Daney e a arte de escrever sobre cinema

Escrito por Fábio Rockenbach


Um pequeno exemplo da razão por que Serge Daney é tão idolatrado por críticos da velha guarda - muitos da nova geração não conhecem seus trabalhos. Daney se mostra, no texto abaixo, assustado pelo fato de ter largado de mão “8 1/2″ de Fellini para permanecer absorto em frente à televisão assistindo a “O Veredito”, filme do começo dos anos 80 de Sidney Lumet que tem como principal atração a atuação depressiva e melancólica - acrescenta-se o “ótima” - de Paul Newman. Daney não gosta do filme, diz que é “mal filmado, mal contado, tudo” mas é absorvido. Assiste até o fim e tenta teorizar do porquê, de tentar entender encaixar na sua linha de raciocínio as razões de a televisão e sua programação pobre absorverem o público.

No fim, uma palhinha de porquê ele foi um dos grandes críticos de cinema: ele se apega a uma cena em particular de “O Veredito”, simples, despercebida para quase todos, para analisar de forma sucinta de uma forma que poucos conseguiriam fazer. Daney foi ótimo. A cortesia é do “Dicionários de Cinema“, que há um bom tempo vem traduzindo o que há de bom nos escritos sobre cinema do século passado.

26 Março 1988 – Ontem, entre a tarde e a noite, em frente à TV. Abandono rapidamente 8 ½, mesmo que nunca o tenha visto, mas me exaspera e me pego assistindo até o fim um filme que objetivamente acho mal feito, mal contado, mal tudo: O Veredicto de Sidney Lumet. Esquizofrenia da televisão: nós não só assistimos o que não é bom (não é bem feito), mas nós vemos até melhor do que no cinema (edição, por exemplo), e mesmo assim nós preferimos ver um filme mal feito do que um bem feito. Ou ainda: os conceitos de “bem feito” e “mal feito” não são relevantes na televisão. Ou o filme tem uma força tamanha que se impõe ou nós estamos na relatividade de um mundo de imagens, numa banheira do imaginário, onde tudo é interessante. Isso depende do clima do momento. Ontem eu preferi assistir Mason e especialmente Newman compondo com idade, com tudo. Lumet é o arquetípico cineasta que filma do ponto de vista de ninguém, portanto com uma eficiência abstrata, tão abstrata que é reduzida ao nonsense de roteiro. Ele acelera quando não há razão pra isso. Um belo momento. Newman finalmente encontrou a enfermeira que “sabe” o que aconteceu. Ela cuida de crianças em Chelsea. Ela tem uma bela face de santa de sindicato. Ela está no playground; Newman, que chegou de Boston, está abordando-a desajeitadamente. Close-up no bilhete Boston-Nova Iorque, que cai de seu bolso. E lá, um pequeno truque do velho Lumet, um pouco da verdadeira velocidade: contracampo em Newman que não está mais aparecendo: “Você vai me ajudar?” Ela vai ajudá-lo, não porque o roteiro exige isso, mas porque nós fomos colocados no lugar dela (pela mise en scène) e ela no nosso, e porque o desejo de que ela o ajude foi inscrito no filme. Coisas velhas mas existentes, pelo amor de Deus!
O exemplo do filme de Lumet, uns dias atrás (“Você vai me ajudar?”) soma tudo isso. É impuro ( ou pouco refinado) mas suficiente. O plano de Newman – de um Newman que pede ajuda e pede duas vezes: para o outro personagem (off) e a mim que – por um instante – fui capaz de me colocar no filme no lugar desse personagem ausente da imagem. E ele será ajudado duas vezes: no roteiro e por mim (neste momento, eu aceito seguir com o filme, e então fazê-lo funcionar

Austrália - A volta dos épicos românticos?

Escrito por Fábio Rockenbach



Talvez o título seja exagerado, e a previsão seja uma furada. Mas basta uma olhada de leve no primeiro trailer de "Australia" para sentir um misto de "já vi isso antes" com "ainda bem que voltou." O cinema americano foi forjado na tradição dos grandes épicos românticos. A Era de Ouro dos anos 30 não ganhou esse nome senão pelo estrondoso sucesso de ...E O vento Levou. Assim Caminha a Humanidade, As Neves do Kilimanjaro, Doutor Jivago e outros não estão no imaginário popular por acaso. Pássaros Feridos não é provavelmente a minisérie de maior sucesso de todos os tempos apenas por ter Richard Chamberlain no auge da popularidade. O público, aquele para quem os filmes são feitos, gosta de se refugiar em um romance épico da mesma forma que fazia antigamente nas páginas dos livros do gênero. E mesmo os marmanjos com mais massa cerebral sabem reconhecer as virtudes quando elas aparecem. Dá pra começar a fazer isso no trailer ( mais abaixo )


