A Testemunha

Escrito por Fábio Rockenbach

( Witness, EUA - 1985 )
Direção de Peter Weir, com Harrison Ford, Kelly McGillis, Danny Glover, Alexander Godunov, Josef Sommer, Lucas Haas

“John, esse é nosso modo de agir.
“Mas não é o meu modo...”


O cinema de Peter Weir é um estudo do choque entre forças contrárias. Do homem contra a natureza. Do homem contra a ignorância e o conservadorismo. Do homem contra o homem. “A Testemunha” coloca essa última “modalidade” enrustida em uma trama policial que, no fundo, é um estudo sobre a violência e sobre o convívio entre os homens. Mais uma vez, o protagonista dessa história é um homem isolado, perdido em um ambiente estranho, sofrendo o choque entre suas idéias e o novo mundo que o cerca e o assusta, ao mesmo tempo que o fascina neste caso.
Recentemente ouvi um comentário de um leitor em um dos muitos sites de cinema do Brasil de que “A Testemunha” era um filme “bom com uma história patética para um ator como Ford, com pouca ação.” Se o roteiro de William Kelley e Earl Wallace, vencedor do Oscar de roteiro original em 85, é construído em cima de uma estória patética, então toda minha visão sobre estórias e roteiros em cinema foi construída em cima de uma fraude. Passei mais de 30 anos envolto em uma ilusão.

Muitas pessoas enxergam em “A Testemunha”, filme de Peter Weir de 1985, indicado a oito oscars ( vencedor de dois prêmios ), um filme policial sem ação. O próprio comentário acerca de Ford mostra bem que, para muitas pessoas, filmes com Harrison Ford precisam ter ação. É o estigma de Indiana Jones que marcou a carreira do ator. Felizmente, não contribuiu para fracasso nesse caso. Custanto apenas 12 milhões de dólares, “A Testemunha” lucrou US$ 65 milhões só nos Estados Unidos.



“O que o garoto falou?
“Ele perguntou sobre seu nome. Disse a ele que não precisamos saber nada sobre você.”


Baseado em uma história dos próprios Kelley, Wallace e de Pámela Wallace, o premiado roteiro não deixa dúvidas, desde suas primeiras cenas, de que apesar do protagonista ser um homem da cidade, a alma dessa história é o ambiente onde ela se desenrola: uma comunidade Amish no interior da Pensilvânia. Os Amish são um grupo religioso cristão conservador que formou comunidades nos Estados Unidos e no Canadá, que mantém restrições ao uso de mordomias da vida moderna. Do outro lado está o detetive John Book ( Ford, indicado ao Oscar ), um policial acostumado a responder com violência e grosseria às necessidades de seu trabalho na cidade grande. No meio disso tudo, está o pequeno Samuel, filho de Rachel. Pouco depois de perder o marido, Rachel viaja com Samuel para a casa da irmã. No meio do caminho, em uma estação de trem, Samuel acidentalmente presencia um assassinato. Investigado por Book, o caso se complica quando Samuel reconhece um condecorado policial como autor do assassinato – e quando Book descobre que seu mentor está envolvido no caso e quer eliminá-lo.

“A Testemunha” não é um filme de ação. Toda a trama envolvendo Samuel, Rachel e John é mero pretexto para Weir inserir um homem no meio de um ambiente completamente diferente. John precisa fugir com mãe e filho, e os leva para casa. Ferido, é obrigado a permanecer em meio a uma comunidade conservadora, desconfiada e fiel às suas tradições. Com seus modos bruscos, seu linguajar rude, seu humor impaciente e sua violência, torna-se um estranho no ninho, que aos poucos troca a ironia e o pouco caso com que vê os modos dos Amish pela admiração.



Inicialmente, o roteiro era centrado na personagem Rachel e o choque com que ela via seu mundo ser invadido por um estranho. Weir percebeu que poderia explorar melhor a história do ponto de vista contrário: o choque de John ao sair da cidade e entrar em um meio completamente diferente. Esse choque é lembrado constantemente durante o filme. De parte dos Amish – logo após o assassinato, a câmera mostra mãe e filho abraçados no banco em segundo plano, enquanto dezenas de policiais e flashes passam na frente deles, dando o perfeito retrato de quão pequenos eles são naquele meio hostil. Já no interior, a rotina de John é alterada pela quietude, pelos gestos de amizade – mesmo do homem que corteja Rachel e o enxerga como uma ameaça – e pela cooperação. A cena da construção do celeiro, com 3 minutos sem diálogo algum, ilustra perfeitamente esse novo mundo que John conhece e que o faz esboçar um sorriso quando todos se dirigem para suas casas.

