40 Filmes para os Anos 80

Escrito por Fábio Rockenbach

Primeira parte

A idéia surgiu em um fórum: quais os melhores filmes de cada década? Reunir 20 títulos que representam, em uma opinião pessoal, o melhor do cinema em cada década é um exercício tanto prazeroso como dolorido: afinal, alguém tem que ficar de fora. Como fui formado pela paixão dos filmes da década de 80, decidi começar por ela, e logo acabei fazendo uma exceção: para os anos 80, vou escolher 40, unicamente por nostalgia. Pro inferno se acham que vou deixar de perder a chance de mencionar alguns dos filmes que me ensinaram a ser um cinéfilo.
Alguns dos 20 primeiros: Os Eleitos, Touro Indomável, Conta Comigo, Bom Dia Babilônia, Uma Janela para o Amor, Os Intocáveis, Os Caçadores da Arca Perdida, Um Tiro na Noite... e por aí vai.

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA
( Raiders of the Lost ark ) - 1981 - de Steven Spielberg
O filme de aventuras perfeito, a síntese dos anos 80 e da aura de criador de magia que Spielberg ostentou durante aqueles 10 anos. Spielberg e Lucas recuperaram os seriados de aventura que viam antes das sessóes principais de matinê quando crianças. Jogaram um personagem carismático em meio a cenários como selvas, templos abandonados, areia, ilhas, em busca de tesouros arqueológicos - após o prólogo, a busca é pela Arca da Aliança. Acrescente a isso um herói falível, que se rasga, sangra, se corta e é até desengonçado, uma marcha contagiante na trilga sonora e ação incessante e se tem a criação do mais famoso personagem de aventura do cinema. Uma geração inteira conhece o filme de trás para frente, mas atente que muitas pessoas da geração mais jovem não conhecem Indiana Jones: já não olham mais TV aberta, onde o filme raramente tem passado, e nas locadoras costumam atentar mais à sessão de lançamentos. Ou seja: já virou um clássico nas prateleiras que muita gente ainda precisa descobrir.

OS ELEITOS
( The Right Stuff ) - 1983 - De Phillip Kaufman
Eleito um dos melhores filmes dos anos 80 pela crítica, esse filmaço de três horas de duração ainda é desconhecido do grande público. É um desfile extremamente hábil de ironia e humor sutil pontuado com melancolia e tristeza. Narra a história da corrida espacial norte-americana - e como os americanos corriam atrás dos soviéticos - vista em duas etapas: primeiro pelos solitários e desconhecidos pilotos que arriscavam as vidas nos avióes de testes para romper a barreira do som, e depois pelos sete astronautas do projeto Mercury, que iniciou as viagens espaciais tripuladas. Nomes como Sam Sheppard, Scott Glenn, Fred Ward, Ed Harris, Lance Henriksen e Dennis Quaid dão as caras em um filme essencial, também um retrato de época e uma homenagem aos heróis desconhecidos, que buscavam encarar frente a frente o "demônio que vivia no ar." e teriam um dia sua foto na parede de um bar no deserto, mesmo que para conseguir a honra fosse preciso morrer.

TOURO INDOMÁVEL
( Raging Bull ) - 1980 - De Martin Scorsese
Touro Indomável hoje tem uma conotação diferente quando se assiste a ele com uma informação extra: mergulhado na depressão, Martin Scorsese achava que este seria seu último filme. Derramou nele muito de suas próprias frustrações e sentimentos. A biografia de Jake La Mota ganhou ares trágicos. Acompanhamos sua trajetória completa, da ascensão à queda, até sua tentativa de extirpar de si mesmo seu próprio eu dentro do ringue. As cenas de luta soam artificiais, mas o filme, em preto e branco, está longe disso.

