São tantos furos, elementos e pessoas mal utilizados que chega a ser irritante. A salada de frutas mistura vários elementos em uma trama só, mas não consegue criar um todo consumível. Pra piorar, constrói cenas de tensão para destruí-las com a inserção de pontos chave frustrantes – o maior deles, o clímax geral do filme, sem graça para um diretor que alimentou expectativas em torno de seus personagens e de seus malabarismos visuais ao longo de toda a projeção.Tiro no pé, e mal dado ainda...
São tantos furos, elementos e pessoas mal utilizados que chega a ser irritante. A salada de frutas mistura vários elementos em uma trama só, mas não consegue criar um todo consumível. Pra piorar, constrói cenas de tensão para destruí-las com a inserção de pontos chave frustrantes – o maior deles, o clímax geral do filme, sem graça para um diretor que alimentou expectativas em torno de seus personagens e de seus malabarismos visuais ao longo de toda a projeção.Tiro no pé, e mal dado ainda...
“Falando Grego” é a prova de como algumas pessoas se apegam a uma fórmula e têm
a) dificuldade para trabalhar fora delas
b) predisposição de sugar delas o máximo que puder
Nia Vardalos foi “descoberta” por Tom Hanks e sua esposa, Rita Wilson, quando atuava na peça original que deu origem ao filme “Casamento Grego”. O casal gostou tanto que financiou a ida de Vardalos para o cinema. O filme foi um sucesso, muito graças aos coadjuvantes hilários, aos costumes gregos traduzidos a um nível nonsense e à própria Vardalos, que não é engraçada, mas sabe como poucas interagir em torno de elementos terceiros. Esses elementos são piadas relacionadas aos modos e costumes típicos da sua Grécia, com a qual ela brinca.
Pois “Falando Grego” pode ser um aviso à carreira de Vardalos no cinema, se ela quiser manter uma: é hora de se reciclar. A fórmula que ela criou continua funcionando para boa parte do público, sem o mesmo charme de sua estréia e com um desenvolvimento fraco em algumas idéias do roteiro, que são óbvias ao extremo já na metade do filme - mas isso pouco interessa ao seu público cativo, que irá embarcar no conto de fadas de “Falando Grego”, e que vai rir de muitas de suas tiradas sobre os costumes gregos, agora “in loco”. Sua guia de turismo para os tours em Atenas, que precisa conviver com todo o tipo de turista e busca o amor e a felicidade profissional é uma desculpa para, mais uma vez, flutuar em torno de coadjuvantes que são os verdadeiros donos do filme, que validam a trajetória de sua personagem - uma trajetória que é óbvia, escancarada e desde os primeiros minutos, tem seu destino decidido e afirmado. A única questão é como ela conseguirá o que busca.
“Falando Grego” vai agradar seu público alvo, mas Vardalos precisa mostrar se tem algo a dar fora do terreno seguro de sua Grécia natal. Vai chegar um momento em que o estoque de piadas sobre o país vai se esgotar e não vai restar nada senão ela fazer piada sobre as piadas que ela fez anteriormente.


A história narrada em "Milagre em Santa Ana", baseado em romance de James McBride, merecia ser contada, porém Spike Lee não talvez fosse o mais indicado para fazer isso. Mas mesmo que a verve racialmente inconformista de Lee se eleve acima de outras potencialidades da história, isso não justifica que seu filme, lançado em setembro do ano passado nos Estados Unidos só venha a chegar aqui nas telas grandes em Abril, como se anuncia. Principalmente porque, lá fora, já foi lançado em DVD e Blu-Ray.
Lee anunciou aos quatro cantos que sua intenção era recuperar uma história esquecida e lembrar que os negros também deram sua vida durante a segunda guerra mundial - e que, enquanto lutavam pela democracia, eram mais bem tratados na Itália do que em seu próprio país. Não há inverdades na afirmação de Lee. Longe, também, de se criticar a lembrança de um episódio real - obviamente romantizado na tela - da participação pouco lembrada do chamado Batalhão Búfalo, formado apenas por negros, na campanha aliada na Itália. Mas em alguns momentos, a veia de protesto do cineasta de "Faça a Coisa Certa" e "Malcom X" se torna forçada demais. Quase destrói uma narrativa que, mesmo circundada por esses momentos e discursos forçados, melhora, e muito, em sua metade final, depois de um início bem conduzido, quando nos anos 90 um velho funcionário dos correios, negro, repentinamente mata um homem a sangue frio usando uma pistola alemã Luger, em pleno local de trabalho. No seu apartamento, a polícia encontra um artefato valioso dado como perdido na Itália após a Segunda Guerra Mundial.
"O Milagre em Santa Anna" apresenta seus defeitos após esse prólogo. Desde muito cedo, estabelece alguns clichês necessários para se apontar os "brancos maldosos e estúpidos" e os negros usados como bala de canhão, tratados como mentirosos, como homens sem honra. Lee coloca seus oficiais brancos - com exceção de um, interpretado por DB Sweeney, que deve ter ficado feliz em ganhar uma graninha para aparecer, ao todo, por 2 minutos na tela - como homens racistas, preconceituosos, estúpidos ao extremo. É um desses oficiais que não acredita que um grupo de seus homens ultrapassou uma linha defensiva alemã em um rio, mandando ignorar o pedido de seus soldados por apoio aéreo. Quatro dos homens de um pelotão massacrado no rio sobrevivem, mas acabam entrando cada vez mais em território controlado pelos nazistas. Acabam encontrando um jovem órfão italiano ferido, e o levam a uma aldeia na Toscana, onde fazem contato com os moradores, poucos dias depois de os nazistas massacrarem 560 moradores inocentes do vilarejo de Sant'Anna di Stazzema.
Lee se alterna entre erros e acertos. O início é confuso - algumas bombas perdidas surgem do nada apenas para justificar certos acontecimentos - e arrastado. Ele cresce ao estabelecer relações entre quatro negros e a população local do vilarejo. Está nessa relação a base do discurso do diretor quando afirma que os negros se sentiam mais bem tratados no exterior do que em seu próprio país. Mas não é como denúncia e inconformismo que "O Milagre de Santa Ana" funciona bem, e sim como um pequeno drama de guerra composto por personalidades distintas, em um ambiente inóspito. A relação dúbia entre dois soldados do grupo e uma jovem italiana, e a relação entre o gigante Train e o jovem órfão valem mais do que todas as tentativas de Lee usar a guerra como discurso anti-preconceito ou as cenas em que um movimento de câmera triunfante e uma trilha engrandecedora surgem na tela para enfatizar alguma fala apoteótica de um personagem. É curioso, mas apesar desse relacionamento meio lírico soar chato em alguns momentos, talvez pelo garoto, ele é incrivelmente convincente, graças principalmente ao bom desempenho de Omar Miller como o "gigante de chocolate".
Mas é notório também que, se Lee não abandonou a velha tendência de usar o cinema como veículo de protesto, ele também amenizou boa parte de suas declarações. O diretor apresenta na figura de um oficial alemão e de um jovem soldado capturado ( também alemão ) um outro lado da guerra que poucos filmes, mesmo recentes, pensaram um dia acentuar. Apresenta uma bem conduzida seqüência de combate no vilarejo em seu clímax final, não se preocupa em poupar seus personagens e não se esquiva de encerrar essa história elevando a moral e a emoção do público, em uma seqüência final idílica meio deslocada, mas congruente com as intenções de Spike Lee. Outro diretor talvez se preocupasse mais em recuperar essa história do que em fazer uma denúncia, e assim talvez se preocupasse também em criar personagens mais palpáveis, mas que não se tire os méritos de Lee sobre o que sobrou de bom no filme, principalmente para quem gosta de recuperar aquele período da história através do cinema - só ignore os exageros dramáticos em prol da mensagem.
PS: John Leguizamo deve ter implorado por um papel após o elenco estar fechado. Só assim para justificar a aparição completamente sem sentido dele em dois minutos, em uma cena que pode até ter a intenção de justificar as questões de destino, predestinação e milagre da história, mas cuja sua participação é totalmente gratuita.


É difícil começar a falar de “Austrália” sem apontar, primeiro, os principais motivos que fizeram a ambiciosa superprodução de Baz Luhrmann fracassar, a despeito da boa bilheteria internacional que começa a colher para recuperar o investimento de US$ 130 milhões. Mas talvez, de todos os problemas que possam ser apontados, o maior deles se chama, justamente Baz Luhrmann. O australiano pisou em território desconhecido e nitidamente perdeu o rumo. Colocou o pé no deserto de Nunca-nunca, caiu como bois da manada de um precipício buscando seu norte. Dividiu seu filme em 3 partes, não deu a elas uniformidade e abusou do desejo de ser grande.
Os adjetivos encontrados na rede ao filme o apontam como um novo “E O Vento Levou”. Há quem diga que Luhrmann se espelha em John Ford em determinados momentos. Isso é diminuir demais a força do filme e do diretor citados. Não chega nem perto. Talvez o que mais incomode, e fique mais visível, é a maneira como Luhrmann apresenta um filme na meia hora inicial e mude completamente de tom dali para frente. Os primeiros trinta minutos de “Austrália” são exagerados, histéricos, teatrais da mesma forma que o diretor fez “Moulin Rouge”, e simplesmente não combina. Principalmente porque tudo isso é esquecido depois, vai para o ralo. Por que, então, recorrer a esse estilo de narrativa pseudo-cômica no seu início? Porque contribuir nesse início para amealhar as críticas ao desempenho de Nicole Kidman em cenas pretensamente engraçadas, mas completamente fora do tom?
Kidman é uma inglesa que vai até a Austrália encontrar o marido, dono de Faraway Downs, fazenda de gado que incita a cobiça de outro grande criador. Encontra o marido morto e descobre que o capataz da fazenda a está roubando. Sem ajuda de ninguém, exceto de Drover ( Hugh Jackman ), um boiadeiro rústico, decide levar ela mesma seu gado através do país para vendê-lo ao exército, e enfrenta pelo caminho os capangas do rival de seu marido. E este é o segundo filme dentro de Austrália, após o início trôpego e sem força. O terceiro filme surge com o bombardeio japonês à cidade portuária de Darwin e a luta para recuperar Nullah, uma criança mestiça que ela adota como filho e é levado a uma ilha misisonária para ser “reeducado conforme as leis de Deus”.
Se a intenção de Luhrmann era fazer uma homenagem à sua Austrália natal ( com um elenco, também ele, todo australiano, que tinha Russel Crowe como primeira opção para o papel de Jackman ) tudo o que ele conseguiu foi uma colcha de retalhos com menções distantes à história do país e ao misticismo que cerca os aborígenes, ou à chamada “geração roubada” de crianças levadas de seus pais por serem nativos. É mais uma história sobre segregação e costumes nativos – um tanto mistificados em excesso – do que um romance, que só engata na sua metade final, mas ainda assim sem a química necessária entre Jackman e Kidman. O personagem principal, na verdade, é Nullah, que na pele do jovem Brandon Walter rouba o filme e eclipsa os atores mais experientes sempre que está em cena.
Mas há teatralidade demais. Há pompa em excesso, cenas cuidadosamente planejadas para parecerem épicas ou magistrais – como a primeira aparição de Jackman, por exemplo. A falta de objetividade e de rumo entre as duas histórias e o tom dado pelo diretor, completamente confuso sobre como tratar seu filme, prejudicam a unidade de “Austrália”. Ao contrário de “E O Vento Levou”, onde tudo centra-se em Scarlett O’hara, aqui há vários centros, e nenhum sólido. Toda a beleza plástica de Luhrmann está presente – e ele é um exímio artesão visual – mas é uma pena que muitas dessas cenas soem vazias e gratuitas. O filme de três horas poderia ser reduzido para 2 horas com mais ritmo e uniformidade. Luhrmann faz uma bela homenagem a “O Mágico de Oz” usando ( e muito ) “Somewhere over the Rainbow”. Talvez seja sua declaração particular de amor ao seu país, também chamado popularmente de Oz – a tal ponto que, em uma cena, um dos personagens diz a outro que é hora de voltarem para casa. Como Dorothy, no filme de Victor Fleming, a resposta é “Não há lugar como nossa casa”. A diferença é que aqui, depois do arco-íris, não há para o público muita coisa para a qual voltar. Extremamente bonito, é verdade, mas vazio.


