O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Escrito por Fábio Rockenbach

(The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford - EUA - 2007 )

Direção de Andrew Dominik, com Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Shepard, Sam Rockwell, Zooey Deschanel, Mary Louise-Parker, Ted Levine.


Existe uma tendência da cultura americana de endeusar seus contraventores. Parte desse comportamento a origem de “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, filme literalmente esculpido pelo diretor Andrew Dominik e pelo astro e produtor Brad Pitt. Planejado meticulosamente para ser uma obra-prima, mas que não consegue dar aquele último passo que separa os bons filmes dos inesquecíveis.

Billy the Kid, Bonnie & Clyde, Jesse James... são todos reconstruídos no cinema como sujeitos que desafiaram convenções e, não importa quantas pessoas mataram, se tornam mitificados pela cultura popular. Jesse James foi um fora-da-lei que cultivou a fama de Robin Hood do western. Ao lado do irmão Frank, praticou diversos assaltos nos anos de 1870 a 1880 e se transformou em celebridade. Foi retratado em inúmeras transposições de sua vida e seus feitos(?) para o cinema. E é aí que está a grande diferença da obra de Dominik: este é um filme sobre Robert Ford, o jovem de 20 anos que James acolheu em seu bando e que o matou com um tiro pelas costas, herdando o estigma de covarde. Desvendar como e porque isso aconteceu – James era um ídolo de infância de Ford, que guardava em uma caixa livros contando suas histórias – é o grande motivador do filme de Dominik. E acima de tudo, é um filme sobre medo, não apenas de Ford, mas do próprio James. Um filme sobre covardia, não apenas de Ford, mas do próprio James...

Premiado como melhor ator em Veneza pela sua interpretação do fora-da-lei, Brad Pitt está bem, interpretando um personagem melancólico - que passou os últimos anos alimentando sua aura de celebridade, no que a figura de Pitt ajuda a dar veracidade. A resignação que consegue emitir na famosa cena do assassinato é um atestado de maturidade de Pitt como ator, sem ter que apelar para os histerismos que apresentou em "Doze Macacos", por exemplo, ou "Snatch".
O que fez Ford assassinar James pode ser entendido desde os primeiros contatos com o ídolo. “É tudo mentira.” diz James a ele, quando o garoto evoca uma das muitas histórias que conhece. Sempre zoado e esnobado pelos irmãos e amigos mais velhos, é quando James passa a tratá-lo da mesma forma que ele desce do pedestal de ídolo e se iguala aos demais homens que Ford conhece, a ponto de, em determinado momento, ele justificar seus atos futuros explicando que James “é apenas mais um ser humano.” Ford anseia em se tornar mais do que um simples fã do bandido. “Você quer ser como eu, ou você quer ser eu?” pergunta Jesse a ele, logo na primeira meia hora de filme. Esse conflito se estende até o final da história dos dois. Ford entrou para a história como um covarde, mas a obra do escritor Ron Hansen mostra que, na verdade, toda a história fala de covardes e medrosos.
Nos últimos anos de vida, James, tido como uma pessoa imprevisível e temida, tornou-se, mais do que isso, obcecado por estar cercado de traidores. Perseguiu e, a seu estilo, matou um por um os membros de sua gangue. E desde o início, aprendemos que James é tão covarde quando seria seu assassino: mata impiedosamente um homem desarmado durante um assalto de trem e atira pelas costas nos ex-colegas de bando. Até um dos policiais federais que caçavam o bandido adverte Ford, em determinado momento, a “não dar as costas a ele.” Foram, em parte, o medo e a desconfiança que infestaram as relações do bandido e levaram seu maior ídolo a matá-lo – James mesmo sabia desse clima de insegurança. Tratava a si mesmo em terceira pessoa e não pensava duas vezes antes de dizer que “não há paz com Jesse por perto.”

Se todos sabemos como será o final do filme, seja pela história como pelo título, o grande desafio é manter a atenção do público. Pelos atores, essa atenção é garantida – principalmente Affleck, indicado ao Oscar, que personifica admiravelmente a insegurança, adoração e covardia de Ford, incluindo no pacote um sotaque empregado sem escorregões ao longo da projeção. A fotografia de Roger Deakins é especialmente belíssima, retirando o tom de areia do western e trabalhando em grandes planos uma mescla de tons pastéis que criam uma atmosfera nostálgica no filme. Mas na busca por compreender motivos, trabalha as motivações de todos os que cercam o bandido e acaba se estendendo mais do que precisaria. Longos planos contemplativos, cortes abruptos e uma atenção exagerada a personagens secundários comprometem o ritmo da narrativa. A trilha sonora, por vezes, intromete-se em momentos onde ela seria dispensável. E para completar, temos Mary Louise-Parker amargando o pior aproveitamento de seu talento já visto até hoje, como a mulher de James, reduzida a pouquíssimas falas.

Se o diretor perde-se ao tentar transformar seu filme em um épico inesquecível ele também encontra tempo para homenagear um clássico, “Rastros de Ódio”, em dois momentos que reproduzem a iluminação, movimento e angulação da famosa cena da abertura da porta do rancho, no começo do filme de 1956. Os últimos 20 minutos são notáveis ( a começar pela cena do assassinato ) seja pela transformação vista no personagem Robert Ford ( e conseqüentemente da confirmação do ator Casey Affleck ) como pela ritmo, pela montagem e pelo acerto ( aí sim ) da trilha sonora. Quando fala sobre a morte, James brada que “Não se importa em morrer quem já deu uma espiada no outro lado”. Clint Eastwood já fez seu próprio revisionismo ao western sem tamanha pretensão e resultados melhores em "Os Imperdoáveis", mas isso não quer dizer que não valha a viagem. Basta ter em mente que não está diante de um mero faroeste ou de um filme sobre Jesse James, e sim sobre um drama e um filme sobre medo e covardia... sentimentos bem humanos.