À primeira vista pode parecer forçado. Basta uma rápida olhada na data de estréia do filme -metade de novembro de 2008 - para perceber a jogada esperta de marketing. os chamados "filmes de oscar" das produtoras são lançadas nos meses de novembro e dezembro, para ficarem mais "quentes" na memória dos votantes da Academia quando as cédulas chegam às suas casas, no começo do ano seguinte. "Austrália", novo filme de Baz Luhrman ( Romeu + Julieta, Moulin Rouge ) não está estreando perto do final do ano só por uma providência do destino ou planejamento das filmagens. Ele é "o" filme de Oscar da 20th Century Fox.



O que alimenta a esperança de quem esperava a volta desse estilo de épico romântico - e se frustrou com "Cold Mountain", que prometia ser esse filme anos atrás - é o fato de Baz Luhrman estar na direção. E a certeza de que o diretor, mais do que um mero operário de fórmulas, costuma criar as suas próprias e ser fiel ao seu estilo.



O primeiro trailer, no entanto, parece mostrar que Luhrman, se mantém algumas características peculiares do seu estilo visual e narrativo, cedeu à tentação - e quem disse que é ruim? - das grandes panorâmicas, dos movimentos de câmera em grua, das silhouetas ao pôr do sol, da fotografia "á la David Lean" na história da aristocrata inglesa ( Nicole Kidman ) que herda uma grande extensão de terras na Austrália durante a segunda guerra mundial. enfrenta a resistência de grandes donos de terra do país e atravessa terras hostis levando 2000 cabeças de gado na companhia do cavaleiro interpretado por Hugh Jackman. Luhrman já fez Ewan McGregor ter química com Kidman, e ao que parece, fará o mesmo com Jackman.
Luhrman parece ter cedido à tentação do grande épico... que beleza. Que venha novembro.

PS: Não encontrei referências à trilha sonora, portanto não sei se a trilha do trailer é a do filme. Caso alguém saiba, agradeceria a informação. Abaixo segue um vídeo de bastidores com o fotógrafo da produção e o primeiro trailer.






Ame ou Odeie Shyamalan

Escrito por Fábio Rockenbach



O primeiro cartaz de "The Happening" já havia me chamado a atenção. Como brinco com Coverart e Photoshop, costumo prestar atenção à arte. É superior a este segundo, que vi hoje no Cinema em 1ª Pessoa. Sobre Shyamalan, devo ser um caso à parte, ou pelo menos parte de uma linhagem que procura se manter nas sombras: sou fã de carteirinha do Indiano. Que pese sua mania de grandeza, que ajudou a destruir a reputação que ele contruiu depois que "Lady in the Water" se tornou o desastre que se tornou.

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A grande maioria - críticos e público - consideram "O Sexto Sentido" sua grande obra-prima. Não discordo. Mas tenho um ponto de vista radicalmente diferente da grande maioria do público. Ou eu vi algo que a maioria não viu, ou sou um delírio ambulante, afetado pela admiração ao estilo de Shyamalan. Considero "Sinais" o seu grande filme, sem tirar nenhum mérito do suspense sobrenatural que marcou a estréia dele nos Estados Unidos. O grande problema é que "Sinais" foi vendido errado. O público comprou uma história de invasão alienígena, e esperava uma resolução do tema semelhante a outros filmes do estilo. Se decepcionou, não porque o filme seja fraco, mas porque foi ao cinema com uma expectativa que se frustrou. "Sinais" não é sobre invasões alienígenas, o tema é um mero background. "Sinais" é sobre fé, sobre destino e sobre os sinais que estão à nossa frente, todos os dias, apontando o caminho. Os sinais nas lavouras são uma brincadeira dando o duplo sentido ao filme que, embora brilhante, ajudou a passar a idéia errada. Ainda volto ao filme numa crítica mais completa, porque a cada vez que assisto, descubro novas coisas que me fazem admirar ainda mais Shyamalan.

