

Se a intenção de Welles era mostrar que podia ser comercial, matou a charada e ganhou a aposta, seja ela qual tenha sido, com Spiegel, porque é muito fácil e ligeiro acompanhar a trama de “O Estranho”, sendo capturado de uma cena a outra pela forma ágil com que o roteiro de Anthony Veiller conduz a trama sem perder tempo na construção dos personagens ou explicar mais sobre de que forma Kindler, o criminoso, se tornou Rankin, o professor, e apagou todos os seus rastros. Se essa construção das personagens é rasa, sobra uma encenação metódica de cada ato dessa história. Welles era um mestre em falar pelas imagens, pela composição de cada quadro, pela posição exata da cena e pela forma como ela se movia e interagia de forma quase simbiótica com o ambiente. Em grau menor, é o que ele faz aqui também – e a forma como ele retira de cena o rosto de Kindler – ele próprio – e move a atenção da platéia para o que acontece ao fundo, na porta de uma Igreja que é o epicentro de toda a ação, para depois recolocar Kindler na cena, já na meia hora final, denuncia sua presença. Nas mãos de outro diretor, talvez “O Estranho” fosse alijado de construções de cena como essa, que ocorrem em diversos momentos. A forma como elementos e personagens entram e desaparecem o raio de ação da câmera e se complementam com o resto da construção é maravilhoso. É uma pena que, se começa com pleno vigor e é sustentado por uma interpretação magistral de Edward G. Robinson – Welles, já comentei, exagera em algumas reações – o filme termine de forma tão abrupta após uma meia hora final, com o clímax na torre do relógio, sendo tão brilhante. Chamar “O Estranho” de filme menor só é admitido quando se tem, na filmografia, “coisas” como “Cidadão Kane”, “Soberba” e “A Marca da Maldade” mesmo. Do contrário, é sacrilégio...
( The Stranger, 1946, EUA ) Direção de Orson Welles, com Orson Welles, Loretta Young, Edward G. Robinson, Richard Long, Martha Wentworth






Festim Diabólico é um exemplar cruel do suspense mais sórdido que Hitchcok sabia compor como ninguém. O suspense pelo suspense, como único exercício de mexer com os nervos. Não bastasse fazer isso como ninguém, ainda aproveitou para criar um filme-exercício que ele nunca mais repetiu, mas serviu para atestar seu pleno domínio de cena, de espaço e de atores. Festim Diabólico é rodado inteiramente sem cortes. Nenhum. Os únicos cortes que existem acontecem a cada oito minutos, porque era o limite dos rolos usados na filmagem. Para não quebrar as seqüências, Hitchcok focava as costas de um dos personagens, trocava o rolo e reiniciava a ação partindo das costas para seguir em frente em seu teatro de suspense que, mesmo ambientado em apenas um ambiente, consegue prender a atenção do início ao fim.
Se nas primeiras cenas o vendedor de seguros Walter Neff grava na sala de seu chefe a confissão do assassinato que sua companhia estava investigando, e que é o tema desta obra-prima – provavelmente o pai de todos os “noir” – o que mais resta para a platéia assistir nessa intricada história roteirizada por Raymond Chandler e dirigida pelo genial Billy Wilder? Resta muita coisa. Desde a primeira cena, vendo o estado do protagonista, sabemos que algo deu (muito) errado. Sabemos que ele é o assassino. Saber por que um vendedor de seguros cometeu um assassinato e como isso aconteceu é o fio condutor de uma estória que resume boa parte de uma trama básica que vem se repetindo há milhares de anos: o homem que mata por sexo e dinheiro, enganado pela mulher que pensa apenas nos benefícios que o ato lhe trará.
Essas histórias, presentes no ótimo documentário que acompanha a edição em DVD que a Versátil lançou no Brasil, apenas retratam um pouco do processo para transformar “Pacto de Sangue” em uma obra-prima. Se Chandler parecia um vendedor de seguros, colocou muito dessa impressão dele próprio na figura do personagem principal, Neff. Se desde o início sabemos que ele é culpado, acabamos de forma cúmplice acompanhando atentos sua trajetória porque ele não parece, de modo algum, um assassino. É um tolo, um americano raso enganado pela malícia e sedução de Phyllis Dietrichson ( Bárbara Stanwyck, um demônio na tela, e a mais bem paga atriz na época em que o filme foi rodado ), a mulher que trama com Neff a morte do marido para que eles recebam a milionária apólice de seguros. Só Neff pode planejar o crime perfeito, por conhecer o modo de pensar de Barton Keyes ( Edward G. Robinson ), seu superior na empresa, uma raposa em farejar fraudes e assassinatos. Mas como o próprio Keyes diz, não existe o crime perfeito, e “quando duas pessoas cometem um crime juntas, é como se entrassem em um bonde do qual não pudessem sair sozinhas, e o destino do bonde é sempre o cemitério.”
