

O brilhantismo com que Brian DePalma nos conduz na história de Carrie White é tão perverso quanto poderia ser uma adaptação de um romance de Stephen King, mas o terror em “Carrie, a Estranha” não vem do medo do desconhecido, de criaturas sobrenaturais ou mesmo do banho de sangue que ela entrega na palma da mão do espectador na climática seqüência do baile. O terror no filme de DePalma vem do fanatismo religioso e do preconceito. São esses dois elementos que causam repulsa e ódio, e alimentam, pouco a pouco, um sentimento tão dúbio no espectador que, quando Carrie arregala seus olhos de forma demoníaca, coberta de sangue, há um certo júbilo da platéia. Ela queria isso, tanto quanto Carrie. Ela queria ver a menina ridicularizada pelos colegas de escola e imersa em um inferno dentro de sua própria casa se vingar de todos – e sequer as pessoas que se importavam com ela conseguem se livrar de sua fúria demoníaca. E essa é outra face do terror psicológico de “Carrie”: a platéia quer ver sangue.
Adaptado do primeiro romance de sucesso de King, “Carrie” se apóia de forma magistral em duas atuações: a de Sissy Spacek, genial como a garota introspectiva, de cabelos divididos, postura amedrontada e gestos nervosos, e principalmente de Piper Laurie como sua mãe, fanática religiosa. Mais do que os colegas, é ela a responsável pelo banho de sangue que a menina, que possui dons telecinéticos, promove no Baile de Formatura. Mesmo que o fanatismo não cegue a menina, que sonha em interagir com seus colegas e sabe que o dom que possui não é uma manifestação do demônio, uma vida inteira criada dentro dos costumes castradores da mãe alimentam a explosão dos poderes ocultos da menina, que é ridicularizada no Baile.
Rever “Carrie” com atenção mostra um domínio invejável de DePalma sobre o tema ao qual se debruça. Ele alterna momentos tocantes e idílicos com abruptas intervenções no clima da cena, de forma tão brusca que levam o espectador de um lado a outro de sua percepção. O inocente banho é repentinamente interrompido pelo terror de Carrie com a primeira menstruação em um vestiário repleto de garotas prontas a ridicularizarem-na. A expectativa de um garoto, circundando as árvores em planos alternados de câmera, atrás de Carrie, é interrompido abruptamente pela manifestação rápida dos seus poderes. Na sua primeira aparição, a câmera sobrevoa a quadra do colégio para repousar, candidamente, no rosto de Carrie, na primeira manifestação de sua pouca popularidade. E toda e qualquer manifestação dos poderes ocultos da jovem surgem em momentos rápidos, que estouram sob um único acorde da trilha de Pino Donaggio – trilha, aliás, exemplar, que bebe na fonte de Bernard Herrmann mas consegue alternar os acordes assustadores com momentos tocantes.
E a construção do horror adolescente, em suas várias faces, atinge seu auge estilístico na seqüência do baile: A transformação da jovem, de Rainha do Baile para Rainha da Morte, quando Carrie, coberta de sangue, exibe seus olhos abertos e frios, sua expressão sem emoção, quando as portas se fecham, e a tela se divide em duas para mostrar a reação do público apavorado e as expressões de Carrie, apenas contemplando a destruição que promove. Já seria digno de constar em um dos grandes momentos da carreira de DePalma – que ensaia os momentos de slowmotion e antecipação que retomaria com tanto brilhantismo posteriormente na seqüência em que Amy Irving prevê o que está para acontecer mas tenta, sem sucesso, impedir. A força dos grandes olhos de Sissy Spacek mesclados com o vermelho que cobre seu rosto são assustadores e DePalma volta a trazer o espectador para o outro lado da moeda quando ela retorna para casa, apenas para, novamente, girar o botão novamente em uma seqüência que atesta toda a repulsa do público para com a figura da mãe. Essa capacidade de trabalhar tão bem o terror de forma não gratuita e constante coloca o filme de DePalma como um dos grandes momentos do gênero.
(Carrie, EUA, 1976 ) Direção de Brian DePalma, com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Kat, Nancy Allen, John Travolta. 98min












Uma represa vai fazer desaparecer, para sempre, as corredeiras do rio Cahulawassee. Lewis ( Burt Reynolds ), Bobby ( Ned Beatty ), Ed ( John Voight ) e Drew ( Ronny Cox ) decidem deixar a atribulação da cidade num final de semana e descer, de barco, as corredeiras antes que elas sumam para sempre. O que eles encontram durante essa descida transforma o final de semana do grupo em um inferno traumatizante. Esse encontro da civilização com o mundo rural, da educação com a barbárie resultou em “





Alguns segundos depois dessa troca de idéias hilariante –
Aliás, o grupo inglês mexeu com fogo ao brincar com todo o catecismo referente à passagem de Jesus na terra, ironizou dogmas católicos e fez pouco de conceitos caros à qualquer religião, como a idéia de um messias, votos de silêncio e sacrifício. Tudo isso vem por terra quando acompanhamos a vida do pobre Brian no tempo de Cristo. Não há muito o que resumir dessa epopéia do humor, exceto que o filme oferece poucos minutos de descanso e, ao contrário de comédias besteirol cheias de gags da atualidade, seu humor é construído em cima do diálogo – que muitas vezes requer até certo nível cultural para ser perfeitamente compreendido. Em “O Cálice Sagrado”, o humor de uma das cenas, por exemplo, surge na discussão sobre feudalismo, servidão e propriedade privada. Diálogo cabeça com tiradas hilariantes. Em “A Vida de Brian”, a troca de idéias rápida, e as vozes e caras impagáveis dos membros da trupe, que se revezam em diversos papéis denotam uma versatilidade supreendente. E como a cerne de qualquer filme do grupo não são momentos de beleza visual ou roteiros profundos, o melhor é apontar alguns "porquês" do status dessa obra-prima cômica.