A sensação quando assistimos a “O Casamento de Rachel” é a de que somos um dos membros da família do noivo que recém está conhecendo a família da noiva, às vésperas do casamento. Como se fôssemos convidados a conhecer a família com um olhar fisicamente próximo, mas cujos pequenos detalhes vão surgindo revelação a revelação, sem pressa, mas sempre com um olhar privilegiado. Jonathan Demme não tenta em nenhum momento ser didático, e preserva a história de uma família em pedaços para que ela seja absorvida pelo público pouco a pouco, até que este, enfim, se torne quase um membro dela. Em alguns momentos, Demme despedaça o espectador tamanha a carga emocional e raivosa. A vontade é de reagir, mas podemos apenas olhar.
Apesar de toda a base desse drama forte e profundamente humano estar centrado em uma absolutamente fenomenal Anne Hathaway, como Kim, a jovem que sai de uma clínica de reabilitação e volta ao seio da família na véspera do casamento da irmã, Rachel, é a força do elenco que dá mais sobriedade a uma história que fala de vício, culpa, rejeição e falta de rumo. E é um elenco extraordinário. Somente com grandes atores – apesar de o público não conhecer a maioria deles, com exceção de Debra Winger, a mãe de Kim, dona de uma das cenas emocionalmente mais fortes do filme – essa história consegue fugir do lugar comum de qualquer tipo de drama familiar envolvendo ex-viciados. Kim retorna a um lar onde ela não se sente bem por remoer a culpa da morte do irmão no passado, e por sentir que todos:
a) Ou não a querem por perto
b) Ou a bajulam demais, para que ela não se sinta mal num ambiente onde muitos não a querem por perto.
Kim é a ovelha negra, ela sente que não faz parte de tudo aquilo, e não consegue disfarçar sua percepção. É direta, cínica, desafiadora, mas acima de tudo, enfrente seu problema de frente e ama sua família. É um retrato real, não caricaturado. Hathaway constrói uma personagem que também bate de frente com a irmã, que guarda dela profunda mágoa. As duas, como crianças, disputam as atenções. Uma por só saber falar de sua reabilitação, como se o mundo girasse em torno disto. A outra cansada dos esforços da família em salvar a irmã e querendo, apenas por dois dias, que sua vida e seu casamento sejam o centro das atenções. ( a ponto de interromper uma discussão áspera com Kim para anunciar sua gravidez para todos, o que deixa a irmã furiosa e o público dividido ).
Demme faz uso de uma câmera nervosa, mas não faz por puro preciosismo visual. Ela amplia essa reação da platéia de ser um observador privilegiado captando detalhes de uma família extremamente comum em seus amores e problemas, mas única pela quantidade de dramas particulares e conflitos interiores captados a conta gotas, administrados com maestria. É preciso maturidade para fazer um filme como “O Casamento de Rachel” sem cair em clichês dos filmes de gênero, e para saber terminar essa história sem o sentimentalismo comum, ou sem cair na tentação de apelar para o caminho mais fácil. Demme consegue isso – e não importa o sucesso da cerimônia ou da nova família que se cria nesses dois dias, mas os reflexos de cada relação, de cada frase ou desabafo, na vida de cada um.
Tanto melhor quando esse quadro é pintado com atuações magníficas e um diretor seguro, comprovando que ainda sabe do riscado.
Direção de Ron Howard, com Michael Sheen, Frank Langella, Kevin Bacon, Sam Rockwell


Não é sem razão que, quando David Frost surpreende o ex-presidente Richard Nixon com uma primeira pergunta inquisidora, fora do acordo firmado, o personagem de Kevin Bacon em “Frost/Nixon”, novo filme de Ron Howard, usa uma luta de boxe para explicar o que começava a acontecer. A comparação com um primeiro golpe, e com a reação do adversário ao ver seu oponente surpreendendo-o é a mais direta das muitas menções que existem ao longo do filme comparando as famosas entrevistas acontecidas nos anos 70, pouco depois da renúncia do presidente norte-americano, com um combate. A surpresa, nessa cena em particular, é que não é David Frost quem triunfa ao fim desse round, mas um esperto homem político que, como uma cobra criada nos bastidores do poder, sabe dar as voltas a todas as inquisições de seu oponente, sentado à sua frente. Quem sente o golpe é o inquisidor.
A história de David Frost e Richard Nixon marcou a televisão norte-americana – ironicamente em uma entrevista desacreditada conduzida por um apresentador de talk-shows britânico. Pouco depois da renúncia de Nixon, David Frost conseguiu uma série de quatro programas entrevistando o presidente. Frost e seus pesquisadores queriam que Nixon tivesse, ao vivo, o julgamento do qual escapara com o perdão presidencial, mas não contavam que o velho homem aparentemente indefeso era uma cobra esperta no discurso e nos bastidores do jogo do poder. Os quatro programas tornaram-se uma disputa de gato e rato, onde os papéis continuamente mudavam de posição, até Frost conseguir fazer o que nenhum juiz ou tribunal havia conseguido.
O grande interesse do filme de Howard é colocar os antagonistas como homens com objetivos comuns. Uma notável cena de Nixon falando ao telefone com Frost nas vésperas da última entrevista exprime toda a base que conduz o roteiro de Peter Morgan. Ambos, Nixon e Frost, têm fantasmas em seu passado que os puxavam para baixo. Ambos chegaram ao topo, e ambos caíram. E ambos, também, querem desesperadamente dar a volta por cima. No argumento de Morgan, por sinal um dos melhores do ano no quesito, estão as palavras de Nixon que resumem a situação: “Serei seu adversário mais feroz, porque os holofotes só podem iluminar um, e ao outro só restará o esquecimento.”
“Frost/Nixon” é, certamente, um filme de interesse maior ao público norte-americano. Isso talvez explique a forma entusiasmada como ele foi recebido com diversas indicações aos principais prêmios do ano dados pela crítica dos Estados Unidos. Mas o filme de Howard não é notável como parte da crítica norte-americana sustenta. Ancora-se em dois ótimos atores que desviam a atenção de supostos erros. Howard mais uma vez adultera a ação para privilegiar a emoção – e alguns trechos da entrevista desaparecem no filme, são cortados, algumas reações são modificadas. O curioso é que, sozinho, “Frost/Nixon” sobrevive a tudo isso. Mas uma rápida olhada no YouTube nos verdadeiros vídeos da controversa entrevista mostram que a interpretação de Langella é soberba, mas a construção do personagem Richard Nixon perde pontos frente ao que realmente aconteceu. O Nixon do filme de Howard é um homem decadente, envelhecido, com uma expressão bem menos forte do que o verdadeiro político quando foi entrevistado. Isso transforma as demonstrações de lábia e Inteligência do personagem em momentos surpreendentes, mas a estratégia falta com a verdade. Michael Sheen, por sua vez, dá um belo salto em uma carreira irregular. Seu papel como Frost não é digno de prêmios, mas mostra que há muito o que extrair do ator confinado a papéis secundários em praticamente toda a carreira.
O Nixon de Frank Langella – pouco parecido com o personagem, mas hipnotizante quando está em cena - é visto como um homem sedento por poder, por dinheiro e extremamente preconceituoso – contra negros e homossexuais. Mas é também visto como uma personalidade marcante, capaz de dobrar sem palavras ou dificuldade seu mais ferrenho opositor, a ponto de fazê-lo apertar sua mão em um momento em que lhe faltam palavras. Kevin Bacon compõe um homem mais preocupado com a integridade de Nixon, movido mais pela fascinação que lhe exerce sua personalidade do que pelos atos que ele cometeu. É uma relação, quase, de filho protegendo ao pai. E Hans Zimmer faz uma de suas trilhas mais contidas. Intervém pouco no filme, e quando o faz alcança bons resultados com arranjos simples e crescentes – com exceção da trilha escandalosa em alguns momentos finais do filme.
O filme de Howard faz uso do recurso de inserir em meio à narrativa depoimentos dos envolvidos na história, mas feito pelos atores que interpretam as personagens, fugindo do enfoque realista e dando a esses personagens o estigma de reais. É um recurso interessante para emergir o público na trama como se ela fosse totalmente real, feita por aquelas pessoas, inseridos em um filme de ficção, mas o recurso acaba se tornando a comprovação de como Howard quer de tal forma manipular aquela história para que o público compre a SUA versão e esqueça alguns pormenores das verdadeiras entrevistas. Como o norte-americano gosta de supervalorizar seus ícones como superlativos, a maioria comprou o peixe. Se serve para enfatizar o potencial sempre discriminado de Frank Langella, tanto melhor: “Frost/Nixon” vale, e muito, por ele.
Direção de Clint Eastwood, com Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang


Clint Eastwood é “o” grande diretor contemporâneo do cinema norte-americano. Perdoem-me os fãs – também sou – de Martin Scorsese. Ou de qualquer outro grande nome, como Steve Soderbergh, mas o velho Clint versa sobre tantos temas em seus filmes, com tamanha eficiência, e sem cansar de surpreender pela maturidade artística e discursiva, que não consigo encontrar outro expoente que faça tão bom uso de imagens e diálogos para calar fundo na alma o que muitos cineastas não conseguiriam rasurar em uma carreira inteira.
E o surpreendente é que o velho Clint não precisa de muito. Bastam algumas semanas, poucos takes em gravações sempre rápidas para entregar obras que, pela maneira com que nos batem na cara, permanecem ao nosso redor por um longo tempo. Não em nossas retinas, o velho não é esmerado em fazer filmes visualmente arrebatadores, apesar de sempre saber emendar um plano geral perfeito, de inserir seus elementos no local exato, de entender a hora de trabalhar com as palavras e a hora de trabalhar com as imagens. – ou mesmo com a trilha, quase inexistente aqui em seu último trabalho. O que permanece são as sensações que seus filmes provocam. E “Gran Torino”, sem último rebento, é um desses exemplares. Poderá ser para muitos um filme “menor” de Clint, poderá nunca se comparar à densidade dramática de “Sobre Meninos e Lobos”, a força de “Os Imperdoáveis” ou o discurso maduro e sem vaidades de “Cartas de Iwo Jima”. “Gran Torino” é parente próximo de “Menina de Ouro”, pela maneira como constrói escadas sobre muros altos demais usando, inevitavelmente, o ser humano como matéria-prima.
Dizer que Walt Kowalsky, personagem de Clint no filme, é um racista é simplificar as coisas. Walt é um americano com muitas marcas pelo corpo para esquecer. Seu estilo de vida ficou para trás, o mundo tornou-se um estranho. Seu bairro tornou-se reduto de imigrantes asiáticos, e ele parece ter sido tudo o que restou daquele americano de classe média que ainda mantinha a bandeira pendurada em frente à sua casa. E o pior para Walt é que, vivendo entre asiáticos, ele rosna e maldiz entre palavrões e piadas infames a herança deixada pela Guerra da Coréia e pelo fato de que a própria família tornou-se um elemento estranho a ele – e logo seu filho foi vender carros japoneses depois que Walt passou a vida trabalhando na Ford, fazendo o “legítimo carro americano”.
É uma visão simplista, e Clint logo deixa isso claro. “Gran Torino” poderia ser uma mera história de como um homem pode mudar seus conceitos. Walt se aproxima de seus vizinhos, um dos quais tentou lhe roubar seu Gran Torino 72 de sua garagem, e logo se dá conta de que “há mais semelhanças entre mim e esses gooks do que com minha podre família”. Mas a história contada por Clint não termina em oportunidades de redenção para um homem que afirma conhecer muito da morte, e pouco da vida. A morte, que ele conhece tão bem, começa a se aproximar de Walt ao mesmo tempo que seus novos amigos enfrentam dificuldades com a tensão provocada pelas gangues no bairro, mesmo que pertencentes ao mesmo sangue. E Walt logo se dá conta de que eles nunca terão paz enquanto aqueles marginais rondarem o bairro.
Gran Torino” é mais um de seus atestados de maturidade artística que certamente encontrará detratores no que muitos poderão chamar de pretensão travestida de lentidão. Para mim, é um filme que ganhará pontos a cada revisão, porque vai sendo construído tijolo por tijolo. Arma em punho, discurso ranzinza, lembranças de guerra, os dedos formando uma arma, apontando... é um discurso que fica enraizado na imagem do inconsciente popular que o próprio Clint criou de si próprio ao longo da carreira. E não deveria ser surpreendente que Clint use essa imagem pré-estabelecida e que ela seja alimentada ao longo de todo o filme para deixar claro a forma como Walt irá resolver tudo aquilo. E não deveria ser surpresa, mas é nessa momento que Clint nos surpreende novamente. Um baque no estômago, um momento em que tudo o que vinha sendo cuidadosamente jogado em doses homeopáticas, despretensiosas, ganha sentido pleno, as peças se encaixam, os gestos se justificam, as intenções se revelam de forma bruta. E o cineasta maduro e inteligente surge, mais uma vez, em sua melhor forma.
Direção de Ed Harris, com Vigo Mortensen, Ed Harris, Jeremy Irons, Renné Zelweger


Muito se fala em "reinvenção" ou "releitura" de certos gêneros, principalmente o western, gênero americano por excelência. Ed Harris, notável ator - e crescente diretor de idéias interessantes, se não ainda na narrativa, em suas concepções - não quer reinventar o gênero em seu segundo filme como diretor, "Appaloosa", mas se propõe a afirmar que ele pode fazer mais do que passar adiante velhos preceitos. O velho oeste não foi feito, afinal, apenas de tiroteios intrépidos. O mais bravo dos atos podia ser, muitas vezes, o menos compreensível. Seu filme cavalga por caminhos poeirentos que sempre parecem conduzir a um destino, mas mudam bruscamente, como se buscasse seu rumo. No entanto, sempre sabe onde quer chegar. Talvez demore um pouco para se revelar, mas quando o faz é que se percebe o quão é notavelmente bem conduzido em suas intenções. "Appaloosa", adaptação de famosa novela de Robert B. Parker, é a estória da amizade entre dois homens que poderiam ter apenas uma coisa em comum, mas aproximam-se por compartilharem sentimentos que só são afeitos dos heróis formados pela mitologia - inspirados nos homens de verdade e nas histórias que passam de geração a geração, e por isso também tão reais.
Esse conto de amizade se consolida aos poucos, e quando finalmente torna-se límpido, fecha um círculo que parecia conduzir a um caminho desnorteado. Então, todo o resto é segundo plano, mera base para contar a história de Virgil ( Ed Harris ) e Everett ( Vigo Mortensen ), dois homens que constróem sua estrada de cidade em cidade, como pacificadores, vendendo suas armas a serviço da lei, até chegarem em Appaloosa, pequena cidade controlada pelo vil Braggs ( Jeremy Irons ), e se envolverem com Ellie ( Renné Zelwegger ), mulher tão atraente quanto danosa aos olhos de Virgil - mas ainda assim, o melhor que ele já encontrou até hoje.
As cores desbotadas do filme de Harris mostram que não importa ao diretor criar clima para grandes duelos, tampouco injetar emoção em uma caçada ao bandido ou pelo tão famoso acerto de contas. "Appaloosa" transforma esses elementos, tão caros ao western, em meros acessórios para injetar curvas na estrada que conta a amizade dos dois homens da lei. E Virgil, pouco a pouco, revela-se o pesonagem secundário dessa jornada. Se toda a ação o circunda, não é ele quem a conduz, no fim das contas. Nem é ele que transforma em aprendizado os acontecimentos. "Não creio que ela busque todos os homens. Acho que ela quer sempre o manda-chuva mor." prega Everett, anunciando a definição que acaba sendo a bússola que norteará os atos de sacrifício em prol da amizade.
Todo o acerto de contas é desviado para rumos tornos - por ironia, por influência de uma pessoa de moral torta. Mas é tudo feito com correção, com motivações prontas a explodirem, e sempre contidas. Elas só surgem no momento exato. ("Ela me ama, impostor.") Não sei até onde vai a contribuição da novela original, e onde começam os méritos do roteiro que Ed Harris co-assina, mas a simples escolha do texto e seu trabalho nele comprova a visão sobre Harris ser aquele cineasta de idéias interessantes - e o antagonista da história, Jeremy Irons, acaba sendo o elo fraco que liga todos os elementos dessa história, mostrando que "Appaloosa" não é um conto de "quem contra quem", mas sim de "quem por quem", o que é bem mais difícil de se construir.
(Death Race, 2008)
Direção de Paul W. S. Anderson, com Jason Statham, Joan Allen, Ian McShane