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA
( Star Wars V - The Empire Strikes Back) - 1980 - De Irvin Kershner
O filme perfeito da série que mais influenciou o cinema moderno. Felizmente, não tivemos George Lucas na direção, mas um diretor que se preocupou em desenvolver os personagens. O resultado é uma tragédia grega ambientada no espaço. Ação perfeita, grandes efeitos visuais e a devida atenção aos atores resultou em um dos filmes mais vistos na história do cinema. "O Império contra-Ataca"reafirmou a franquia Star Wars, definiu seus personagens na cultura popular dos anos 80 e foi o pontapé inicial para que todos soubessem que, daquele ano em diante, não haveria mais limites para os efeitos visuais no cinema.

CINEMA PARADISO
( Nuovo Cinema Paradiso ) - 1989 - De Giuseppe Tornatore
A maior prova de amor do cinema pelo cinema. Toto se tornou um símbolo da paixão pelo cinema, pela sala escura, pelo ritual esquecido de juntar famílias inteiras para a sessão semanal. De levar e buscar rolos de filmes de cidade a cidade, de pegar na mão os negativos e sonhar que um dia a vida pode ser como um filme. Essa declaração de amor de Tornatore não envelhece porque ela fala de um tema que é sempre atual: a saudade de um tempo em que tudo parecia mais simples e fácil de se apaixonar. Para se emocionar em cada vez que se (re)ver.

BOM DIA BABILÔNIA
( Good Morning Babylon ) - 1984 - Dos irmãos Taviani
Apesar de ser menos badalado do que A Noite de São Lourenço, esse Bom Dia Babilônia me tem muito valor por falar diretamente sobre cinema e sua história. Traz como protagonistas dois irmãos que chegam à América na primeira década do século XX para trabalhar e acabam fazendo parte da equipe que está criando os cenários para o clássico "Intolerância"de Griffith. Foi aqui que pela primeira vez ouvi menção ao criador da gramática do cinema. A partir daí, fui atrás, me informei e comecei a ler mais sobre a história da sétima arte. O filme doi um desencadeador. Nunca mais assisti, mas já na primeira vez teve um efeito poderoso.


SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS
( Dead Poets Society ) - 1989 - De Peter Weir
Depois que Peter Weir lançoou "Sociedade..." muitos filmes beberam da mesma fonte, sem a mesma eficiência. Ao utilizar como cenário uma conservadora faculdade inglesa na metade do século, Weir teve o ambiente perfeito para versar sobre os freios da repressão, a liberdade de pensamento, o livre arbítrio e o poder da poesia, da criatividade, de expandir suas idéias. A cena final é simplesmente uma cena para hoje e sempre na história do cinema.

CONTA COMIGO
( Stand by Me ) - 1986 - De Rob Reiner
Nostalgia é o outro nome de Conta Comigo. Quem nunca parou, quando adulto, e relembrou os bons tempos de infância, as aventuras e os amigos que perdeu pelo caminho? Quem chegou a botar o pé na terra, subir árvores e acampar à noite tem mais identificação ainda com esse conto tocante do mestre do terror Stephen King, que sai do seu terreno habitual - mas mantém toques muito pessoais. Quatro amigos nos anos 50 decidem ir atrás do corpo de um garoto, atropelado por um trem, a quilômetros de distância da pequena cidade onde moram. Na trajetória, uma típica história de amizade que só King parece ser capaz de contar recuperando elementos que parecem ser comuns a todos nós.

O CAMPO DOS SONHOS
( Field of Dreams ) - 1989 - de Phil Alden Robinson
Pauline Kael dizia que parecia haver uma voz saindo de cada quadro do filme de Robinson. Algo no ar, que atrai o público e o prende à tela. É de fato um filme poético, que fala de alimentar, dar vida e aproveitar sonhos, e sobretudo de redimir-se com seu passado e seus demônios interiores. No encontro entre pai e filho, é difícil não se emocionar se quem estiver assistindo já tiver sido fisgado pela voz própria que o filme tem. E sem ser apelativo, apenas nostálgico.