Como me coloquei no grupo dos excluídos, devo dizer que gostei de "A Vila", apesar de achar irritante o fato de Shyamalan julgar que precise criar surpresas para os finais de seus filmes e surpreender o público sempre. Ele foi mais prepotente em "A Vila" do que em "A Dama na Água", malhado por todos e que, sinceramente, assisti na boa. É o mais fraco dos seus filmes, sim, mas também o menos prepotente e, talvez, o mais sincero. Pena que tenha faltado uma capacidade de dialogar melhor com o público. E ainda acredito que, um dia, "Corpo Fechado" será reavaliado com mais carinho.

Resta esperar "The Happening". Como sempre, o trailer é de roer as unhas de antecipação. Mas conhecendo Shyamalan, prefiro não criar expectativas e, simplesmente, embarcar na viagem. Não digo deixar que ele me surpreenda, mas imagino que haja mais mensagens por trás dos estranhos acontecimentos do novo filme do que simplesmente uma catástrofe mundial. Para apreciar Shyamalan, é preciso aprender a conhecer Shyamalan. Não exatamente amar ou odiar... mas aprender a ver.

Um pequeno preview


E Deus inventou o tempo...

Escrito por Fábio Rockenbach

Durante as três décadas em que Brigitte Bardot esteve no auge de sua beleza e popularidade, ela foi chamada de “a Marilyn Monroe francesa”. Era para ser um elogio, mas mesmo que Bardot não se destacasse pelos dotes intelectuais (“Nossa, adorei a revolução de vocês!!!"disse ela, quando esteve no Brasil em 1964 ) assim como Marilyn, o aspecto sensual e estético entre ela e Norma Jean eram muito diferentes. Marilyn, ícone americano da sensualidade, foi fabricada. Posava para fotos tentando exalar sensualidade por caras e bocas. Bardot nunca precisou disso. Um simples olhar para a câmera era capaz de acordar o mais adormecido instinto primário até mesmo de um idoso. Bardot era espontânea, lábios carnudos, grandes olhos que pareciam enxergar a alma.

Não tenho intenção de desfilar, aqui, uma biografia de Bardot. Foi o símbolo da beleza na França dos anos 50 e 60 e retirou-se do cinema na década de 70. Preferiu deixar de lado o glamour das telas – e todos seus problemas – para se dedicar à causa dos animais. E foi somente assim que ela tem sido vista ou debatida nos últimos 30 anos – além, é claro, da presença eterna nas telas. Pouco antes de se retirar, confessou que jamais sentira prazer em ser atriz: a carreira nas telas seria um reflexo de uma vida artística que começou desde cedo, influenciada pela mãe.

Mas a Brigitte Bardot que simboliza a França tornou-se, também, uma vergonha. Não consegue controlar um profundo ódio pelo Islã. Já criticava abertamente o costume árabe de matar cachorros – conseguiu que em vários lugares se adotasse o hábito da castração para evitar o aumento da população animal, em vez da morte. Desde 1997, já foi multada quatro vezes por incitar ao ódio racial. A primeira multa foi de 1.500 euros. Mais recentemente pagou 5.000 euros. Agora, o Ministério Público francês pediu uma pena mais dura: dois meses de prisão com pena suspensa e pagamento de 15 mil euros. O MP estaria “cansado de processar Bardot”. Os 5 milhões de habitantes muçulmanos da França originaram o comentário racista de Bardot. “Estou farta de ser dominada por esta população que nos está a destruir, a destruir o nosso país e impor as suas crenças.”

Também choca, nessa história, perceber como o tempo, além de ampliar as visões racistas de Bardot, também aproveita para deixar a fantasia e colocar os pés na realidade. Ver Brigitte Bardot nas telas em filmes de 4 décadas atrás alimenta a permanência de um mito de beleza eterna que se dissolve em segundos quando a mulher, aos 73 anos, mostra-se em público, enfrentando a inevitável e injusta comparação. O tempo é cruel, não respeita nomes, posição social ou fama, não importa o quanto se invista para tentar manter a juventude. Se compararmos Brigitte com Sophia Loren, sua contemporânea, podemos dizer que ele foi ainda mais cruel. As rugas no rosto de Bardot são um tapa na cara da imagem que ficou parada no tempo. Se o ex-marido Roger Vadim usou Bardot como símbolo máximo da beleza em “E Deus Criou a Mulher”, a cada dia, lentamente, surge a certeza de que, muito antes, Deus inventou o tempo. E este não perdoa.

Melhor reverenciar a femme fatale francesa no auge de sua saúde e de sua ingenuidade.