Paul W.S. Anderson já dirigiu coisas estúpidas e algumas regulares, mas ao refilmar o cultuado "Corrida da Morte 2000", um filme de ação B bancado por Roger Corman nos anos 70, ele conseguiu se superar. Com a benção do mesmo Cormam, e mais dinheiro para se gastar em explosões, Anderson recebeu o diploma de mediocridade extrema, e arrastou gente de calibre com ele pro fundo do poço. O cara é muito ruim MESMO.
Um resumo basicão da estória, porque ela é só uma desculpa esfarrapada para tudo: um ex-piloto de corrida é acusado injustamente da morte da esposa e enviado a uma prisão, alguns anos no futuro, onde o grande "boom" da audiência televisiva é uma sangrenta corrida entre presidiários (?!) onde vale tudo. A morte da esposa de Jensen, nosso herói (!!) é uma farsa para levá-lo à prisão, para que a tirânica diretora Henessey ( Joan Allen, acreditem se quiserem ) possa colocá-lo atrás da ma´scara de Frankenstein, o mais idolatrado dos pilotos do jogo (!!!), cuja morte foi mantida em segredo.
OK, desculpa dada, vamos ao que interessa. Para buscar coisas boas nessa m... fugindo dos elogios às cenas de perseguição e explosões - o que, aliás, não é mais preciso ser um expert na indústria para fazer bem - resta dizer que Jason Statham merece, um dia, receber as bençãos de um bom diretor e uma produção mais esmerada. O cara é legal. Foi um bom vilão em "Cellular", segurou as pontas na franquia blockbuster "Carga Explosiva" e já provou que mantém sem problemas a atenção do público em um filme de ação. Falta a ele dar as caras com um bom diretor, o que Anderson certamente não é. Nunca foi. Não acredito que um dia seja. O cara é um medíocre copiador de estilos batidos que começa a acrescentar uma certa manha de Michael Bay em cenas idiotas ( como a câmera lenta e os cabelos esvoaçantes das garotas que co-pilotam os carros, todas gostosíssimas e presidiárias também ). E Anderson aprendeu que nesse tipo de filme, importa balançar muito a câmera, fazer cortes rápidos, onde uma sequência é vista de 4 ângulos em menos de 3 segundos. Isso é ilusão de movimento. Isso costuma iludir grande parte do público, mas não se sustenta com tantas idiotices e furos no roteiro.
O próprio filme original foi um dos motivadores do polêmico "Carmageddon", jogo que foi até banido no Brasil. A refilmagem admite não apenas a influência da estética de games modernos como deixa claro a motivação para lucrar mais com um jogo baseado nele: existem "atalhos" na pista de corrida, e os carros ativam armas e escudos passando sobre sinais espalhados na pista ( mais "Gamer" impossível ). A violência explícita se torna tão nauseante ( pelo menos na versão sem censura ) que o público fica anestesiado. Talvez seja essa a receita para querer que se compra a idéia de que um extintor de incêndio no rosto de um homem ou uma caixa de aço na nuca não façam mais do que tontear alguém...Dor é besteira, e a lógica que vá para o espaço.
Statham merece coisa melhor. Anderson até acertou a mão com os fãs em filmes como Resident Evil e Mortal Combat, e conseguiu estragar franquias consagradas ao meter a mão em "Alien Vs Predador". Mas ele conseguiu um feito inédito: conseguiu colocar na boca de uma consagrada atriz como Joan Allen uma frase como "OK, chupador de piça, fode comigo e veremos quem deixa a merda no caminho.".
Isso, sim, foi um feito digno de uma medalha.
Se quer ver um filme sobre o mesmo tema, feito com um décimo do orçamento, há 10 anos atrás, que também não é nenhuma maravilha mas tem mais alma do que essa b..., assista "O Sobrevivente" com Arnold Schwarzenegger, de 1987.
(Nights in Rodanthe, 2008)
Direção de George C. Wolfe, com Diane Lane, Richard Gere, Christopher Meloni 

Se existe uma verdade incontestável em “Noites de Tormenta” é esta: no pobre e atrasado Equador pode faltar luz, água potável, rede de esgotos e remédios em hospitais no meio da selva, mas o correio.... ah, o correio funciona que é uma beleza. Todos os anos você encontrará um filme como “Nights in Rodanthe”. Ele é cuidadosamente arquitetado, montado cirurgicamente – por mãos não necessariamente habilidosas – para ser apreciado e digerido por um tipo de público: aquele que não dá a mínima para a lógica, para clichês descarados ou para o imediatismo das reações e relações. Interessa a ele o resultado final, interessa ver logo aquilo que todos sabem que acontecerão, e interessa a ele, inevitavelmente, esperar por aquele elemento imprescindível desse tipo de filme: o trágico, mecanismo final para que lágrimas comecem a rolar. Menos mal que “Noites de Tormenta”, mesmo abusando desses artifícios, o faça com um casal de protagonistas que conseguem a honra de tornar assistível uma história que sob outros rostos poderia ser sessão de sábado em TV aberta.
É a terceira dobradinha entre Diane Lane – uma das melhores e mais sub-aproveitadas atrizes de sua geração pós 40 anos – e Richard Gere, que parece finalmente estar se tornando humano para as mulheres ( “Nossa, agora ele está parecendo velho” foi o comentário que voou ao meu lado no cinema logo na primeira aparição do eterno gigolô americano). A dupla já dividiu a tela em Cotton Club ( quando Lane ainda era apenas uma carinha bonita sem expressão ) e em “Infidelidade” ( quando Lane já não era apenas uma carinha bonita sem expressão, a tal ponto de ter sido indicada ao Oscar ). Os dois são o reflexo no espelho da geração que ainda busca alguma história de amor mal resolvida no passado. Daquela geração que procura provas de que ainda pode viver uma história avassaladora na meia idade. A relação entre a mãe de família divorciada, às voltas com o marido que quer voltar para casa, e do médico em crise familiar com o filho, é exatamente esse tipo de reflexo. Os clichês são muitos. Os dois são hospedeira temporária e hóspede único de um hotel à beira do mar, prestes a ser alvo de um furacão na costa dos Estados Unidos. O furacão seria uma metáfora para as transformações e dificuldades que os dois precisam encarar em suas vidas. Bobagem, tanto quanto os cavalos que nunca surgem naquele lado da praia – o momento mais constrangedoramente artificial do filme.
Se há algo que valha a pena em “Noites de Tormenta” é ver Diane Lane em ação. Ela é como vinho: fica melhor à medida que passam os anos – e provou isso também em “Sob o Sol da Toscana”. Aos que buscam serem manipulados, o barco está atracado: é só entrar e se deixar levar pelo mar. Sempre há aqueles que gostam disso, e não sou eu que vou criticar – até porque o produto aqui vende o que promete.
( Mamma Mia, EUA, 2008)
Direção de Phyllida Lloyd, com Meryl Streep, Pierce Brosnan, Julie Walters, Christine Baranski, Colin Firth, Stellan Skarsgard, Amanda Seyfried