UMA JANELA PARA O AMOR
( A Room With a View ) - 1985 - De James Ivory
Essa pequena jóia romântica é pouco conhecida de grande parte do público. Foi indicada a vários oscars ( inclusive melhor filme ) em 1985. Adaptação de um romance de EM Forster sobre uma jovem da alta sociedade inglesa que se apaixona por um jovem liberal. Romance de época lento, calcado na bela fotografia, nos atores - Daniel Day Lewis e Helena Bonham Carter entre eles - e sobretudo no roteiro. Me preparou para o estilo de cinema lento de Ivory, que ainda traria duas grandes obras no futuro: Vestígios do Dia e Retorno a Howards End.

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
( Somewhere in time ) - 1980 - de Jeannot Szwarc
Dificilmente estará em listas dos melhores da década, mas facilmente se achará sites e fã-clubes destinados a esse pequeno filme romântico que encanta gerações. É baseado em um livro de Richard Matheson ( o mesmo escritor de "Eu Sou a Lenda") e conta a história de um escritor teatral que se apaixona por uma atriz que viveu no começo do século e volta no tempo para encontrá-la. Usa de forma bucólica as paisagens do Grand Hotel - que se tornou famosíssimo com o filme - e tem uma trilha sonora magistral de John Barry, que usa até temas prontos, como Rachmaninoff. É talvez o único filme que tenha marcado Christopher Reeve fora da série Superman, e a mais marcante aparição de uma linda Jane Seymour.

OS INTOCÁVEIS
( The Untouchables ) - 1987 - de Brian DePalma
Os Intocáveis "cheira" à década de 30. A arquitetura de Chicago, de Sullivan e Frank Lloyd Wright está em cada imagem desta adaptação de uma série de sucesso nos anos 60, por sua vez baseada em uma história popular que correu o século nos Estados Unidos. Brian DePalma contou com um elenco raro - Sean Connery, Kevin Costner, Andy Garcia, Robert DeNiro - e recriou a caçada de Elliot Nesse e seus homens ao gângster Al Capone. Todos, sem exceção estão à vontade em seus papéis, incluindo DePalma, que fez uma das melhores cenas do cinema ao homenagear outra, a cena da escadaria de Odessa de "O Encouraçado Potemkim". Aqui, uma aula de montagem e uso da câmera lenta. Quer mais? o filme não seria o mesmo sem a trilha de Ennio Morricone. Ou seja? estava tudo no lugar certo.


AMADEUS
(Amadeus) - 1984 - De Milos Formam
Comparado a "Um Estranho no Ninho" este vencedor de inúmeros Oscars é um filme de linguagem simples, mas impecável. Náo vou mencionar o figurino, cenografia, reconstituição de época magistrais. Milos Formam é um contador de histórias exemplar - fez o mesmo com O Povo Contra Larry Flint e Valmont - e, do início ao fim, Amadeus exala uma aura de suntuosidade. E poucas vezes a música foi tão bem aproveitada em um filme.

UM TIRO NA NOITE
( Blow Out ) - 1981 - de Brian DePalma
No começo dos anos 80, Brian DePalma foi chamado de o novo Hitchcok. Pudera: em três anos ele lançou três obras primas. Essea "Um Tiro na Noite"é o menos badalado dos três ( os outros dois são Dublê de Corpo e Vestida para Matar ) mas é meu preferido, talvez por ser uma homenagem direta ao cinema ( e ao clássico Blow Up, de Antonioni ). John Travolta é um técnico de sonoplastia que sai uma noite para captar novos sons para um filme, mas acaba gravando um acidente de carro que, ele logo descobre, não foi propriamente um acidente. Como Hitchcok faria, ele acaba sendo o sujeito comum envolvido em algo muito maior. A sequência final sob os fogos de artifício é inesquecível.