Orson Welles e o Toque da Maldade

Escrito por Fábio Rockenbach

Muitos cineastas, em cem anos de cinema, podem ser chamados de gênios - menos, porém, do que o senso comum acredita. Pouquíssimos são lembrados como malditos. Orson Welles foi maldito. Foi um maldito com idéias próprias, inteligência acima da média e uma bem vinda teimosia, sem a qual ele talvez desistisse do cinema para se dedicar a qualquer outra forma de arte - muito provavelmente teria algum tipo de sucesso nessa empreitada. Welles foi maldito porque teve a infelicidade de cruzar com as pessoas erradas na hora errada. Fosse Europeu, talvez tivesse a liberdade - apesar de não poder contar, então, com o financiamento - para realizar seus filmes do modo como imaginava. Welles foi maldito numa América cinematográfica em ebulição, mas provavelmente agradeceria por não ter vislumbrado as mazelas sociais que Rosselinis, DeSicas e outros encararam na mesma época. Welles foi maldito porque quem controlava o processo, naquela época, não tinha o alcance que sua mente tinha ao pensar o cinema. E acima de tudo, Welles foi maldito porque ousou enfrentar William Randolph Hearst, e pouco restou para ele num ambiente movido à influências e ao poder da mídia que seu inabalável talento. “A falsidade é tão antiga quanto o jardim do Éden.” disse ele . Mais do que uma constatação óbvia, um desabafo.