Muito pouco se vê de realmente autoral nessa transposição do musical de sucesso da Broadway, que no cinema já rendeu mais de U$ 450 milhões em todo o mundo, porque o que se vê na tela é, no fundo, uma brincadeira, uma mega homenagem, um agradável período de férias para os envolvidos. Lloyd, a diretora, nem precisou ter experiência com cinema, porque "Mamma Mia" não é bem... cinema. É um grande videoclipe com cantores de chuveiro se divertindo.
E "Mamma Mia" é um filme de um só público. Foi feito para esse público, é por ele que deve ser assistido. Por que então foi um sucesso tão grande? Talvez porque existam mais pessoas que gostam de ABBA espalhados pelo mundo do que a vã filosofia possa imaginar. Talvez porque, se "Mamma Mia" disfarça uma histérica homenagem ao ABBA em forma de filme - uma jukebox de luxo embalada em milhões de dólares - pelo menos o faz com um elenco que deixa claro, em cada frame, que está se divertindo pra caramba com tudo aquilo, assumem a farsa, descambam para a auto-gozação, deitam e rolam.
Claro que, se a simples menção de ABBA lhe traz arrepios, toda essa empatia e mesmo uma das mais soltas e agradáveis aparições de Meryl Streep nas telas não valerão de nada. "Mamma Mia" é um filme de um só público: aquele que gosta de musicais, e mais ainda, de ABBA. Para esses, vale cada centavo do ingresso também para ver o sexteto que toma conta da tela.
Julie Walters ( a professora de dança de Billy Elliot ) e Christine Baranski estão hilárias como as amigas da personagem de Meryl Streep, Donna, mãe solteira que se prepara para o casamento da filha Sophie. A filha, sem que ela saiba, convidou os três homens do passado da mãe que podem ser seu pai. E tudo se resume a isso: o choque do reencontro de Dona com o passado e a confusão da situação - Donna não sabe o que a filha sabe e nenhum dos três sabe que pode sar pai de Sophie. É o tipo de confusão que, na vida real, se resolveria em alguns minutos, mas como em uma boa novela, ninguém diz o que deve ser dito, ou esclarece nada.
Esqueça: é um musical, e a lógica vai para o espaço em várias seqüências. E quando menos se espera, algum personagem já está cantando alguma música do ABBA - algumas casam perfeitamente com a estória, outras são forçadas, mas o público não está nem aí. Lloyd fez questão que os próprios cantores encarassem o desafio: as mulheres, nesse quesito, fazem e acontecem, e "aquela" parcela do público para quem o filme foi feito vai gostar de ouvir "Dancing Queen", "The Winnter Takes it All", "Take a Chance on Me", "SuperTrouper", "I Have a Dream" e outras músicas da boca do elenco.
O melhor, mesmo, é entrar no clima de sarro total. Com exceção da última intervenção, Pierce Brosnan até que não se sai tão mal cantando (Skaarsgard não abre a boca e Firth o faz discretamente), mas do trio de atores, Colin Firth é quem mais lucra com a brincadeira, e quem mais se solta.
E Meryl... bom, Meryl é outro nível. Ele tanto pode ser uma megera do mundo da moda, a mãe dominadora de um senador candidato à presidência ou uma solteirona presa à adolescência cantando em uma ilha grega. Ela é sempre maravilhosa. "Mamma Mia" pertence tanto à Meryl que, nas poucas cenas em que ela não aparece, o filme provoca bocejos. É ela, conduzindo uma brincadeira que fica escrachada nos créditos finais - aguarde o segundo número dos créditos quando o trio masculino entra em cena de forma hilária - que faz valer cada minuto de "Mamma Mia", um filme que pode não ser, exatamente, um filme. Que pode ser uma espécie de grande videoclipe relembrando a discografia do ABBA, mas cujo clima lembra uma daquelas brincadeiras de fim de festa de faculdade onde o que vale é mesmo se divertir e zoar.
( Freedom Writers, EUA, 2007)
Direção de Richard LaGravenese, com Hillary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton
Você já viu essa história antes. Desde que Sidney Poitier estrelou “Ao Mestre, com Carinho”, clássico da Columbia de 1966, o tema professor idealista versus alunos problemáticos gerou um dos mais batidos temas do cinema: alguns com qualidade, outros completamente descartáveis. “Escritores da Liberdade” se insere em um meio termo em toda essa história. Parte de uma história real que foi, percebe-se, romantizada e preparada para emocionar, mas tem o mérito de tentar explicar as origens do problema confrontado pela professora iniciante interpretada por Hillary Swank, e não simplesmente jogar o problema a esmo se concentrando na luta do sempre persistente mestre em questão.
“Escritores da Liberdade” é, na verdade, o nome dado por estudantes de uma escola de ensino médio ao livro originado da experiência de anos promovida pela jovem professora Erin ( Swank ). A professora é o típico retrato do idealismo e da ingenuidade. Envolve-se em uma escola que promoveu a “integração” de classes e raças, e herdou uma turma de alunos problemáticos, repleta de conflitos envolvendo guerra de gangues, diferenças raciais e queixas sociais, apresentados como problemas graves de Miami. Erin logo descobre que não poderá ensinar língua inglesa e literatura da forma como idealizava. Troca o programa básico por um “alternativo”, visando primeiro entender o mundo dos seus alunos e socializá-los. Ganha pontos por essa medida: desde o início, o filme de Richard LaGravenese se preocupa em ambientar essa história real no ambiente onde ela se desenvolve, consciente de que só assim o roteiro pode ser perfeitamente compreendido. Não à toa, quem inicia o filme não é Erin, mas uma de suas alunas, relembrando como passou da ingenuidade à raiva em alguns anos de infância perdida.
O mais grave dos problemas é a necessidade absurda de encontrar um vilão para essa história, e ele não é a desordem social e a desigualdade – ou mesmo a violência. Ele concentra-se de forma caricata na diretora da escola de Erin, feita pela sempre competente Staunton, que nutre por ela um ódio inexplicável, e um conservadorismo irritante. É forçado demais. Por outro lado, guarda bons momentos ( o jogo da verdade, onde Erin coloca seus alunos sobre uma linha expondo os problemas com a violência que eles enfrentam e a seqüência ambientada no Museu do Holocausto são absorventes ). O melhor deles, no entanto, é a reação da aluna que abre o filme ao terminar de ler “O Diário de Anne Frank”, despejando sua raiva sobre Erin por não poder exorcisar seus medos nem nos livros : “Por que me fez perder tempo lendo se sabia que ela morreria?” E apesar de aproveitar muito pouco os talentos de Dempsey ( que melhorou muito como ator depois de Grey's Anatomy ) e Glenn, não se perde ao expor os problemas do núcleo familiar de Erin.
Repleto de clichês, manipulador e exagerado em vários sentidos sim, mas mais sincero do que muitos outros exemplos da mesma safra.
( Wanted, EUA, 2008 )
Direção de Timur Bekmambetov, com James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp, Thomas Kretschmann
Logo nas primeiras cenas de “O Procurado”, o Wesley Gibson de James McAvoy pergunta a si mesmo o que o pai que ele nunca conheceu pensaria se soubesse que seu filho se tornou o ser mais insignificante da face da terra. É a deixa para mostrar que o “herói” do filme de Timur Bekmambetov é um ser que passará por um aprendizado radical. Nem seria preciso saber mais da estória, baseada nas HQs de Mark Millar e J.G. Jones. O que não entendo é porque os mesmos Millar e Jones não participaram ativamente da roteirização do filme. Poderiam ajudar a compor melhor toda essa transformação, por conhecerem sua cria, e definir qual é afinal o objetivo do filme: mergulhar fundo no terreno do irreal, ou manter os pés na realidade e criar um misto ( a segunda opção é sempre mais perigosa ).
“O Procurado”, encarado por alguns como um “Matrix com mais humor” não tenta, em nenhum momento, jogar uma luz no seu espectador. Mostra uma irmandade de assassinos de séculos de existência dotados de poderes especiais, mas nunca tenta mostrar a origem de tudo isso, ou como eles têm essa habilidade. Nosso “herói” apenas pode fazer o que faz porque tem isso no sangue, seu pai era um membro da irmandade que foi assassinado por um desertor, que agora caça o filho. A ordem da vez é iniciar o aprendizado de Wesley e torná-lo a réplica dos talentos do seu pai, o único que poderia derrotar o desertor.
Sempre achei que o espectador do cinema deveria merecer o mínimo de respeito, e a resposta a uma pergunta simples: qual o sentido dessa estória existir, além de propiciar tiros , efeitos mirabolantes e seqüências que ninguém em sã consciência aceitaria? Matrix tinha um sentido de existir mais amplo, que justificava toda aquela realidade. “O Procurado” deixa um pé no fantástico e ancora-se na realidade, e assim sente essa ausência de uma definição de sentido– ou não fez força para jogar o público nessa luz explicativa, o que não posso afirmar porque não conheço as HQs. Julgo apenas o filme. E o filme, por mais que tenha bons momentos de humor e ação, fica na lembrança mais pelas cenas inverossímeis – e pela falta de quadril (literalmente) de Angelina Jolie – do que por qualquer apelo maior que buscasse. O que, convenhamos, não é o que se poderia esperar de um filme de respeito.
( The Dark Knight, EUA, 2008 )
Direção de Cristopher Nolan, com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Morgan Freeman, Maggie Gyllenhaall
- O que fizeram em Burma para prender o ladrão escondido na floresta?
- Nós queimamos a floresta. 
O bem e o mal são metades que se completam. Uma não vive sem a outra e, mais do que isso, uma é responsável pelo surgimento da outra. O mal faz com que homens usem máscaras para provocar o medo nos criminosos. O homem da máscara faz com que surjam psicóticos deformados para viver em função dele. O confronto dos dois põe em dúvida se o mal não é inerente a todos, precisando apenas ser provocado para despertar. É em torno dessa idéia instigante que se desenvolve a trama de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", possivelmente o melhor, mais adulto e mais inteligente filme de heróis que o cinema já apresentou.
É talvez o filme com mais locações diárias de todas as adaptações de Batman, e que usa, desta vez, uma cidade real, e não uma criação em estúdio para simbolizar Gotham City. Um dos méritos da continuação de Batman Begins, filme que reiniciou e remodelou a saga do homem-morcego no cinema, é a consistência do roteiro do diretor Cristopher Nolan, seu irmão Jonathan Nolan e de David S. Goyer. O trio coloca Batman em uma cidade que aprendeu a amá-lo e a odiá-lo, mas que é dependente dele. Bruce Wayne/Batman vê no promotor Harvey Dent um possível "herói com rosto" para a cidade que o faça largar a máscara e o uniforme, mas o surgimento de um personagem doentio e inexplicado, o Coringa, pode colocar uma pá de cal nos sonhos do herói e, de quebra, plantar várias dúvidas na sua cabeça.
"Você morre como herói, ou então vive o tempo suficiente para se tornar o vilão"
O trio de roteiristas segue a diretriz do filme anterior de inserir realidade em uma estória que soaria absurda na vida real, mas torna-se perfeitamente palpável. E talvez o maior mérito seja o de respeitar a todos seus personagens, e dar essa consistência a todos: Alfred ( Michael Caine ), Gordon ( Gary Oldman, fantástico ator ) , Lucius ( Morgan Freeman ) e até Rachel ( agora com Maggiue Gyllenhaal no lugar da insossa Katie Holmes ) são mais do que meros coadjuvantes de luxo. São peças importantes contando uma estória onde o herói é o coadjuvante, mas no bom sentido: o centro da discussão não são as ações de Batman limpando a cidade do crime, mas de até quando será necessário que Bruce Wayne coloque a máscara quando, muitas vezes, ele é um reflexo melhorado dos vilões que persegue.
É nesse ponto que se justifica a importância de escolher grandes atores para personificar os peões dessa trajetória, o psicótico Coringa ( Heath Ledger ) e o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart ), duas faces de uma mesma moeda que ganham vida em duas brilhantes atuações, principalmente a de Ledger: o ator, falecido pouco depois das filmagens, estaria colhendo merecidamente os louros de sua personificação do Coringa, que é brilhante. Ele dá vida à idéia central de que o mal não vive sem o bem, e um provoca o outro. A partir do momento em que um homem coloca uma máscara para limpar a cidade, de qualquer maneira, ele acaba iniciando uma cadeia de acontecimentos. É o que explica o próprio Coringa ao Batman. "Você mudou as coisas, nada vai voltar a ser como era." sentencia o vilão. O Coringa de Heath Ledger assemelha-se ao personagem dos quadrinhos da novela "Asilo Arkham": é fruto ( e causador ) do caos, sem razões óbvias, que façam sentido. É um pária, um reflexo sombrio do que ele julga ser a natureza de todo ser humano, mesmo dos heróis. Seu único objetivo é mostrar que um pouco de caos é tudo que é necessário para fazer aflorar o lado mais deprimente da natureza humana. "Sou um mero veículo do caos" explica ele a um deformado Harvey Dent, deixando claro querer que Batman prove que, no fundo, eles são iguais.
"Eu não quero matar você. Você é divertido. Acho que eu e você estamos destinados a fazer isso para sempre."
A Câmera que acompanha o Coringa, em várias ocasiões, é trêmula, nervosa, um reflexo do estado de espírito do vilão. O filme, à medida que passa o tempo, também tende a se tornar mais escuro, sombrio, como o interior dos personagens. Nesse tratamento, a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer alterna constantes batidas com momentos em que torna-se quase psicótica em seus ruídos. São elementos separados que, juntos, formam o todo admirável da visão de Cristopher Nolan. Batman não é um filme de heróis: é quase um drama policial onde seus personagens, não claramente definidos em sua natureza, usam uniformes e maquiagens. Onde o público não sabe ao certo até onde termina o lado bom e começa a natureza maléfica. Onde todos têm, de certa forma, pecados a confessar ( a discussão ética entre Lucius e Batman sobre o monitoramente dos cidadãos de Gotham mostra que mesmo o herói tem dilemas éticos mal resolvidos ).
"O que não te mata, te torna mais... estranho"
O que torna "O Cavaleiro das Trevas" um filme mais amplo é a maturidade no tratamento dos personagens como seres humanos e não meros rabiscos de lápis no papel - e a meia hora final amplia esse escopo. Não são poucas as frases que logo vão se tornar figurinha fácil na mitologia de Batman no cinema - a maioria delas na boca do Coringa e de Dent. De certa forma, Nolan comprova que a grande força do universo do herói está justamente nos reflexos sombrios dele, os vilões que surgem derivados da sua existência. Sem eles, Batman seria apenas um playboy brincando de artes marciais e atraindo seguidores ( pequena lembrança da graphic novell de Frank Miller, no começo do filme ). É o que prova a cadeia de eventos no final que põe uma pá de cal sobre as mazelas, disfarçando mas não resolvendo os problema.
O grande apelo do arauto do bem (!?) está no reflexo negro que ele enxerga no espelho.
( The Lost Boys - The Tribe )
Direção de P. J. Pesce, com Tad Hilgenbrink, Autumn Reeser, Angus Sutherland, Corey Feldman, Jamison New Lander, Tom Savini, Moneca Delain, Gabrielle Rose, Corey Haim.

