Austrália

Escrito por Fábio Rockenbach





É difícil começar a falar de “Austrália” sem apontar, primeiro, os principais motivos que fizeram a ambiciosa superprodução de Baz Luhrmann fracassar, a despeito da boa bilheteria internacional que começa a colher para recuperar o investimento de US$ 130 milhões. Mas talvez, de todos os problemas que possam ser apontados, o maior deles se chama, justamente Baz Luhrmann. O australiano pisou em território desconhecido e nitidamente perdeu o rumo. Colocou o pé no deserto de Nunca-nunca, caiu como bois da manada de um precipício buscando seu norte. Dividiu seu filme em 3 partes, não deu a elas uniformidade e abusou do desejo de ser grande.

Os adjetivos encontrados na rede ao filme o apontam como um novo “E O Vento Levou”. Há quem diga que Luhrmann se espelha em John Ford em determinados momentos. Isso é diminuir demais a força do filme e do diretor citados. Não chega nem perto. Talvez o que mais incomode, e fique mais visível, é a maneira como Luhrmann apresenta um filme na meia hora inicial e mude completamente de tom dali para frente. Os primeiros trinta minutos de “Austrália” são exagerados, histéricos, teatrais da mesma forma que o diretor fez “Moulin Rouge”, e simplesmente não combina. Principalmente porque tudo isso é esquecido depois, vai para o ralo. Por que, então, recorrer a esse estilo de narrativa pseudo-cômica no seu início? Porque contribuir nesse início para amealhar as críticas ao desempenho de Nicole Kidman em cenas pretensamente engraçadas, mas completamente fora do tom?

Kidman é uma inglesa que vai até a Austrália encontrar o marido, dono de Faraway Downs, fazenda de gado que incita a cobiça de outro grande criador. Encontra o marido morto e descobre que o capataz da fazenda a está roubando. Sem ajuda de ninguém, exceto de Drover ( Hugh Jackman ), um boiadeiro rústico, decide levar ela mesma seu gado através do país para vendê-lo ao exército, e enfrenta pelo caminho os capangas do rival de seu marido. E este é o segundo filme dentro de Austrália, após o início trôpego e sem força. O terceiro filme surge com o bombardeio japonês à cidade portuária de Darwin e a luta para recuperar Nullah, uma criança mestiça que ela adota como filho e é levado a uma ilha misisonária para ser “reeducado conforme as leis de Deus”.

Se a intenção de Luhrmann era fazer uma homenagem à sua Austrália natal ( com um elenco, também ele, todo australiano, que tinha Russel Crowe como primeira opção para o papel de Jackman ) tudo o que ele conseguiu foi uma colcha de retalhos com menções distantes à história do país e ao misticismo que cerca os aborígenes, ou à chamada “geração roubada” de crianças levadas de seus pais por serem nativos. É mais uma história sobre segregação e costumes nativos – um tanto mistificados em excesso – do que um romance, que só engata na sua metade final, mas ainda assim sem a química necessária entre Jackman e Kidman. O personagem principal, na verdade, é Nullah, que na pele do jovem Brandon Walter rouba o filme e eclipsa os atores mais experientes sempre que está em cena.

Mas há teatralidade demais. Há pompa em excesso, cenas cuidadosamente planejadas para parecerem épicas ou magistrais – como a primeira aparição de Jackman, por exemplo. A falta de objetividade e de rumo entre as duas histórias e o tom dado pelo diretor, completamente confuso sobre como tratar seu filme, prejudicam a unidade de “Austrália”. Ao contrário de “E O Vento Levou”, onde tudo centra-se em Scarlett O’hara, aqui há vários centros, e nenhum sólido. Toda a beleza plástica de Luhrmann está presente – e ele é um exímio artesão visual – mas é uma pena que muitas dessas cenas soem vazias e gratuitas. O filme de três horas poderia ser reduzido para 2 horas com mais ritmo e uniformidade. Luhrmann faz uma bela homenagem a “O Mágico de Oz” usando ( e muito ) “Somewhere over the Rainbow”. Talvez seja sua declaração particular de amor ao seu país, também chamado popularmente de Oz – a tal ponto que, em uma cena, um dos personagens diz a outro que é hora de voltarem para casa. Como Dorothy, no filme de Victor Fleming, a resposta é “Não há lugar como nossa casa”. A diferença é que aqui, depois do arco-íris, não há para o público muita coisa para a qual voltar. Extremamente bonito, é verdade, mas vazio.