Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Escrito por Fábio Rockenbach

(Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street. - EUA - 2008 )
Direção de Tim Burton, com Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Alan Rickman


Ame Tim Burton, ou odeie, e nesse caso, passe longe dele. Se ficar no meio termo, no mínimo, ele afetará você de alguma maneira. “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” não é apenas a representação visual perfeita do universo gótico em que o diretor parece habitar ( e só sair, de tempos em tempos, para dirigir seus filmes ). Seu novo filme parece ser o ponto culminante de uma estética sombria que vinha sendo ensaiada em todos os seus filmes, até chegar o momento em que o diretor, captando o que melhor aprendeu em suas tentativas anteriores, conseguiu reunir e apresentar em um único quadro. O quadro, no caso, é pincelado por poucas cores, mas manchado de vermelho.Sexta parceria entre Burton e seu alter-ego, Johnny Depp, “Sweeney Todd” certamente vai dividir opiniões.

Baseado no musical da Broadway de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler, a partir de uma adaptação feita por Christopher Bond e roteirizado pelo mesmo John Logan de “O Aviador”, “Sweeney Todd” narra a história – altamente popular na Inglaterra – de um jovem barbeiro ( Johnny Depp ) que é enganado pelo ambicioso juiz Turpin ( Alan Rickman ) que deseja sua esposa. Injustamente acusado de um crime e enviado para o exílio, ele retorna anos depois ansioso por uma vingança que se torna seu único objetivo de vida quando ele descobre que sua esposa morreu e seu algoz mantém prisioneira sua filha, agora uma adolescente. Derrotado pela desesperança com todos os seres humanos, transforma sua barbearia num cenário de horrores – e faz da Sra. Lovett ( Helena Bonham-Carter ), sua senhoria, a comparsa perfeita, que usa a carne de suas vítimas para fazer tortas que são um sucesso na cidade.Como em outras ocasiões, Burton não faz filmes de terror: eles os mascara, e habilmente. Já havia feito isso em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “A Noiva Cadáver”, e o uso da música tem sido um flerte constante na carreira do realizador. E esse talvez seja um dos poréns para que “Sweeney Todd” consiga driblar a resistência de grande parte do público: seu filme é um híbrido, um musical que usa do exagero em certos momentos para minimizar aspectos mais fortes da projeção – e que podem chocar quem não está preparado – mas que, concebido assim, funciona muito bem. As músicas, longe de buscarem captar o público, mas ávidas por contar a história, são perfeitas para quem, a rigor, não tem talento vocal. Depp nesse sentido de sai maravilhosamente bem, enquanto Helena Bonham Carter mostra um talento vocal que carrega as cenas dos duetos com seu companheiro de cena. O virtuosismo visual de Burton não apenas imerge a platéia no cenário gótico e sombrio que se tornou a vida de Todd, mas também serve para valorizar o choque provocado pelo sangue, quando ele jorra na tela – artificial mesmo, mais uma vez para não cruzar a fronteira que separa o filme de uma história de terror. Essa Londres só é colorida nas lembranças distantes de Todd. Mesmo sem criar um laço emocional maior do público com seus personagens, essa representação do mundo doentio que o diretor parece habitar, magistralmente criado pelo veterano Dante Ferreti, é mais uma vez o grande astro do filme.
Infelizmente, “Sweeney Todd” tem seus defeitos, e eles respondem por dois personagens que pertencem à sub-trama que parece concebida para amenizar o show de escuridão, sujeira e mortes. O filme só funciona quando Depp está em cena – quando se desvia para a história dos dois jovens amantes, quebra-se o ritmo e diminui o interesse, por mais que, indiretamente, eles sejam importantes à história. Prova maior disso é que, ao final do filme, ambos se tornam completamente dispensáveis e somem de cena. Além disso, algumas cenas que chocam quando acontecem na primeira vez são de tal forma repetidas que acabam se tornando repetitivas, perdendo seu impacto – o que talvez fosse a intenção do diretor, para não distrair a atenção do público do seu personagem e suas motivações.
“Sweeney Todd” se tornou um dos queridinhos da crítica americana, mas com exceção da indicação ao Oscar de Depp para melhor ator o filme só somou duas indicações técnicas: melhor direção de arte e figurino. A academia não está preparada para o banho de sangue do mundo gótico de Burton. Muitas pessoas, aliás, talvez não estejam prontas para encarar um musical navegando em águas vermelhas. Os amantes do diretor vão se esbaldar, e os indiferentes não conseguirão ficar alheios. Os detratores? Bom, esses podem passar longe… a navalha de Todd é afiada.