“Eu sei o que homens maus podem fazer. Eu vi....”

Como Weir cria um ambiente de tensão ancorado em diferenças e comportamentos, reflete nas cenas de ação muito do que se aprendeu, por exemplo, com nomes como Sam Peckinpah. Apesar de economizar no sangue, o australiano focou no realismo as cenas envolvendo o fim da perseguição dos policiais corruptos pelo paradeiro de John. É uma maneira muito mais eficiente de expor, pela crueza com que a morte, os tiros e a violência são encarados, toda a diferença entre esses dois mundos.



Mas se Weir escancara a diferença de culturas, também lança habilmente o jogo de sedução silenciosa que se dá entre John e Rachel. O misto de fascinação, desejo e proibição cria uma tensão sexual em todo o filme que consegue a proeza de não se render a clichês e ser autêntico, marcado pelo suor, pela luz de velas, ampliado pela ausência do uso de maquiagem na personagem de Kelly McGillis. É atração física e repulsão tomando conta de cada cena em que os dois atuam juntos. Tão grande quanto isso somente o fato de que, para John e o pequeno Samuel, bastam olhares para que, mesmo tão diferentes, ambos se entendam e criem uma relação fraternal comovente. Ela não precisa sequer de palavras complicadas quando o filme termina – tanto para Samuel como para Rachel. Sutileza é isso, e são poucos que têm tanto domínio dela quanto Peter Weir.

2 Comentários:

  1. Pedro Henrique disse...

    Gostei do layout e do conteúdo do blog.

    Ainda não vi esse clássico...

    Vou adicionar o "O Século da Luz" por lá também.

    Abraço!!!

  2. cinerosebudd disse...

    Olá Fábio.

    sim sim, eu já havia pensado nisso tudo antes… acho que as preocupações em um filme são grandes mesmo… mas de certa forma elas tem limite sim. algumas coisas simplesmente acontecem, não por serem meticulosamente planejadas, mas as vezes invariavelmente um cineasta experiente manifesta seu inconsciente através de escolhas, decisões, tipos de cenas, tipos de cores, etc. cabe a nós encontrar algo desse tipo e exasperar o conteúdo do filme. acho isso magnífico, está no campo dos olhares e das leituras múltiplas de uma mesma obra. depende da subjetividade de cada um realmente.

    eu sempre tive um sério problema com o cirtuíto de cinema: sempre na hora da psicanálise eu saia fora e quando ficava sempre me irritava com a gigantesca explicação para tudo. é muito difícil aquilo tudo passar na cabeça de um cineasta quando faz o filme. hum… algumas coisas já vem embutidas ou automáticas. de qualquer forma, deve existir um cineasta que pense em tudo, conheço muito pouco de cinema para afirmar. deixo isso pra daqui há alguns anos, quem sabe eu descubra alguém.

    sobre o woody allen e o filme, acho realmente que ele conseguiu encontrar uma maneira de criticar alta sociedade americana sem parecer batido e sem causar frissom desnecessário. se pensarmos em termos de superpotências, a inglaterra já foi um dia uma, hoje está na mão dos americanos. como sempre isso é muito sutil e acho que você está certo, acabei de pensar nisso quando li teu comentário. acho também que, allen, por amar tanto NY, achou uma maneira de protegê-la, ao mesmo tempo que à critica ferozmente.

    li que até o fim do mês um restaurante muito famoso de NY vai fechar as portas, pois o dono não consegue mais pagar o aluguel de U$ 33 mil dólares por mês. eu tive que reler várias vezes. onde vamos parar não é mesmo? uma ilha cada vez mais exclusiva, na mão de trump, bloomberg e companhia. hipocrisia sim, mas com luxo milionário. Allen conhece sua cidade muito bem.

    com relação ao whisky, realmente eu me apaixonei, o filme é mutio bom, será ótimo revê-lo.