O NOME DA ROSA
( The name of the Rose ) - 1986 - De Jacques Annaud
Adaptação perfeita do best-seller numa típica história de investigação ambientada em um cenário gótico e sujo. Sou fascinado pela Idade Média, e ter Sean Connery e F. Murray Abrahams duelando em cena não faz mal a filme algum. Para completar, Annaud é um dos mais competentes diretores off-hollywood dos anos 80. A frase promocional do filme ainda me é familiar: “Eles acreditavam em Deus, mas pactuavam com o Diabo.”

DE VOLTA PARA O FUTURO
( Back to the Future ) - 1985 - De Robert Zemeckis
Entretenimento perfeito de uma época em que a menção de Steven Spielberg na direção ou na produção significava algo mágico, intocável ( Em dois anos, Spielberg lançou como diretor ou produtor o segundo filme de Indiana Jones, Os Goonies, Gremlins, O Enigma da Pirâmide e este sucesso ). O ritmo de "De Volta para o Futuro"combinou com a explosão de uma geração jovem que estava se descobrindo diferente da geração anterior: tênis de cano longo, calça jeans, rock, skates, óculos escuros, carrões... o curioso: é envolvente ainda hoje, característica que só os grandes filmes têm... Os dois últimos filmes não têm a magia do primeiro, mas são viciantes e complementam de forma perfeita uma trilogia que marcou época.

O FEITIÇO DE ÁQUILA
( Ladyhawke ) - 1986 - De Richard Donner
A trilha sonora com batidas eletrônicas pode não ter nada a ver com a época, mas estranhamente dá um charme extra a essa história que muita gente achou ter sido baseada em uma lenda medieval. Não foi, ela foi criada, mas é inesquecível. Durante o dia, Isabeau transforma-se num falcão, e à noite, Navarre vira um lobo. Estão sempre juntos, mas eternamente separados. Para completar, se passa em uma época que eu particularmente sou fascinado, no cinema e na literatura. Quer mais? Tem a mais bela fala da história do cinema: "Você é carne ou é espírito" "Eu sou tristeza..."

O ILUMINADO
( The Shinning ) - 1981 - De Stanley Kubrick
O filme que definiu na minha mente - e acredito que na dele mesmo - o histerismo e as caretas de Jack Nicholson. A cena mais famosa desse conto de fantasmas de Stephen King - que ganhou um toque muito pessoal de Kubrick - é quando Johnny arrebenta a machado a porta do banheiro onde a mulher se esconde. Para mim, assustador mesmo foram as gêmeas no corredor ou o garoto, com a faca na mão, repetindo histericamente "redrum, redrum, redrum..."

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
( Once Upon a Time in America ) - 1983 - De Sergio Leone
Foi o primeiro grande filme de gângsters que vi -como todos os demais, pela televisão. Leone dá sua visão para a formação da máfia judaica em Nova Yorque com a mesma melancolia com que retratou o western em "Era uma vez no Oeste". Curiosamente, sempre preferi a primeira parte, com os personagens ainda crianças, à metade final, onde DeNiro, James Woods e outros tomam conta das telas - talvez porque quem abrilhanta a primeira parte seja a beleza de Jennifer Connelly, ainda pré-adolescente.

NÃO AMARÁS
( Krotki Film o Milosci) - 1988 - De Krzysztof Kieslowski
Esta versão estendida de um dos pequenos filmes da série Decálogo, de Kieslowski, surgiu para mim durante uma daquelas exibições de filmes de arte que a Band costuma(va) fazer aos domingos à noite. Na verdade, não conheci os outros filmes, com exceção de "Não Matarás". O mestre polonês traz sua interpretação moderna dos dez mandamentos bíblicos. O título original, "Um Pequeno Filme sobre o Amor" dá a dimensão desta pequena obra prima de pouco mais de 90 minutos sobre um jovem de 19 anos que observa e se apaixona pela sua vizinha, bem mais velha, e faz de tudo para seus caminhos se cruzarem.