A narração em off também se tornaria uma marca registrada do “Noir”. Seria usada muito tempo depois, inclusive em paródias e homenagens, para fazer referência ao gênero. E ao optar por colocar a platéia como cúmplice e observadora impotente do drama de Neff, que vê sua situação piorar a cada dia que passa, torna essa história de crime e castigo ainda mais absorvente – um recurso semelhante ao usado por Hitchcok incontáveis vezes, para tornar a audiência cúmplice do protagonista, ainda mais quando ele se configura como um pobre coitado que voou alto demais na ambição.
Existe um pedestal imaginário onde certos filmes estacionam e do qual simplesmente não é possível removê-los. Muitos clássicos até chegam a passar por ele, mas não resistem ao tempo. Outros permanecem imóveis, não importa que passem 40 ou 50 anos.
Essa história que espelha um pouco dos sentidos da colonização do oeste serve de base sólida para o embate entre Dunson ( John Wayne, compondo um personagem quase tão complexo quanto o Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” ) e Matt ( Montgomery Clift, conferindo uma força particular ao filme em cada aparição ), duas personalidades magnéticas. Dois muros batendo um contra o outro. Uma história de conflitos que começa 14 anos antes, quando Dunson encontra o jovem Matt perdido após um ataque de índios destruir o comboio onde ele viajava – e que vitima também a mulher que Dunson pretendia trazer para junto de si tão logo levasse a cabo o plano de iniciar sua criação de gado e fundar seu rancho. Desde o primeiro encontro, essas personalidades se chocam e se atraem, de forma estranha e plausível. Enquanto aborda a história de homens como Dunson, que começaram do nada e fundaram o alicerce do país na base da força, Hawks conduz de forma hábil a relação conflituosa entre pai e filho quando, anos depois, eles decidem levar 10 mil cabeças de gado por mil milhas para o norte, onde o preço por cabeça não foi atingido pela desvalorização após a guerra da Secessão. Os rumos que tomarão após iniciar a jornada é que impõem o conflito insustentável entre Matt, conciliador e sempre calmo, e Dunson, uma personalidade doentia por quem a platéia sente admiração e repulsa. Se o tema já era forte, a simples frase “Eu vou atrás de você, e vou te matar.” - dita por Dunson quanto é abandonado com seu cavalo pelo filho e pelo grupo – transforma esse épico a cavalo em um espetáculo ainda mais absorvente.
Por mais que Hawks demonstra a inabilidade em lidar com o universo feminino e das relações das mulheres com os homens, aqui superficiais e sem solidez, a personagem de Joanne Dru é quase um divã para os dois personagens que cruzam o caminho. É através dela, e em uma cena reveladora com John Wayne que todo o conflito interior dos personagens é explicado ao público sem soar artificial, o que dá mais peso à tensão que se arma até o momento em que eles se encontram, em um embate memorável que entrou para a história do cinema.
Não bastassem todos esses elementos, que dançam em torno do roteiro brilhante de Borden Chase – baseado em uma história do próprio Chase publicada no Saturday Evening Post – ainda há a fotografia de Russel Harlan, que transforma “Rio Vermelho” num dos mais belos espetáculos visuais já filmados, motivo pelo qual grande parte dos críticos defende que este é o tipo de filme que deveria ser visto em uma tela grande ( as imagens que ilustram esse texto falam em prol dessa afirmação ). É o tipo de oportunidade que não deve acontecer tão fácil em tempos onde clássicos só conseguem refúgio na tela do televisor. Menos mal: que “Rio Vermelho” permaneça intocado no pedestal onde ele se encontra. Tem estado lá por 60 anos, e não há lugar melhor para que ele permaneça, acima da grande maioria dos filmes de qualquer gênero.


