John Hurt, Elijah Wood, Leonor Watling, Julie Cox, Burn Gorman



“The Oxford Murders”, sem título definido no Brasil, sofre de um sério problema de identidade. Tem ambição e até conteúdo para ser grande, mas derrapa na auto-suficiência e na completa falta de empatia com o público, o que é fatal quando se trata de uma trama de investigação que desafia a platéia. Imagina ousar em uma reviravolta que traz, até, boas surpresas, mas quando ela acontece o público simplesmente não está nem aí. O impacto da boa manipulação que o diretor Alex de la Iglesia constrói é despedaçado pela falta de empatia com os personagens.

A trama, baseada na obra do argentino Guillermo Martinez, promete muito pela idéia básica: o jovem Martin ( Elijah Wood ), fascinado por matemática, chega a Oxford ansiando por ser orientado pelo lendário Arthur Seldom ( John Hurt ), mas logo se desilude pelo comportamento superior dado ao ( e pelo ) professor. Uma série de crimes, no entanto, aproxima os dois por apresentar desafios a Seldom, que os fará usar de suas habilidades lógicas e matemáticas para decifrá-los. É uma trama inspirada nas histórias de Conan Doyle e Agatha Christie, e tenta basear sua condução no carisma do personagem de Seldom, um homem brilhante e difícil. Nas páginas de um livro, onde o que funciona é a imaginação do leitor, isso deve funcionar maravilhosamente bem. O problema é a transposição.


Para começo de conversa, Elijah Wood não consegue tornar o público seu cúmplice, simplesmente porque não consegue passar emoção através dos tais grandes olhos expressivos que o diretor, Iglesia, tanto elogia. Eles parecem inexpressivos ( pior é saber que Gael García-Bernal estava cotado ).Seu romance com a enfermeira não tem química alguma, e a personagem Beth intepretada por Julie Cox é irritante: tenta passar seu temperamento explosivo e suas neuroses através de gritos e olhos esbugalhados. Há um sério problema de direção de atores que faz cair por terra o bom trabalho de Iglesia com a câmera.


Há uma cena, em particular, que é um tanto vazia, apesar de competente. Um único movimento que acompanha por várias ruas diferentes personagens se cruzando. Se tecnicamente é primorosa, revela-se um pouco fútil, já que o objetivo dela é justificar dois fatos que logo são esclarecidos, fazendo com que toda a engrenagem da cena pareça um mero exercício estilístico. A maneira como os personagens começam a falar uns com os outros sem sequer se conheceram é artificial demais. O raciocínio “lógico” dos personagens esbarra em deduções que, a partir da metade do filme, soam forçadas. A resolução dos enigmas, em si, é muito boa, depois de uma sensação de decepção tremenda. É uma pena que ela, sozinha, não sustente um filme apoiado fragilmente em um elenco pouco à vontade que não consegue capturar o público. Quando isso acontece em uma história dessas, e o destino deles deixa de interessar a nós, do lado de cá, tudo o mais torna-se mero espetáculo visual, sem emoção alguma. No fim, pouco nos importamos em saber quem é o culpado ou o que aconteceu. Como números, torna-se algo frio, que não importa ou faz diferença alguma. Como o filme. Apenas perdoem Hurt, ele é o que ainda confere alguma credibilidade ao filme. É graças a ele e à inventividade da resolução do caso - mais mérito do autor do romance do que do filme em si - que o filme quase consegue duas estrelas para decorar o post.

O parágrafo a seguir tem spoiler, então leia por conta e risco.
Nada é pior que personagem de Burn Gorman, parceiro de quarto de Martin, típico elemento à solta na história para confundir o público que, no fim, revela-se sem utilidade alguma e simplesmente desaparece de cena, depois de algumas seqüências constrangedoras para mostrar um estudioso atormentado pela inveja e desejo de vingança – que, aliás, também são rasamente explicados.


2 Comentários:

  1. Pedro Henrique disse...

    Quero ver esse filme, fiquei curioso justamente pelo título.

    Abraço!

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Eu fiquei pelo título e pela história, mas me decepcionei demais. Muito artificial e raso, e quando chega o (bom) final eu já estava com ele lá embaixo, não compensa todos os erros até chegar ali. Mas, claro, assista, opinião é muito pessoal...