O Senhor das Moscas

Escrito por Fábio Rockenbach

( Lord of the Flies, EUA, 1990 )
Direção de Harry Hook, com Balthazar Getty, Chris Furrh, Danuel Pipoly, James Badge Dale, Andrew Taft

"O que vocês estão fazendo?"

Kubrick faria miséria...
William Golding precisou peregrinar por 21 editoras para conseguir, enfim, publicar "O Senhor das Moscas" em 1954, ainda sob a sombra dos efeitos da guerra e nos primeiros tempos da Guerra Fria. Três mil unidades vendidas depois, o livro saiu de catálogo por algum tempo, para elevar-se à categoria de cult e obrigatório em escolas norte-americanas. Mais de meia década depois, a alegoria de Golding para a natureza do mal e a selvageria do homem foi adaptada duas vezes para o cinema, em 1963 e 1990. O cinema, no resumo dos fatos - e que se leve em conta a fidelidade ao livro da versão de 1963 - ainda deve a Golding uma adaptação à altura do seu texto.

A obra cult de Golding é associada, propriamente, a vários fantasmas do pós guerra. O mundo nuclear, a guerra fria e acima de tudo, ao fascismo e aos regimes ditatoriais. Tenta, desde o seu título, fazer uma investigação sobre como surge o mal no coração do homens, apontando que ele é natural da raça, provocado pelas circunstâncias e pelo caráter. Se o título faz uma referência ao nome hebraico de Belzebu, sinônimo para o Diabo - e que na obra original é o "monstro" da cabeça de porco que "fala" com uma das crianças anunciando-se como o mal absoluto - ele também pontua o tema central da obra: a influência do poder desmedido, da falta de controle e a selvageria que existe naturalmente no homem, "animal" domesticado pela sociedade, convívio e tecnologia. Se no passado alguns pensadores pregaram que o homem, naturalmente, tende a organizar-se socialmente e a criar suas leis, Golding prega que sem a noção de punição e controle por um poder maior, a tendência é a barbárie. E que forma melhor de fazer isso que usando crianças, teoricamente ainda não afetadas pelos piores sentimentos que o ser humano experimenta ao longo da vida?

A história mostra um grupo de garotos de uma academia militar que, durante uma viagem de avião, sofre um acidente no pacífico e vão parar em uma ilha deserta. O único adulto a sobreviver morre, e os deixa sozinhos em um mundo para o qual eles não haviam sido preparados - e, na verdade, nem os adultos, que é a principal idéia do filme. O que a princípio é desespero aos poucos assume ares da construção de uma nova sociedade. Amparados pela educação militar, passam a definir lideranças, normas e regras para sobreviver. É o momento em que o joio separa-se do trigo, cada um assume sua posição no papel de dominado, dominador e racional e a coisa desanda para a selvageria.Uma seqüência pode explicar como a falta de civilização e de controle - no caso de um adulto - tira daquelas crianças toda a noção de responsabilidade pelos seus atos: responsável por manter acesa uma fogueira, o grupo de caçadores ignora a tarefa e eles perdem a chance de serem resgatados quando surge um navio. Cobrados por isso justamente no momento em que eles retornam da floresta trazendo sua primeira caça, eles respondem com uma dança tribal elevando seu feito. Já estão imersos em um mundo particular, sem cobranças, sem deveres, sem justificativas. É o inferno para a minoria do grupo, que tenta manter a razão apelando para símbolos da civilização ( a concha que cada criança pega quando quer ter a palavra é a forma de demonstrar como o homem se refugia em simbolismos, e a maneira como essa fuga é interrompida pelos caçadores mostra como, em um nível de barbárie, esse simbolismo é reduzido a nada ).

Se o texto, a idéia e todo o desenvolvimento da história são geniais, faltou ao filme um diretor que conseguisse trabalhar esses simbolismos incontáveis da mesma forma que um Stanley Kubrick faria - e ele faria misérias com uma obra dessas, acredito. Com tal material em mãos, Harry Hook ( sim, você não deve ter ouvido falar dele ) se limita a simplesmente registrar em vídeo uma história poderosa e não aprofundar os sentidos do espectador - ele poderia, por exemplo, ampliar o sentimento de domínio e medo das crianças pela cabeça de porco usando recursos simples de posicionamento que Welles usou em Cidadão Kane - clássicas maneiras de mostrar opressor e oprimido através de pontos de vista pontuados por posicionamento e inclinação.
Mas lamentar pelo que não foi feito - e essa é uma questão absolutamente pessoal - não deve suplantar o que Hook conseguiu: mesmo sem a força DO LIVRO, seu filme tem uma força própria. Funciona como uma parábola. Exclui momentos importantes da obra mas tem o mérito de não precisar se explicar: não há uma seqüência inicial explicativa, não há momentos explicativos para as atitudes de seus protagonistas. Tudo o que acontece é compreendido e julgado unicamente pela ótica do público, e isso é ótimo em se tratando, como dito, acima de tudo de uma parábola sobre o bem e o mal ( sobretudo o mal ). Tem a seu favor atuações excelentes da maior parte do seu elenco de crianças - inclusive daquelas que, numa analogia ao povo alemão, torna-se a massa de comando, sem questionar ordens e agindo como cães obedientes - e uma trilha sonora ( de Phillipe Sarde ) que faz uso, inicialmente, de sons suaves de flautas e violinos para, em momentos acelerados, remeter a tambores tribais. Peca ao exagerar no coral para criar um clima ensandecido na mais sádica cena do filme, a do primeiro assassinato. Embarcamos junto na sandice mas no fim me senti manipulado pela música. Uma cena mais crua causaria mais impacto do que o espetáculo de mis-en-scene armado por Hook, mas o impacto sobre a platéia nessa cena capital é indiscutível, não importam os métodos.A história poderosa de Golding ainda está por receber adaptação á altura nas telas, mas o filme de Hook merece o crédito de não desmerecer a atemporalidade da obra, apenas estendê-la até que ela seja registrada definitivamente.

4 Comentários:

  1. Robson Saldanha disse...

    Nunca vi esse filme, parece ser manipulador hein? Inda mais quando é para ser colocado em escolas, do jeito que os americanos gostam, to certo?

    Quanto a um sonho de liberdade, esse filme é fantástico em todos os aspetos, se tirar nem por!

    Não sabia que tinha me linkado aqui, estou te linkando também!Abraço!

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Pode-se observar pelos dois lados Robson, pelo lado dos que defendem o controle e o poder para controlar e daqueles que defendem que o homem, no fundo, é um animal mesmo, e são as regras que o salvam.
    Acho que ele tem várias interpretações.
    Valeu pelo link. Abraço

  3. Alm_ disse...

    comprei este livro no início do ano, um dos melhores que já li. é muito interessante ver como as crianças perdem a inocência e tornam-se 'selvagens' em um lugar que, a princípio, poderia ser considerado um paraíso...

  4. Fábio L. Rockenbach disse...

    Alm_
    Li o livro no tempo de colégio, então fazem uns bons 15 anos (nossa). O impacto que ele me causou foi tremendo. Talvez essa ansiedade tenha feito com que eu ainda esperasse uma adaptação que me causasse a mesma sensação. Ainda não é essa aqui...