Eddie Frogg parece ter ficado mais estúpido com o passar dos anos. Quer dizer, o amalucado caçador de vampiros de "Os Garotos Perdidos"era meio doidão, personagem feito sob medida para Corey Feldman - o estereótipo que marcou o ator em "Gremlins", "Os Goonies", "Conta Comigo"e "Os Garotos Perdidos". Mas pelo menos, no filme que marcou época dirigido por Joel Schumacher, ele, mesmo sendo um garoto, tinha o bom senso de caçar vampiros em seu covil durante o dia. 21 anos com a mesma obsessão por mortos vivos parecem ter feito mal a Frogg. Já eu acho que o maior problema tenha sido bem humano, real, próximo: roteirista(s), produtor(es), gente anencéfala encarregada de dar vida a um dos mais gratuitos caça-níqueis dos últimos anos. A prova da gratuidade é que "Os Garotos Perdidos 2 - A Tribo"nem passou pelos cinemas: saiu direto em vídeo nos Estados Unidos. Poupou-se de um vexame.
O primeiro filme, de 1987, é um pequeno cult dos anos 80. Tinha no seu elenco Feldman, Corey Haim, Jason Patrick, Kiefer Sutherland, Diane Wiest. Seu maior mérito estava no ritmo constante do roteiro de Jeffrey Boam, que mesmo lidando com o insólito do vampirismo respeitava o espectador assumindo-se como uma fábula. Aliás, o filme náo centrava sua estória no vampirismo, no terror que sempre acompanha a menção do termo. Longe disso: basta lembrar a frase que vendia o filme: ""Dormir de dia. Festa a noite inteira. Nunca crescer. Nunca morrer. É um barato ser vampiro." Mesclando rebeldia, bons jovens atores, rock, ritmo, efeitos visuais e personagens que lembravam a todo instante do caricatural da estória toda - justamente os -, irmãos Frogg _ "Os Garotos Perdidos"era um barato, e não se levava a sério.
Eis que chegamos a uma continuação descartável 21 anos depois que, essa sim, se leva a sério. Tenta fazer uso de elementos comuns - a gangue de jovens "rebeldes", irmãos protagonizando uma luta contra o tempo para abandonarem a maldição, e Eddie Frogg ajudando-os. A diferença é que, agora, falta o frescor juvenil inconseqüente de 1987. Schumacher - que cometeu, sim, bons filmes ao longo dos últimos 20 anos, alternado com várias bombas - não precisou criar um banho de sangue,porque tinha a atenção da platéia sem apelação. PJ Pesce ( Um Drink no Inferno 3 ) só sabe apelar. Não tem criatividade, e quando tenta beber na fonte do original, mostra que não entendeu m... nenhuma do filme de Schumacher. Como falta a ele talento e referências, enche a tela de sangue e truques baratos. Confunde sexo com sensualidade, e na falta do carisma de um Kiefer Sutherland, se contenta com o meio-irmão sem talento, Angus Sutherland. Na falta de Jeffrey Boam, se refugia nas idéias de um certo Hans Rodionoff. Deu no que deu: falta de sentido em algumas cenas, total ausência de percepção no espírito do primeiro filme - recriar elementos da estória em uma cidade litorânea não é o bastante, Mr. Pesce e Rodionoff - e um retorno constrangedor de Feldman - ele não é bom ator, mas esbanja carisma em um papel extremamente sub-aproveitado. O decepcionante clímax final só reforça a sensação de que alguém queria ver o filme pronto logo para lucrar algo nas prateleiras de locadoras – quanto à estória, não me cobrem por isso: é o menos importante,apenas uma desculpa para uma tentativa esfarrapada de lucrar com uma marca de sucesso e nostálgica para muita gente. O lado positivo é que em tempos modernos há a opção de recorrer ao bom e velho DVD para lembrar do lado bom dessa estória, criado há 21 anos atrás.
PS: É deprimente ver Corey Haim aparecendo para pagar as contas durante os créditos finais, mas, por incrível que pareça, é a única cena que poderia fazer algum sentido em toda a pequena estória de “Os Garotos Perdidos”ao longo de todo esse tempo, e que, não me perguntem porque, não foi aproveitada – sem mencionar a sequência inicial, totalmente gratuita e sem sentido ( mas alguém pensou ter feito algo genial e inteligente, na ponta de Tom Savini )
( Lord of the Rings - The Return of the King, EUA, 2003 )
Direção de Peter Jackson, com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Billy Boyd, Liv Tyler, John Rhys-Davies, Dominic Monaghan, Christopher Lee, Orlando Bloom, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Douriff, Andy Serkis


Enquanto Frodo e Sam adentram em Mordor rumo à Montanha da Perdição, Sauron prepara um ataque derradeiro à Gondor, o grande reino dos Homens. Aragorn, Legolas e Gimli partem para a Senda dos Mortos, buscando o auxílio de um exército que somente o rei de Gondor pode invocar, enquanto Gandalf organiza a defesa de Minas Tirith, esperando pelo socorro de Rohan.
Falar de “O Retorno do Rei”, conclusão da saga do Anel que marcou para sempre um ponto divisor no cinema fantástico é, de certa forma, mencionar superlativos. E, claro, sempre há aqueles que passam a desgostar de um filme exatamente por esses superlativos. Eles indicam, entretanto, que o filme foi êxito, e o público não é tão idiota. Há aqueles sucessos de bilheteria provocados pelo momento, mas que caem no esquecimento tempos depois ( Armageddon foi um sucesso de bilheteria estrondoso, e quem lembra do filme com carinho hoje? ). “O Retorno do Rei” foi um dos únicos três filmes a ultrapassar a barreira do bilhão de dólares em bilheteria, e perde apenas para “Titanic” entre as maiores bilheterias da história. É o maior vencedor da história do Oscar, com 11 estatuetas, ao lado do mesmo Titanic e de Ben Hur. E aos que desdenham de números ligados a bilheteria ou ao comercial Oscar, agüentem: é um triunfo do cinema espetáculo que apresenta o momento máximo da adaptação da mais cultuada obra literária da história. Um dos grandes momentos do cinema como espetáculo em 100 anos.
Jackson, percebe-se, consegue lidar melhor com as várias linhas narrativas, e ao longo da trilogia, elas foram ampliando-se. Aqui, ele consegue unir esses núcleos de forma extremamente satisfatória, sem quedas abruptas em momentos decisivos ou perdas de ritmo que pudessem incomodar o público, como aconteceu em “As Duas Torres”. As mudanças feitas pelo diretor não influenciaram na percepção da estória – apenas senti falta do destino de Saruman, o principal vilão visualizado pelo público nos filmes anteriores, erro que a versão Estendida corrigiu, apesar de que com mudanças. A ausência da seqüência do Expurgo do Condado, por mais que tenha irritado fãs, foi crucial: o final do filme já é longo, com praticamente 3 clímax diferentes, e a seqüência apenas alongaria ainda mais o final dessa estória.

É em “O Retorno do Rei” que todo o cuidado de Jackson com seus personagens, mesmo o secundários, transparece de forma absurda. A preparação citada anteriormente na crítica de “As Duas Torres” é o que possibilita a overdose de emoções que não se restringe aos personagens principais: a estória de Théoden e Eowyn emociona e envolve tanto quanto o drama de Frodo e Sam em Mordor ou a atitude de Aragorn de enfim lutar contra seus demônios e aceitar seu destino como Rei de Gondor. É em “O Retorno do Rei” que as mais de 6 horas anteriores se justificam – e não à toa, Jackson brincou dizendo que “fizemos os dois primeiros filmes para podermos, enfim, filmar “O Retorno do Rei”. È tarefa para poucos: os três filmes apresentaram mais de 100 personagens com falas e cerca de 20 retratados com substância e calma, algo difícil de se encontrar em um mero filme comercial. A agilidade com que o diretor conseguiu editar diversas estórias e fatos acontecendo simultaneamente é de se usar em qualquer aula de edição em cursos de cinema, como exemplo de como manter o fio da meada sem quebrar o ritmo ou descuidar do que, outrora, foi tão importante.
Em “O Retorno do Rei” o diretor abraça, finalmente, toda a mitologia que vinha preparando, fazendo uso inclusive de canções – algo que Tolkien usa e abusa ao longo de toda a narrativa. A seqüência em que Faramir e seus cavaleiros rumam para a morte enquanto Denethor se esbalda em um banquete é um notável exemplo: Pippin canta para o rei uma melodia triste e chora, não apenas por Faramir, mas pela fraqueza que ele enxerga no rei às sua frente, enquanto o monarca se suja com um suco vermelho que simboliza o sangue do próprio filho, sendo derramado em Osgilitah.

A Batalha nos Campos de Pellenor, que toma as telas e a atenção das platéias por longos 40 minutos, é o exemplo máximo a ser copiado e a servir de inspiração no que diz respeito a batalhas em uma tela de cinema. Ela reflete em 40 minutos tudo o que foi planejado, vivido e buscado pelos personagens. É a tour de force da jornada de todas as raças criadas por Tolkien e Jackson faz jus a todo esse significado: ela é insana, violenta, monumental em todas as proporções. Espelha o próprio épico que ele criou, e ainda consegue reunir nessa dezena de minutos momentos notáveis: a chegada dos cavaleiros de Rohan, a carga dos cavaleiros contra o exército de Orcs, o ataque dos Nazgul à Minas Tirith, o avanço dos Olifantes, a célebre luta entre Eowyn e o Nazgul, cantada em verso e prosa por amantes da saga ( e que ganha uma versão fílmica magnífica ), a invasão da grande cidade, e um momento que nunca deveria ter sido removido das versão para os cinemas: o encontro entre Gandalf e o rei Bruxo de Angmar, líder dos Nazgul. É um momento precioso, onde Gandalf é derrotado pelo Nazgul e salvo da morte pela chegada de Rohan a Pelennor- e justifica uma frase que ficou na versão original, onde ele diz ao líder dos Orcs que “cuidará do mago branco”, algo que nunca acontece na versão dos cinemas. Já a seqüência com o "Boca de Sauron" em frente ao Portão Negro, se não é essencial, aprofunda e explica o sentimento de entrega e sacrifício feito por Aragorn e o restante da comitiva quando se dispõem a enfrentar Sauron.

