O Estigma da Crueldade

Escrito por Fábio Rockenbach

(The Bravados, EUA, 1958)
Direção de Henry King, com Gregory Peck, Joan Collins, Stephen Boyd




“Fui juiz, jurado e carrasco.”

A trama de Philip Yordan não é rasa, como parece a uma primeira vista. Longe disso, aliás. Mas Henry King também não é, propriamente, um Howard Hawks, ou um John Ford. Nas mãos de cineastas como eles, “O Estigma da Crueldade” ampliaria em diversas vezes sua densidade emocional. Nas mãos de Henry King, um operário dos tempos de ouro de Hollywood, é um filme de estúdio. É uma pena.

A crueza da interpretação de Gregory Peck, quando bem utilizada, rendia momentos saborosos. Ela até cai bem em aqui, como Jim Douglass, rancheiro misterioso que chega à pequena cidade de Rio Arriba, próximo à fronteira com o México, para presenciar o enforcamento de 4 bandidos. As razões do estranho são obscuras, mas aos poucos se revelam quando os quatro conseguem fugir e raptam uma jovem do povoado. Douglass lidera o grupo que parte no encalço deles, motivado por questões pessoais: ele acredita que os quatro são os homens que mataram sua mulher, meio ano atrás. Mas, um por um, à medida que eles os alcança, algo parece estar errado. Douglass não acredita, mas todos juram não saberem quem é sua esposa, ou sequer onde fica seu rancho.

Não é à toa que King era um dos favoritos do estúdios, muito ligado a Zanuck: era um cineasta que, se é reconhecido pela produção, não se destaca muito pela qualidade. “O Matador”, “A Canção de Bernadette” e “Almas em Chamas” são dos exemplos mais lembrados da carreira. “O Estigma da Crueldade” é uma mostra de todas essas verdades em torno do diretor: operário dedicado, mas pouco inspirado, King até ensaia um bom uso do cinemascope posto à disposição para a produção, mas não ousa. Mantém-se no básico com sua câmera e no óbvio na montagem. Não consegue manter um ritmo constante, e se apóia no carisma de seu ator principal, econômico em gestos e palavras, mas afeito à personalidade do personagem. Stephen Boyd toma conta da tela quando aparece, como um dos bandidos – um ano antes de ser Messala em “Ben Hur” – e Lee Van Cleef, antes se se consagrar na Itália, repete o mesmo papel de "Matar ou Morrer," como um reles capanga. Mas o melhor do roteiro de Yordan é o aproveitamento de Henry Silva como Luján, o mais enigmático dos bandidos. É também a base onde se assenta a compreensão da obsessão torta de Douglass, e o seu desespero. Mas é aí também que está o maior problema: com tamanho material, King poderia ter feito uma obra-prima orientando seu clímax para esse encontro. Foge do convencional em sua resolução, e consegue usar uma hipocrisia e uma ironia disfarçadas em seu final que é extremamente bem vinda, mas faltou algo para fazer jus à força do argumento. Não há imagens impactantes, não há um momento a ser lembrado... não há nada que nos coloque no lugar de Douglass e nos torne íntimos dos conflitos com os quais ele bate de frente.

Provavelmente, aquele algo a mais que homens como Hawks e Ford tinham, e que ninguém saberia explicar de onde vinha.