( EUA, 1991 )
Direção de Ridley Scott, com Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Brad Pitt
Sempre sinto como se o coração viesse à boca, um soco no estômago. Não importa quantas vezes eu veja, não importa que eu conheça a cena de trás para frente, nem que eu veja apenas ela, sem ter visto um filme inteiro antes de tudo acontecer. Nada disso importa. Toda a cena é perfeita, desde a montagem até os pequenos detalhes, os cortes feitos na hora exata, a câmera congelando no momento perfeito, o casamento sublime com a música, e aí não tem jeito, acontece tudo de novo: o coração na boca, o soco no estômago, o arrepio na nuca. Se fosse fazer uma lista dos filmes que gostaria de ter feito se fosse cineasta, e que gostaria de deixar como legado, “Thelma e Louise” seria um deles. Se fosse escolher uma cena que gostaria de ter assinado, é justamente os últimos 1:26 minutos desta história que muitos consideram feminista em excesso.
Quando o roteiro da ex-garçonete Callie Khouri começou a ser adaptado para o cinema, no começo dos anos 90, os papéis principais de “Thelma & Louise” foram disputados a tapa pelas maiores atrizes do mundo. Eram o papel dos sonhos de qualquer atriz. Scott sabia que nas mãos erradas essa história não daria certo. Não importa o quanto ele aplicasse de seu talento na condução dessa história, a riqueza do roteiro de Khouri não seria transcrita pela beleza visual, nem pelo peso das imagens pura e simplesmente, mas pelo talento das duas mulheres que abraçassem a tarefa de dar vida a uma história que resume uma trama clássica americana, e um bordão até vencido, o da busca por liberdade, em todos os sentidos. Há quem considere “Thelma & Louise” um filme excessivamente feminista. Eu considero um desabafo. Foi escrito por uma mulher buscando um desabafo. Foi abraçado como um desabafo e vendido como uma busca engrandecedora pela liberdade, mesmo que ela venha através da queda de tudo o que simbolizava a prisão: as autoridades, o chauvinismo, as regras, o controle.
“Thelma & Louise” é um dos melhores filmes dos anos 90, um hino à liberdade, às mulheres, à amizade, ao destino, ao foda-se o mundo." “Thelma & Louise” é um dos melhores filmes dos anos 90, um hino à liberdade, às mulheres, à amizade, ao destino, ao foda-se o mundo. É um road-movie dos melhores que o cinema já viu. É uma história de amizade das melhores que o cinema já construiu. O beijo entre as duas na cena final nunca foi motivo de polêmica porque tudo o que cerca ele é o que restou das duas horas anteriores de projeção ainda bem vivas na mente da platéia. Quando chega esse momento, é Thelma quem diz o que fazer, e não Louise, como acontecia na maior parte do filme. Quando ela diz “Let’s keep going”, é a tradução poética do “foda-se tudo”. É a escolha pelo caminho mais difícil, mas o mais libertador. É aquele solo de guitarra, a câmera lenta, a corrida desesperada, as mãos dadas, uma foto voando ao vento, rostos cheios de poeira, um cheiro de liberdade.De novo. O soco no estômago, a tremedeira nos ombros, o coração na boca. Só veja o vídeo abaixo se já tiver visto o filme
Claro, há uma história por trás de toda esse parágrafo edificante: uma garçonete, Louise (Susan Sarandon), convida a melhor amiga, Thelma ( Geena Davis ) para uma viagem no final de semana, sozinhas. É a maneira de Louise exercitar sua independência e, principalmente, de tirar a amiga das garras do marido preconceituoso, estúpido e mandão, nem que seja apenas por alguns dias, nem que seja às escondidas. Um problema inesperado em um bar de beira de estrada as transforma em fugitivas da polícia. Estado após estado, a situação delas se agrava à medida que crimes vão surgindo na cola das duas e de seu Thunderbird 66 conversível. Um experiente investigador ( Harvey Keitel ) segue o rastro delas, ciente de que algo não está bem explicado nessa história, principalmente os motivos.
A amizade entre as amigas é o grande elo que conecta o público ao que acontece na tela. Ele é palpável, graças à duas esplêndidas interpretações ( ambas indicadas ao Oscar ) de Sarandon e Davis. Enquanto a segunda consegue ser verossímil ao dar vida a uma mulher assustada e ingênua, mas que descobre-se ao se ver livre de rédeas, Sarandon domina o filme de forma contida e sempre firme como Louise, uma personagem que não muda sua maneira de ver o mundo ao longo da história, apenas torna-se a base, para o bem ou para o mal, de todas as decisões que levam as amigas a atravessarem o país. O feminismo declarado por alguns está, por exemplo, no estereotipado marido de Thelma, que além de machista é mostrado como estúpido. Os homens que atravessam o caminho das duas, sem exceção, são repletos de defeitos. Brad Pitt, por exemplo, disfarça o mau-caráter num aparente espírito brincalhão que conquista a ingênua Thelma. Já o namorado de Louise, o único que não aparenta problemas de conduta, é mostrado como subserviente à ela – o homem bom é aquele que não se mete e está lá quando a gente precisa. É isso mesmo? A mensagem é tão rasa assim? Se fosse tão rasa, porque o policial que as persegue parece ser o único com sentimento de culpa, o único que realmente se preocupa com o destino delas?
Aliás, existe mensagem, ou Khouri queria simplesmente extravasar o possível desapontamento com o mundo masculino que cruzou na sua frente inúmeras vezes, inúmeras noites, repletas de bêbados de beira de estrada? É preciso sempre procurar um sentido maior para uma frase, um ato ou um roteiro, como se ele sempre fosse deliberadamente preparado para passar uma mensagem?
De arrepiar.
Um filme de enorme dinâmica, que consegue cativar logo desde o início. Belas interpretações do duo feminino protagonista.
8/10.
Abraço.
Poxa, ainda não assisti a nenhum filme que postou aqui!! Mas gostei desse aí, vou anotá-lo pra alugar!
Passava direto na tv, faz tempo que não vejo e, sempre quando o via, era dublado, não gosto disso. Mas o filme é bom ainda assim.
Abraço, amigo!
FABULOSO! Um filme com drama, comédia e lições.