O Orfanato

Escrito por Fábio Rockenbach

(The Orphanage - Mexico/Espanha - 2007 )
Direção de Juan Antonio Bayona, com Belen Rueda, Fernando Cayo, Roger Princep, Montserrat Carulla.


Guillermo del Toro foi um dos responsáveis pela mais assustadora expoente dos filmes de terror dos últimos anos com um filme que muitos desconhecem, "A Espinha do Diabo". O mundo conheceu com ele a definição do terror latino, onde é imprescindível o papel da criança em toda a simbologia de um bom filme de terror. E, sempre, usando como tema o sobrenatural, o mundo que nós não vemos, espíritos, fantasmas... O tema já foi recuperado de forma notável em "Os Outros" e talvez esteja aí o grande problema dessa "safra": depois que se alcança o topo a tendência é cair. Menos mal que o mais recente representante desta leva não faz feio. "O Orfanato", produzido por Del Toro, pode não ter a competência de "Os Outros", mas dá um banho em tudo que orientais e americanos têm tentado fazer nos últimos anos.

Se há algo a se admirar nos filmes de terror latinos é o fato deles simplesmente nos conduzirem por uma história de fantasmas, e neste universo permanecer. Não se busca explicações naturais para fenômenos paranormais, e aceitando isso, não busca nos assustar de forma visual e explícita: brinca com nossos nervos, traz sustos em doses calculadas e permite que o ambiente nos envolva na história. O ambiente é, assim, um dos principais aliados em todo o clima que se forma ao redor dos personagens e que nos transporta para dentro da história. Não por acaso, "A Espinha do Diabo", "Os Outros" e "O Orfanato" falam de fantasmas, bem reais, têm crianças como personagens cruciais e se passam em lugares assombrados: um antigo convento, uma antiga mansão na segunda guerra mundial e um velho orfanato.
"O Orfanato" traz Belen Rueda ( Mar Adentro ) como Laura, uma mulher que volta, anos mais tarde, ao Orfanato onde cresceu, desta vez casada e com um filho. Aos poucos, fatos estranhos começam a acontecer, e seu filho Símon passa a falar sobre 6 novos amigos imaginários que andam pela casa. A imaginação do filho parece criar jogos de esconde-esconde com pertences pessoais, mas a situação torna-se caótica quando, depois de uma discussão, Sìmon desaparece, e Laura começa a vivenciar situações que a fazem começar a acreditar que os amigos imaginários de Sìmon existem, e estão soltos na casa.
A partir deste momento, "O Orfanato" bebe na fonte de "Poltergeist": uma equipe de médiuns chega ao Orfanato para tentar encontrar a criança, e uma série de clichês se repete - principalmente o marido cético, não importa quantas situações estranhas ele vivencie. Mas o grande mérito do filme dirigido pelo estreante Juan Bayona é não se deixar sucumbir por esses clichês, mas utilizá-los de maneira primorosa. Claro que a ambientação, cenografia e fotografia ajudam na verossimilhança da história, mas são truques do diretor que tornam "O Orfanato" uma experiência assustadora em determinados momentos: ao optar por esconder os fantasmas ou medos dos olhos do público, mas não dos personagens - como na cena da médium andando pela casa - o diretor afirma que o desconhecido causa mais medo do que o visual. E ao apelar para jogos de câmera e encenações sutis, como no jogo de "bate na parede", ele causa arrepios. ( o inocente jogo surge logo no início do filme, e não por acaso, será muito bem usado por Bayona mais adiante ).
"O Orfanato" tem alguns problemas de ritmo, personagens não devidamente explicados, como a velha assistente social - que tem sua origem explicada, mas não seus propósitos - e alguns pequenos furos na história que não comprometem o principal: usando o velho subterfúgio de velhas casas assombradas, e mostrando que o talento e a sugestão funcionam muito mais do que monstros e efeitos, Bayona e Del Toro apontam novos rumos para o bom filme de terror. O lado bom é que Hollywood não parece muito propensa a copiar o estilo - ou falta-lhe competência.
Não chega a ter a genialidade de "Os Outros", de Amenábar, mas é uma história de fantasmas digna e arrepiante...
Curiosidade: atente as participações de Geraldine Chaplin como a médium e de Edgar Vivar, o "seu Barriga" do Chaves.