Agonia e Êxtase

Escrito por Fábio Rockenbach

( The Agony and the Ecstasy, EUA, 1965 )
Direção de Carol Reed, com Charlton Heston, Rex Harrison, Diane Cilento, Harry Andrews, Alberto Lupo, Adolfo Celi

''Quando você vai terminar este trabaho?''

Preciso confessar que, de Carol Reed, conheço apenas “O Terceiro Homem” e este “Agonia e Êxtase”. Obras como Oliver, Ídolo Caído e A Chave são um mistério. É difícil, então, querer fazer uma comparação desta biografia romantizada de Michelângelo com outros filmes da obra do britânico, e extremamente injusto. Aliás, seria injusto comparar “O Terceiro Homem” com filmes de vários diretores. A história de Harry Lime em Viena é uma tour de force para qualquer carreira. Mas, sendo minha única referência, “Agonia e Êxtase” acaba se tornando uma obra pálida não pelo seu resultado final, mas pelo que se espera que Carol Reed possa fazer.

“Agonia e Êxtase” é um típico produto do cinema americano da metade do século, que transformou até mesmo Moisés em ídolo pop. Baseia-se no romance de Irving Stone sobre os bastidores da pintura da Capela Sistina, na relação entre Michelângelo (Charlton Heston) e o papa Júlio II (Rex Harrison), e tenta lançar alguma luz ao tornar um dos mais famosos gênios da arte na história humana em um ser mais próximo do espectador, com seus conflitos e defeitos. E é aí que acaba descobrindo-se o calcanhar de Aquiles da história – como não li a obra de Stone, é difícil dizer se o problema foi o livro ou o roteiro de Phillip Dunne ( Como Era Verde meu Vale ). Opta-se por privilegiar os conflitos na relação entre Michelângelo e Júlio II, mas para satisfazer ao grande público, há a tentativa de mostrar um sutil romance do pintor com a Condessa de Médici, que acaba não saindo do lugar. Terminamos o filme sem conhecer mais do processo criativo do pintor, nem as razões interiores dos seus conflitos. Michelângelo é mostrado como um homem perturbado por sua obsessão com a arte e a perfeição, mas conhecemos pouco do homem depois de mais de duas horas. É como se nos fosse contada uma impactante história de alguém que conhecemos muito pouco. O fato de o filme começar com um curta documentário sobre a vida de Michelângelo é um indicativo de que, talvez, os próprios produtores tenham se dado conta de que o filme não responde a muitas perguntas sobre seu personagem principal. Acaba tornando-se uma seqüência que, se apresenta-o ao público leigo, poderia ser dispensável se tais perguntas fossem ao menos abordadas no roteiro. Para piorar, o desenvolvimento do filme ainda coloca o célebre arquiteto Bramante como um quase vilão da história.

Por isso “Agonia e Êxatse” empalidece na comparação com outra obra de Reed. Se em “O Terceiro Homem” acabamos conhecendo muito de Harry Lime, um americano comum perdido na podridão de Viena, aqui temos um filme inteiro dedicado a apenas uma pessoa, um roteiro que apresenta uma série de discussões e conflitos de seu protagonista e essa personalidade termina ainda como um mistério. Outros personagens, como o pintor Rafael, um dos mestres do Renascimento, surgem em cena apenas como coadjuvante a balizar a genialidade de Michelângelo, quando é contratado para substituir o italiano e mostra-se claramente contrário a intervir na obra de outro artista, principalmente um de tamanha genialidade.

Apesar desse problema básico, “Agonia e Êxtase” obtém sucesso quando trata-se de retratar os bastidores da criação de uma das maiores obras-primas da humanidade, e ao mostrar como o período entre 1508 e 1512, em que Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina, mexeu com o gênio. Posicionando sua câmera no alto dos andaimes onde o artista passou quatro anos pendurado, Reed nos dá a dimensão do tortuoso processo, e da pressão sofrida pela constante cobrança de um papa que, se protegia Michelângelo e patrocinava as artes – chamado de o Papa Guerreiro, foi um dos maiores incentivadores da arte a sentar no trono de São Pedro – também mostrava-se ansioso para ter seu túmulo, “o maior do cristianismo no Vaticano”, desenhado e esculpido.
É uma pena que essa relação tão bem construída entre Harrison e Heston não tenha um complemento à altura nos elementos que a cercam. O filme foi indicado aos oscars de direção de arte, fotografia, figurino, música original e som ( não ganhou nenhum ) mas, a rigor, não apresenta nada de impressionante ou acima da média em nenhum dos quesitos. Mesmo a fotografia, que poderia explorar as nuances de luz e sombra no teto da capela sistina – e talvez fazer um balanço com o humor e o espírito inquieto do protagonista – é burocrática, optando pela iluminação de estúdio que caracterizou boa parte dos grandes épicos daquele tempo. A diferença é que, aqui, havia material humano para um aprofundamento maior. “Agonia e Êxtase” foi um fiasco em termos de bilheteria. Custou a fortuna de US$ 12 milhões e não recuperou o investimento, apesar de ser indicado como um dos melhores filmes do ano pela National Board of Review.

Ainda que não seja pesado ou enjoativo, o que para um filme com mais de 2 horas pode ser considerado um ponto extremamente positivo, faltou libertar Michelângelo para o público, da mesma forma que ele pregava libertar a estátua do mármore onde ele a criava.

6 Comentários:

  1. Otavio Almeida disse...

    Fabio, eu acho que ainda não tinha visitado o seu blog. Acho que está ótimo! Voltarei aqui mais vezes, afinal você dá preferência a títulos de altíssima qualidade.

    E gosto de AGONIA E ÊXTASE. Não é uma obra-prima, mas é um belo filme.

    Abs!

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Pois é Otávio, o filme tem o mérito de prender a atenção - ou o mérito é de Heston, de quem não costumo ver filmes ruins - mas fiquei intrigado se Reed foi extremamente genial em O Terceiro Homem ou abaixo da média em Agonia e Êxtase. Só vendo mais dele pra julgar...
    Valeu a visita...

  3. Pedro Henrique disse...

    Ainda não vi o filme, mas não por falta de vontade e sim por falta de sorte, pois não acho o filme nas locadoras. Continuarei procurando...

    Abs!

  4. Fábio L. Rockenbach disse...

    Infelizmente só conheço dois releases, um normal da fox, outro do selo fox classics. Nenhum deles com bons extras. Vale pelo filme, quando encontrar.

  5. wesley disse...

    onde posso achar esse filme em portugues so acho em ingles..

  6. Fábio L. Rockenbach disse...

    Wesley, se fala em achar na internet, 99,9% de chances de você não achar ele dublado, como quase todos os releases.
    Mas tem nas (boas) locadoras...