Onde os Fracos não têm Vez

Escrito por Fábio Rockenbach

(No Country For Old Men - EUA - 2007 )
Direção de Joel e Ethan Coen, com Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Javier Bardem, Woody Harrelson,


Como fazia falta ver o melhor do cinema dos irmãos Coen. Na obra de Joel e Ethan, os dois irmãos de Minneapolis que construíram carreira marcante no cinema americano desde 1984, existem basicamente dois tipos de filmes. A crítica se desmancha por qualquer dos estilos, eu sou, pessoalmente, mais reticente. Os Coen percorrem os caminhos distintos da comédia e de um estilo de filme que não tem, propriamente, uma classificação. Mas é esse estilo, que invariavelmente vai trazer o mais comum ( e o pior ) do ser humano que guarda, também as melhores mostras do talento dos irmãos. Não que as comédias sejam comuns. Longe disso. “ Roda da Fortuna”, “Arizona Nunca Mais”, “O Grande Lebowski” e “O Brother Were Art Thou?”não podem ser consideradas padrão na cinematografia americana. São ácidas, inteligentes, ágeis, críticas e muito, mas muito cínicas. Mas é quando resolvem simplesmente contar uma história sem se preocuparem com o riso que os irmãos oferecem o melhor de seu talento para a história do cinema. Foi assim com sua estréia, o impactante “Gosto de Sangue”. Foi assim com “Fargo”, que era o melhor dos seus filmes. É assim com “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que traz nos homens das modernas pradarias americanas – e hotéis de beira de estrada – os substitutos da caipira de Fargo no posto de grande filme da carreira dos irmãos.

Como a maior parte dos filmes dos dois, “Onde os Fracos Não Têm Vez” não é um filme fácil ao público “mainstream”. É uma releitura que pode criar um novo parâmetro para um gênero que parecia não ter inovações. Ao trazer para as paisagens desérticas dos Estados Unidos a mitologia do western, os Coen mostram que, se mudaram os tempos e os personagens, pouco mudou nas motivações. O ser humano ainda é um selvagem. Lutar contra esse sentimento é inútil, apesar de nobre. A paisagem árida das pradarias, o ambiente dos hotéis de beira de estrada, as “rotas 66” que cruzam esse ambiente árido e, principalmente, as motivações de quem vive ( e sobrevive ) nesse ambiente não foi feito para quem ainda vive nos velhos tempos. É disso que trata o título original. “Sem nação para velhos”( ou algo no sentido ) diz respeito diretamente ao personagem interpretado por um ainda ótimo Tommy Lee Jones. É no diálogo final que se entende isso, mas é uma constatação que vai sendo contruída desde sua primeira aparição... desde as primeiras falas do filme. “Gosto de ouvir sobre os velhos tempos...” O título nacional não resume esse sentimento... os velhos representados por Jones não são fracos, mas mesmo fora de contexto, o título nacional não ficou de todo mal... pelo menos, seu sentido não é mentiroso. Os fracos também não têm vez nesse cenário. Os fracos simplesmente imploram, ou argumentam. Os fortes desse ambiente árido não pensam duas vezes. Os fracos dizem “Você não precisa fazer isso.”Os fortes respondem de forma seca. “Isso é o que todos dizem...”
Jones é um xerife de uma cidade pequena no Texas, cuja trajetória durante o filme se confunde com a do típico texano interpretado por Josh Brolin ( crescendo na cotação americana depois de deixar o bigode crescer e ficar com cara de Nick Nolte ) e do matador profissional Javier Bardem, o dono do filme. Como o assassino Anton Chigurh, ele cria um personagem antológico – uma personalidade doentia, de frases curtas, desconcertantes, olhar perdido e um cilindro de ar comprimido (!!!). Seu diálogo com o dono de um armazém de beira de estrada é genial, simples, desconcertante e tenso ao extremo. O que une esses três personagens, assim como nos antigos faroestes, é o que menos importa: a busca por 2 milhões de dólares que o caçador texano de Brolin encontrou ao dar de cara com o cenário desolado de uma negociação fracassada de venda de drogas. O que mais importa aos Coen é ter as motivações necessárias para exporem seus demônios. Dão ao cinema a prova de que essas motivações podem ser modernizadas e criar um novo gênero, o western moderno.
Como a narrativa é o que importa, a música praticamente inexiste. É o público contemplando os personagens traçando seus destinos. Como o ambiente tem tanta importância quanto os personagens que nele habitam, os longos planos abertos típicos dos diretores estão presentes. Como na realidade dos Coen a vida não é um mar de rosas, as pendências não precisarão, necessariamente, ser resolvidas. A vida é assim, o cinema dos Coen também. Quem se dispõe a acompanhar uma história – e não a querer contá-la num ciclo fechado onde tudo se resolve - terá uma bela experiência... a melhor da carreira dos irmãos. É cinema para os fortes...

1 Comentários:

  1. carlos disse...

    Muito boa análise do filme... vi o filme na época de lançamento e li algumas críticas logo após, mas a sua ficou muito bem explicada.

    Parabéns...