Antes de provocar, quando conseguiu controlar o processo criativo, deu ao mundo a história de Charles Kane, e já então, mesmo recebido com entusiasmo como um gênio precoce aos 25 anos, recebeu o recado da indústria do entretenimento no Oscar: apenas um prêmio, o de melhor roteiro.
O tempo legou a "Cidadão Kane" as honrarias, devoções e lideranças em listas de todas as línguas e tempos como o filme dos filmes, mas para Welles, os anos 40 e 50 foram um misto de experimentação, descoberta, desilusão e perseguição. Estava sempre à frente ao se mencionarem os grandes nomes do cinema daquela época, e também era o mais lembrado quando se mencionavam os mais perfeccionistas e problemáticos. Talvez essa devoção a ver inteligência nas telas, e de experimentar o que fosse possível com uma câmera nas mãos assustasse tanto executivos de estúdios, buscando enfrentar a concorrência da televisão e saciar a sede de diversão do público. Talvez Welles devesse ter nascido na França, mas aí então a própria história do cinema seria diferente.
A maldição sobre o enfant terrible durante 4 décadas. A genialidade que lhe trouxe a ovação foi a mesma que lhe fechou caminhos e impediu que visse nas telas sua visão para filmes essenciais no exercício de compreender o cinema. Visitou Shakeaspeare, Mellville e Kafka, deixou inacabados projetos utópicos e, na maior das utopias, jamais conseguiu transformar em filme sua visão para o Don Quixote de Cervantes. Entre 1941 e 1955, passeou entre a história de um milionário e a vida conservadora ( e os valores fúteis e ultrapassados ) da família Amberson, destilou charme e mistério com A Dama de Shangai e emprestou seu rosto e seu carisma para Carol Reed fazer de O Terceiro Homem o melhor filme britânico da história, segundo o Brittish Film Institute. E em 1958, dez anos depois de filmar pela última vez na América - Macbeth, de 1948 - Orson Welles voltava a dirigir uma produção de um estúdio americano, graças à influência de Charlton Heston, e sob desconfiança da Universal. No seu retorno, acabaria entregando outra jóia ao cinema, "A Marca da Maldade “ ( Touch of Evil ). Welles, como era de praxe, ignorou as recomendações do estúdio, reescreveu o roteiro e transformou "A Marca da Maldade" num clássico que não envelhece.
Responsável pela contratação desconfiada de Welles para retomar a direção nos Estados Unidos pela mesma produtora para a qual ele já havia dirigido “O Estranho” na década anterior, Charlton Heston é, talvez, um dos que melhor definiram o gênio:
“Ele não conseguia nenhum filme para dirigir porque, entre outras coisas, era considerado pródigo e perdulário. [ ... ] Hoje todo mundo reconhece que Orson merecia ter tido mais sorte na indústria cinematográfica, mas também é verdade que ele poderia ter sido mais compreensivo com as necessidades da indústria”.
Para Heston, que Welles dirigiu e contracenou em “A Marca da Maldade”, Welles era pródigo em conquistar a equipe inteira com seu gênio ativo e mente aberta – uma certa cumplicidade – cativando atores e equipe técnica, mas pecava por não dispender o mesmo tempo e esforço para cativar os homens que pagavam os seus filmes: Welles desprezava os executivos dos estúdios e não conseguia ver inteligência neles, “generalizando” a classe.
No caso de “Touch Of Evil”, Welles foi impedido de filmar em Tijuana, o que, segundo ele, seria perfeito para dar o clima necessário ao policial ambientado na fronteira entre México e Estados Unidos – e ele bem sabia porque. O estúdio queria mantê-lo por perto para poder controlá-lo. Sabiam que, sozinho, sua impulsividade o levaria a vôos maiores do que eles estavam dispostos a pagar ou suportar.
Foi John Ford quem ensinou a Welles, anos antes, a tática: “dê a eles o que querem por dois dias e tenha dois meses de tranqüilidade”. Um circo foi armado para os primeiros dois dias das filmagens, sob a conivência de Heston, Leigh e os demais membros da equipe, ciente estava Welles que pelo menos um ou dois espiões do estúdio estariam nas gravações. E nos dois primeiros dias, impecavelmente, as filmagens começaram na hora e renderam de forma surpreendente – 13 páginas do roteiro haviam sido filmadas, para alegria dos exultantes e temerosos executivos, que a cada duas horas eram informados do andamento das gravações. Passados os dois dias, o diretor desabafaria à equipe: “Agora que não temos que dar satisfações a ninguém, vamos nos concentrar no filme”.
“A Marca da Maldade” é um filme que pertencia, literalmente, a Welles. Após assumir a responsabilidade pela direção e receber carta branca sobre o roteiro, reescreveu página por página a história baseada no livro de Whitt Masterson, “Badge of Evil”. Mais do que isso, durante as filmagens, Welles reescrevia as falas do elenco e o roteiro durante o dia – as gravações eram feitas à noite, para evitar visitas inoportunas. “Se alguém deve receber algum crédito por uma história banal se tornar o que se tornou, é Orson” admite Heston, já que mesmo os atores só sabiam suas falas horas antes da gravação.
Antes de se tecer mais comentários acerca da obra de Orson Welles e da genialidade ( mais uma vez ) demonstrada pelo enfant térrible americano em "A Marca da Maldade", é preciso relembrar como começa a incursão de Welles no noir, ambientado na fronteira entre Estados Unidos e México. O ano é 1955, e a obra, apesar das décadas que se passaram até conhecermos a visão de Welles, tornou-se para muitos o segundo grande filme da carreira de Welles - se é que alguém que fez A Dama de Shangai, Soberba e este Touch of Evil pode ter a qualidade de seus filmes rotuladas em uma mera lista de qual é melhor ou porque.
É na sequência inicial que Welles mostra que não encarava a produção como um mero filme B. Raramente um filme era para ele pouco menos do que uma chance de exercitar idéias brilhantesm não necessariamente novas, mas aplicadas de formas inéditas. Nesta seqüência inicial, acompanhamos um desconhecido colocando uma bomba em um carro, e nos três minutos seguintes, vamos viajar pela cidade de fronteira, idealizada por Welles e pelos diretores de arte Robert Clatworthy e Alexander Golitzen, num único plano sequência sem um corte sequer, passando sobre telhados ao som da música de cabaret, contemplando as ruas movimentadas de viajantes e moradores locais que transformam a fronteira num shopping informal. Acompanhamos a trajetória do carro mostrado no início da cena, enquanto somos apresentados ( também informalmente ) aos personagens de Charlton Heston e Janet Leigh. Dezenas de metros de movimento de câmera e perfeita orquestração de atores e figurantes sem um corte sequer, até o final da cena, que irá, também, definir o começo da genial trama que coloca "A Marca da Maldade" ao lado de clássicos como Á Beira do Abismo e O Terceiro Homem.
Los Robles é o povoado na fronteira onde o polivial Vargas ( Heston ) e sua esposa Susan ( Janeth Leigh ) passam a lua de mel. É justamente na fronteira que uma bomba explode matando um milionário e iniciando um tenso jogo de valores morais e éticos entre Vargas e o xerife Hank Quinlan ( Welles, assustadoramente gosto como uma baleia ) . Como a bomba foi armada em território mexicano, o racista Quinlan precisa aceitar a intromissão do mexicano Vargas nas investigações – e essa intromissão acaba entrando em choque com as noções de justiça de Quinlan.
Não que o xerife Quinlan seja de forma simplista o vilão da história. É o elemento a ser criticado, abominado e rejeitado, mas, como sempre, valores e comportamentos não são expostos com apenas dois lados na visão de Welles, bem ou mal. Marlene Dietrich, fazendo uma ponta como uma cafetina decadente, é a que melhor define o caráter do personagem de Welles: “Um excelente detetive, um péssimo policial”. Desde que perdeu a esposa – cujo assassino jamais foi preso – Quinlan prometera jamais deixar um assassino sair livre de suas mãos outra vez, nem que para isso fosse necessário criar um culpado. Sua noção de justiça, baseada nos seus pressentimentos e na sua intuição. Não importa o que fosse preciso ou quem devesse morrer, alguém pagaria pelos erros – mesmo que de outros.