A trilha sonora, mantendo a característica das anteriores, continua criando temas únicos para cada filme sem esquecer dos anteriores. Assim, na primeira parte de O Retorno do Rei, temas conhecidos de As Duas Torres continuam ecoando nos ouvidos, principalmente o tema dos cavaleiros de Rohan ( que aparecerá de forma derradeira momentos antes da batalha nos campos de Pelennor).
Exemplo máximo do cinema como reprodutor de sonhos e mundos impossíveis de existirem, “O Retorno do Rei” é um produto atípico: foi concebido como uma homenagem a uma obra tida como impossível de ser adaptada. Hoje, não é difícil imaginar o filme como um exemplar do cinema fantástico difícil de, um dia, ser batido, porque não se resume à excelência técnica: foi feito a partir de uma estória que, também ela, dificilmente será igualada. As imitações e tentativas que vieram depois exemplificam isso. “O Senhor dos Anéis” é mais do que uma página na história do cinema: ganhou um capítulo só seu, não importa o quanto seus detratores protestem. “Algumas feridas nunca saram”. Para velhos e novos fãs, a saga dos povos da terra média e dos homens do leste contra Sauron é programa para, no mínimo, uma nova visita anual. Longa vida aos DVDs, que propiciam essa passagem de volta no momento em que bem entendermos.
Vídeos
Gandalf enfrenta o Rei-Bruxo de Angmar em Minas Tirith
A Carga dos Rohirrim nos Campos de Pelennor
Eowyn encara o Rei Bruxo
Pippin canta para Denethor enquanto Faramir ruma para a morte
Sam carrega Frodo na Montanha da Perdição
Os Portos Cinzentos
( Lord of the Rings - The Two Towers, EUA, 2002 )
Direção de Peter Jackson, com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Billy Boyd, Liv Tyler, John Rhys-Davies, Dominic Monaghan, Christopher Lee, Orlando Bloom, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Douriff, Andy Serkis

A Sociedade está desfeita. Enquanto Frodo e Sam rumam para Mordor, encontram Gollum e o tornam seu guia, Aragorn, Legolas e Gimli partem no encalço de Merry e Pippin, seqüestrados pelos Orcs de Saruman. Os três entram em contato com o rei Théoden de Rohan, que está prestes a ser atacado por um exército de 10 mil Orcs e decide esperar pelo inimigo na fortaleza do Abismo de Helm.
PS: As críticas dos filmes são longos mesmo, porque me propus a dissecar vários elementos da adaptação. Leia se quiser ou passe longe...
As Duas Torres é o capítulo do meio de uma longa estória, elemento intermediário, e só isso já ampliaria as dificuldades de sua transposição para as telas. Usualmente, este segundo ato tende a ser, sempre, mais sombrio e pessimista, o que não significa necessariamente que possa perder em qualidade em relação aos demais – vide, por exemplo, o magnífico “O Império Contra-Ataca”, ponto máximo dos seis filmes da série Star Wars. Mas As Duas Torres é, também, um divisor de águas dentro da narrativa da saga do anel, porque em determinado momento, ele proclama uma mudança de rumo e de sentidos na saga.
É a partir de determinado momento, no primeiro terço de As Duas Torres, que “O Senhor dos Anéis” muda drasticamente, porque caracteriza-se pela inserção de um elemento importantíssimo: a entrada dos mundos dos homens na maior saga da Terra Média. Se em todo o primeiro filme – descontando-se a maravilhosa apresentação do condado e o contato com os elfos em Lothlórien – a narrativa é centrada na jornada dos nove integrantes da sociedade do anel, e a preocupação maior é introduzir a cumplicidade dos personagens para com o público, em As Duas Torres toda a linha narrativa torna-se segmentada. Existem 4 acontecimentos paralelos dividindo a atenção do público, e reside na junção desses acontecimentos a maior dificuldade que Peter Jackson encontrou. Temos o núcleo do mal, personificado mais uma vez por Saruman, a jornada de Frodo e Sam rumo a Mordor, a interação de Merry e Pippin com Barbárvore em Fangorn e todo o núcleo de acontecimentos em torno do primeiro reino dos homens a ganhar destaque na estória, envolvendo Aragorn, Legolas, Gimli, Théoden e os cavaleiros de Rohan. Se em “O Retorno do Rei” Jackson alcançou admirável equilíbrio nos cortes entre diferentes núcleos, aqui esses cortes abruptos acabam fragmentando a narrativa. Não que, por exemplo, a diferença de ritmo entre o que acontece no Abismo de Helm e em Fangorn seja culpa do diretor, mas o público sente essa quebra. Se há remédios para alguns males, o remédio para “As Duas Torres” chama-se “Versão Estendida”. Não tente raciocinar demais, é simples: quanto maior o filme – e a versão estendida tem cerca de 50 minutos a mais – melhor é o ritmo, não importa o quão incongruente possa parecer a afirmação.
Se em todo o primeiro filme [...]a narrativa é centrada na jornada dos nove integrantes da sociedade do anel, e a preocupação maior é introduzir a cumplicidade dos personagens para com o público, em As Duas Torres toda a linha narrativa torna-se segmentada.
A começar pela adaptação, foi em “As Duas Torres” que os fãs mais se indignaram com as mudanças propostas por Peter Jackson, principalmente no que diz respeito ao aparecimento de elfos em Helm’s Deep. Não bastasse ser uma heresia a tudo o que Tolkien escreveu, vai contra a própria abertura fantástica do primeiro filme, onde Cate Blanchett narra com voz poderosa que “uma última aliança de homens e elfos marchou contra os exércitos de Mordor”. Mas tudo bem: Jackson queria dar mais destaque à participação dos elfos na estória do Um Anel. O bom é que, menos para aqueles aficcionados fanáticos, essa inserção não traz maiores prejuízos à obra no que se refere à adaptação para o cinema. No que se refere à ação, “As Duas Torres” amplia os sentidos do primeiro filme nos seus 40 minutos finais, e o surgimento dos homens traz junto uma ação mais realista e menos fantástica. O público leigo é que se sentiu prejudicado pelo ritmo lento, mas Jackson deve ter optado por manter o que já havia estabelecido no primeiro filme: ser fiel às descrições e ao universo criado por Tolkien.
No que se refere à ação, “As Duas Torres” amplia os sentidos do primeiro filme nos seus 40 minutos finais, e o surgimento dos homens traz junto uma ação mais realista e menos fantástica.
É aí que entram as cenas deletadas para o cinema e que estão presentes em “As Duas Torres”. É absurdamente incompreensível que as cenas como Denethor, Boromir e Faramir não tenham sido vistas no cinema, porque elas dão base crucial para entender muito do que envolve a relação entre o pai e os dois irmãos, principalmente no último filme. Principalmente para entender porque Faramir está tão obcecado em levar o anel a Gondor. Outros momentos, como a jornada de Frodo, Sam e Gollum, algumas cenas de background entre Arwen e Aragorn e passagens em Osgiliath apenas ajudam a diminuir o impacto dos cortes abruptos. Com mais tempo, os núcleos fazem mais sentido e justificam todo o cuidado na transposição para as telas. Já havia comentado na crítica do primeiro filme de como Jackson trata todos os personagens com um carinho absurdo, inserindo cenas que nas mãos de outro diretor, ou em outro tipo de estórias, seriam descartadas para oferecer mais ação ao público. A cena em que Théoden lamenta a morte do filho para Gandalf é um exemplo. Théoden é um dos personagens dramaticamente mais fortes da trilogia, apesar de ser constantemente alçado a um segundo plano. Rei de um reino decadente, sem herdeiros, enxerga na sobrinha a força que queria para sucedê-lo mas não pode depositar nela essa confiança por ela ser mulher. E constantemente lamenta não estar à altura dos feitos dos antepassados. É uma personagem que nas mãos erradas soaria incrivelmente artificial, mas que Bernard Hill consegue doar contornos realistas. É com Théoden que pode-se exemplificar a preocupação de Peter Jackson com a fidelidade do espírito da obra, em cenas que num outro filme passariam rasas, ou sequer seriam filmadas, em prol da ação. A cena em frente ao túmulo do filho seria dispensável para a condução da estória, mas é crucial para que comecemos a entender a decepção do rei de Rohan por não estar à altura dos seus antepassados. Esse sentimento é indispensável para alcançar todo o sentimento que transborda no último filme, principalmente na relação entre ele e Eowyn.
É com Théoden que pode-se exemplificar a preocupação de Peter Jackson com a fidelidade do espírito da obra, em cenas que num outro filme passariam rasas, ou sequer seriam filmadas, em prol da ação. A cena em frente ao túmulo do filho seria dispensável para a condução da estória, mas é crucial para que comecemos a entender a decepção do rei de Rohan por não estar à altura dos seus antepassados.
E Miranda Otto é outro fruto do filme. Insere vida em uma estória que dá pouco espaço às mulheres – se Arwen não tivesse sua estória ampliada dos escritos complementares de Tolkien, Eowyn seria a única mulher a ter algum destaque nessa estória, fruto talvez da época e da sociedade em que a saga foi escrita na primeira metade do século XX. E Miranda Otto, de grandes olhos emanando sentimentos, justifica boa parte da atração que o núcleo de Rohan desperta.
E mesmo que Barbárvore seja um ótimo exemplo do poder de criação da WETA Digital combinada com a arte de Alan Lee, é em Gollum que reside um dos grandes feitos da trilogia. Os méritos, claro, vão para os técnicos da WETA, mas acima de tudo vão para Andy Serkis, já que todos os movimentos desse ser patético e estranhamente provocador de pena são obra de Serkis. É um personagem trágico, dividido entre duas personalidades e conduzido pela obsessão ao anel. Talvez seja a maior criação do universo literário de Tolkien.
Repetindo a crítica do primeiro filme: As Duas Torres funciona em si mesmo, mas é preciso ser visto como a metade de um longo filme de 12 horas. Nesse sentido, é um primor, porque desenvolve os personagens do filme anterior, apresenta novos núcleos e consegue, em apenas um filme, nos tornar cúmplices dos novos personagens da saga. Abre mão de apressar certas estórias e, ainda que apresente problemas nos cortes entre os núcleos, prepara de forma admirável o público para o clímax da série sem se descuidar da maior façanha do diretor: um respeito quase sagrado ao que está transpondo para a tela.
PS: Um certo crítico detonou a trilha sonora, dizendo que ela era mais do mesmo. Respeitosamente, discordo, seguindo na mesma linha do que escrevi para o primeiro filme: Howard Shore fez uma obra-prima. O mais do mesmo é uma menção tímida à trilha que se ouvia no primeiro filme, na verdade, como um elemento de ligação. Em determinado momento, a trilha de As Duas Torres ganha personalidade própria, com a inserção do núcleo de Rohan – uma melodia que é quase um lamento, facilmente identificável como o grande tema do segundo filme. E Shore fará o mesmo com o terceiro filme, criando uma transição gradual e lenta, concebendo os três filmes como um só. Bom que Howard Shore entendeu que é esse o espírito, ao contrário de muita gente “entendida” que analisa os filmes apenas separadamente.
PS2: Uma homenagem: Jackson deixou de fora do primeiro filme a seqüência em que os hobbits são engolidos pelo velho carvalho e são salvos por Tom Bombadil. Na versão estendida de As Duas Torres, é feita uma menção à essa cena, usando Merry, Pippin e Barbárvore em Fangorn. Trata-se de uma pequena homenagem para lembrar toda uma seqüência que os fãs gostariam de ter visto nos filmes mas não puderam. Em outro local e com outros protagonistas, mas a menção vale, e muito.
( Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring, EUA, 2001 )
Direção de Peter Jackson, com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Billy Boyd, Liv Tyler, John Rhys-Davies, Dominic Monaghan, Christopher Lee, Ian Holm, Orlando Bloom