É quando Quinlan planta duas bananas de dinamite no quarto de um mexicano que havia tido um caso com a filha do milionário que suas posições se chocam com força com os valores do honesto Vargas, e para tirar mais esse peso do seu caminho, ele se junta à máfia local para eliminar Vargas, usando a inocente Susan como armadilha.
Foi em “A Marca da Maldade” que Janeth Leigh, cinco anos antes de ser esfaqueada em um chuveiro no Bates Motel, descobriria uma das grandes diferenças de Welles para outros grandes nomes da época. Ele encarava o processo de criação de roteiro e dos personagens como um processo em constante evolução e desenvolvimento ao longo das filmagens. Umka característica bem diferente da que Leigh encontraria nas mãos de Alfred Hitchcok, por exemplo: “Mr. Hitchcok chega ao set com o filme pronto na cabeça, e não admite uma alteração sequer. Orson entende que o filme é um processo em evolução que pode melhorar sempre”.
Talvez tenha sido esse tipo de improvisação e evolução que tenha deixado tão confusos os montadores contratados para montar o filme de Orson, e com os quais ele se desentendeu. Temerosos pelo sucesso da produção após assistirem a uma cópia não acabada do filme, montada segundo as concepções de Orson, o estúdio proibiu o diretor de chegar próximo à sala de edição e filmou cenas adicionais para “amarrar melhor a trama”, ou o público, segundo eles, não entenderia. Na verdade, a montagem de Welles previa ações ocorrendo ao mesmo tempo e alternando-se na tela, algo avançado demais para os executivos da Universal. Eles haviam adorado o que viram no copião, mas ficaram assustados na montagem. Desiludido, Welles ainda foi obrigado a participar da gravações das cenas extras – implorou para poder dirigi-las, ao menos, mas nem isso lhe foi permitido.
Na década de 90 uma carta escrita por Welles para o estúdio, pedindo que fosse mantida sua visão original da história – e dando instruções de como fazê-lo – serviu como base para o relançamento do clássico seguindo a visão que seu criador tivera. E não havia sido a primeira vez: em 1942,. “Soberba” sofreu o mesmo tipo de mutilação, perdendo 40 minutos do núcleo central imaginado por Orson e teve seu final gravado por outro diretor.
O título inicial de “Touch of Evil” foi trocado por Welles mudando o Insígnia do original ( Insígnia da Maldade ) por Toque ( Toque da Maldade, o “Marca” daqui é privilégio do departamento de distribuição da Universal nos anos 50 ) mais condizente com a personalidade de seu personagem. Para Welles, não era o distintivo ou a função de Quinlan que eram maus. Não é o senso de dever de Quinlan que remete à maldade, são seus métodos. Em seu íntimo, ele realmente acredita estar fazendo o certo para punir quem sua intuição diz que é culpado. E na visão torpe de Quinlan, a corrupção e a falsidade não são formas de fraqueza, mas veículos para se alcançar a justiça dos homens, aquela que ele poderá contemplar com deleite. Welles poucas vezes pôde contemplar a justiça dos homens no que diz respeito aos seus filmes,
O toque de maldade que ele reconheceu e rotulou em Quinlan acabou sendo o mesmo que o rotulou como uma pedra no sapato por Hollywood, como uma prova plantada para justificar que usassem de seu talento até o momento que julgassem necessário, em uma época onde o respeito à criação era subordinado ao domínio absoluto dos donos dos estúdios. Como ele mesmo afirmou, “O pior é terminarmos de escrever um capítulo e não ouvirmos o aplauso da máquina de escrever.” Talvez, para Welles, maior que a silenciosa ovação dos que o reconheceram ao longo de 4 décadas de inspiração tenha sido o sutil boicote da ignorância.