Uma comitiva de povos da Terra Média (4 hobbits, dois homens, um mago, um anão e um elfo) precisa destruir um anel que é a fonte de poder do senhor do mal, Sauron, que depois de milênios começa a ressurgir. O anel só pode ser destruído no local onde ele foi forjado, a Montanha da Perdição, no meio do território governado por Sauron.
Mais de um ano antes de ser lançado nos cinemas, os primeiros rumores sobre a adaptação para os cinemas de “O Senhor dos Anéis” apontava o diretor de “Os Espíritos” como responsável pela empreitada, e afirmava que possivelmente seriam dois filmes condensando os três livros. Especulava-se Sean Connery para viver Gandalf. Tremi nas bases, primeiro lembrando da adaptação animada de Ralph Bashki feita em duas partes no final dos anos 70, e depois imaginando o sotaque escocês de Connery como Gandalf. Alguns meses depois um teaser falando sobre a concepção da obra e as primeiras imagens me deixaram mais tranqüilo e ao mesmo tempo afoito: O Senhor dos Anéis, ao que parecia, seria tudo o que eu poderia imaginar, principalmente porque havia a confirmação da presença do ilustrador Alan Lee na produção – conseqüentemente, minha visão preferida da obra deveria ser vista nas telas.
Dezembro de 2001 foi a apoteose para qualquer fã da obra de Tolkien, cultuada há meio século, porque pela primeira vez uma superprodução dedicava atenção, respeito e tecnologia para dar vida a uma obra que era considerada infilmável. “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” tinha dois objetivos diretos quando foi lançado naquele ano: satisfazer os exigentes e fanáticos seguidores da obra e apresentá-la a quem não a conhecia, ou apenas a ligava a jogos de RPG. Conseguiu alcançar ambos os objetivos: choveram críticas de quem considerava o filme fútil, confuso e sem ritmo, e como de praxe, aqueles que passaram a odiá-lo devido à toda a badalação e o sucesso. Azar deles: A Sociedade do Anel apresenta um mundo fantástico com pompa e circunstância e, desde seu lançamento, inaugurou uma daquelas famosas eras de “antes” e “depois” no que diz respeito a épicos e fantasias no cinema. A seqüência em Moria - e particularmente a luta entre Gandalf e o Balrog - é um momento que eterniza essa afirmação.

SEM DIDATISMO, JACKSON PROVOCA A CURIOSIDADE DO LEIGO
Os primeiros cinco minutos da fantasia correspondem, provavelmente, a um dos melhores inícios – e um dos mais competentes exercícios de síntese já vistos – ao apresentar a mitologia em torno dos anéis do poder, a história de Sauron, sua queda, a traição de Isildur, o desaparecimento do anel e como ele foi parar no condado. Em apenas 5 minutos, e de uma forma que não deixa os leigos perdidos. Ao cabo desses cinco minutos, “A Sociedade do Anel” já fisgou seu público. Jackson começa, desde esse momento, a apresentar duas características marcantes da trilogia: movimentos de câmera fenomenais e a presença constante - constante mesmo - da música ao longo de todo o filme ( praticamente não existem cenas sem trilha sonora ). E é um filme notavelmente diferente dos seus sucessores. Aqui, Peter Jackson tinha a necessidade de apresentar personagens e mitologia, porque precisava pensar no filme como uma criação separada da literatura e, assim, perfeitamente inteligível. Adequadamente, ele optou por não fazer didatismos. Não tenta explicar os conceitos das raças de uma maneira didática, mas joga, aqui e ali, elementos nas frases dos personagens que começam a construir o sentido do mundo imaginado por Tolkien e suas raças. Jackson confiou que aqueles que não conheciam a mitologia acabariam se interessando por elas, e fez bem. Não foram poucas as pessoas que adotaram os livros após a experiência cinematográfica. Esse efeito foi conseguido sem que houvesse detrimento de entendimento da história. De forma lenta, os personagens começam a ser desenvolvidos de uma forma que fará sentido ao se completar o ciclo: entenda O Senhor dos Anéis não como três filmes, mas uma longa produção ( que é melhor com quase 12 horas na versão estendida ). Assim, a lenta mudança de comportamento, ânimo e aparência dos Hobbits é balizada, também, pela maneira como Gandalf mudará ao longo da jornada ( repare a reverência com que ele encara Saruman quando se encontram pela primeira vez ).

CENTRALIZAÇÃO DA NARRATIVA CRIA LAÇOS
A estrutura de “A Sociedade do Anel” é dividida em dois focos narrativos, e dois momentos: o primeiro foco corresponde aos personagens da sociedade em si, especificamente Frodo, Sam e Gandalf num primeiro momento.os demais integrantes depois, e o outro foco é o “eixo do mal” representado por Saruman. E ao longo da narrativa, mesmo com a presença de diferentes raças, é como se a Terra Média fosse povoada apenas pelos membros da sociedade e os orcs que os caçam. Essa centralização na figura dos nove integrantes é importante para que se estabeleça uma relação próxima entre eles e a platéia ( algo que Tolkien sabia muito bem e fez também nos livros ). Vagarosamente, novos elementos começam a surgir – os elfos em Lórien, especificamente. “A Sociedade do Anel” representa, assim, a apresentação aos personagens, ao mundo e ao plot que guia a jornada pela destruição do Um Anel.
Jackson, obviamente, promoveu alterações no roteiro para se adequar ao cinema. A jornada dos Hobbits à Bri ficou menor, e foi retirada toda a parte em que eles interagem com Tom Bombadil, um personagem amado pelos fãs. Outros núcleos foram ampliados, e Arwen, personagem de Liv Tyler, ampliou sua importância – não é ela quem salva Frodo dos Nazgul e faz erguerem-se as águas no livro. Já o background envolvendo Aragorn e Arwen, que ganha imenso destaque nos filmes, é uma maneira de Jackson recuperar uma estória amada pelos fãs mas que não deverá surgir em filmes, envolvendo Lúthien e Beren, uma elfa e um homem que se apaixonam ( estória presente em "O Sillmarilion" ) além, é claro, de criar um interesse romântico na saga que atraia parte do público. Sinceramente não me incomoda - e pior seria se Jackson inventasse essa relação. Não vou me demorar em mencionar as chacotas em torno da relação de Frodo e Sam. Jackson manteve o texto original de Tolkien, escrito nos meios acadêmicos antes da metade do século passado, para vários personagens, inclusive muitos diálogos da relação imaginada como servil e de devoção de Sam para Frodo ( nada mais normal para um inglês acostumado a esse tipo de relação em uma sociedade conservadora ). Se em vez de dizer “Oh Sam” ( como está nos livros escritos naquela época ) Frodo dissesse “Pô Sam, foi mal cara, me desculpe.” muita gente faria menos chacota. Eu, sinceramente, não ligo porque sei como isso está descrito nos livros.

UMA TRILHA PARA 12 HORAS DE FILME
O compositor Howard Shore, por sua vez, começa a criar a obra de sua vida ao fazer, para os três filmes, uma identidade própria, usando de um tema principal constante e variações que definem cada povo ou jornada. No primeiro filme, o tema da sociedade alternava-se ( depois da introdução da tocante "Concerning Hobbits" no Condado) com o tema dos Orcs e de Saruman, este muito mais tocado - e o épice é o coral de vozes cantando em "The Bridge of Kaza-Dhum", na sequência imediatamente anterior ( e imediatamente posterior de forma melancólica ) ao confronto entre Gandalf e o Balrog - os elfos de Lórien ganham uma trilha com coral que se casa perfeitamente à raça criada por Tolkien. Timidamente, Jackson também insinua-se nas canções que Tolkien espalha em sua obra – e que legitimam o universo que ele cria. Na versão estendida, uma bela cena apresenta Aragorn cantando uma canção em élfico que encanta Frodo. É uma pena que a cena não exista também na versão para os cinemas. A rigor, a versão estendida não altera o entendimento da história – diferente de “As Duas Torres, por exemplo – mas amplia o mergulho em toda a mitologia de Tolkien. Todos deveriam ver essa versão para esse mergulho ser profundo. O condado, os hobbits e seus hábitos são apresentados com detalhes em uma bela seqüência inicial, os hobbits vêem elfos na floresta rumando aos portos cinzentos, o coração de Lórien é mostrado e os presentes de Galadriel à comitiva merece atenção especial. São cenas que complementam uma obra já marcante na história do cinema.
Concerning Hobbits - na versão extendida, a apresentação dos hobbits logo após o prólogo
O prólogo, na versão estendida
Gandalf e o Balrog - versão editada por um fã, unindo as cenas do segundo filme.


