Tombstone - A Justiça Está Chegando

Escrito por Fábio Rockenbach

( Tombstone, EUA, 1993 )
De George Pan Cosmatos, com Kurt Russel, Val Kilmer, Sam Elliot, Bill Paxton, Powers Boother, Michael Biehn, Charlton Heston

“Lembra do que eu disse sobre ver uma luz quando se morre? É besteira. Não vejo merda de luz nenhuma na frente.”

Existe uma cena memorável em “Tombstone”: frente a frente pela primeira vez, Johnny Ringo e Doc Hollyday travam um duelo verbal em latim, antes de Hollyday, sempre sarcástico, encerrar a “briga” com um “Pace requiescat” ( Descanse em Paz ). Insultado, Johnny puxa a pistola e coloca no rosto de Doc, que sequer pisca. Ânimos acalmados, o pistoleiro se exibe para todos no saloon, fazendo malabarismos estonteantes com a pistola, antes de guardá-la.
Todos olham para Hollyday. Alguns segundos de silêncio e espera depois, o pistoleiro tuberculoso levanta a caneca onde tomava whisky e repete, com ela, os mesmos movimentos, enquanto olha, com cara de deboche, para seu oponente, até encerrar o malabarismo colocando a caneca no coldre.

Alguns filmes ganham uma força palpável com o passar dos anos. Assistir novamente a “Tombstone” só comprova o bem que uma revisão pode fazer, principalmente passados 15 anos de seu lançamento. Este western que, na época, parecia convencional em todos os sentidos, adquiriu um novo sentido para mim, mesmo que o diretor Cosmatos, que nunca foi brilhante, derrape feio justamente quando começa a avançar a passos largos para criar uma obra inesquecível. O único problema de “Tombstone” é que isso acontece pelo menos três vezes ao longo do filme, o que torna o ritmo quebrado. A cada tombo que cai, recomeça vagarosamente ( porém também vigorosamente ) a subir, degrau por degrau, o caminho que separa filmes comuns daqueles realmente memoráveis.

A despeito desses problemas de ritmo e da pressa em resolver determinadas situações e atropelar a história, esta revisão comercial dos feitos do lendário xerife Wyatt Earp conseguiu marcar na retina e na memória alguns momentos. Em tempo: o argumento de Kevin Jarre é simplesmente brilhante em sua simplicidade afiada, que remonta aos tempos onde um simples diálogo valia ouro ( e aqui, na boca do Doc Hollyday de Val Kilmer, eles valem ) e, para deixar decretado, “Tombstone” tem algumas das mais belas composições de cena que o western já criou. É bem verdade que elas dividem espaço com outras montadas para serem belas, mas que acabam ficando bem para trás justamente das cenas que, sem ambição, criam um belo western moderno.


“Você está bêbado tuberculoso. Esta vendo quantos, dois de mim?”( puxando outra arma )“Bem, agora tenho uma arma para cada um de vocês.”

Lembro que, quando foi lançado, achei a versão da história dirigida por Lawrence Kasdan e estrelada por Kevin Costner bem mais competente. O western “Wyatt Earp” é mais robusto, longo e, também, carregado de muito mais ambição. Já “Tombstone” consagrou-se nas bilheterias por apresentar o que o filme de Kasdan deixou em segundo plano, muita ação e ritmo ágil. Por trás desse pano fino, entretanto, reside uma história poderosa, que por várias vezes parece estar a um pequeno passo de tornar-se uma obra-prima. Reunindo um elenco de carinhas fáceis, como Kurt Russel, Val Kilmer, Sam Elliot, Bill Paxton, Powers Boothe, Michael Biehn, Billy Zane ( e uma ponta de Charlton Heston, além de ter Robert Mitchum como narrador ), quem tirou a sorte grande foi Kilmer, o grande nome do filme como Doc Hollyday. São dele as melhores frases de um roteiro que, se peca por atropelar certas explicações para buscar rapidamente soluções, prima por diálogos esplêndidos. Russel é Wyatt Earp, ex-xerife do Kansas que se aposenta e vem, com os irmãos, para a próspera cidade de Tombstone buscando fortuna. Acaba dando de cara com um grupo de pistoleiros armados, os caubóis, e os irmãos Clanton, que lideram o bando. Com a índole de defensores da lei, Earp e os irmãos, com a ajuda do tuberculoso pistoleiro e jogador Doc Hollyday, acabam colocando-se no caminho dos Clanton até a situação ficar insustentável e culminar no duelo no curral OK, um momento da história cultuado pelos americanos, e que virou tema de pelo menos outros 3 filmes famosos: o já citado “Wyatt Earp” e os clássicos “Paixão dos Fortes” e “Sem Lei e Sem Alma”.

“Devia estar na cama. Por que faz isso?“
"Porque Wyatt Earp é meu amigo.”
( com ironia )“Bom, eu tenho muitos amigos”
“Eu não.”

“Tombstone” tem elementos típicos de um convencional filmão de
verão americano, a começar pela trilha sonora de Bruce Broughton, extremamente clichê – e que bem poderia silenciar em determinados momentos onde, pelo contrário, aumenta de intensidade para convidar a platéia à cena, quando acaba tendo o efeito contrário, atraindo a atenção e dispersando o sentimento. Mas a belíssima fotografia de William Fraker, as interpretações sólidas do elenco ( Russel acerta ao não querer se sobrepor ao personagem e constrói um Wyatt Earp sóbrio e ponderado, o que seria de se esperar de um ator como ele ) consolidam o filme de Cosmatos como um belo exemplar do gênero que poderia, muito bem, ter sido feito décadas antes. Mesmo errando a mão no ritmo do acerto de contas, na meia hora final, quando poderia criar uma seqüência inesquecível, o diretor consegue mostrar sem ressalvas ao mito heróico de Earp uma personagem até doentia em suas justificativas ( a cena do tiro dentro da boca é um exemplo da mudança do personagem ). E valoriza o grande personagem do filme, justamente Doc Hollyday, num rápido duelo que se insere entre os grandes momentos do western no cinema, em suas cenas finais. Tombstone deixou de ser, em 15 anos, uma obra convencional para se tornar um filme que tem, sim, problemas, mas cujos méritos ultrapassam em muito os deslizes cometidos em nome da bilheteria.

10 Comentários:

  1. Pedro Henrique disse...

    Fábio, ainda não vi "Tombstone" por falta de curiosidade mesmo. Mas fica aí a dica!!!

    Grande abraço!

  2. Isabela disse...

    Esse eu ainda não conhecia! Quando passar tentarei assistir.

  3. Red Dust disse...

    Um bom western. Interpretações sólidas numa revisitação de uma das histórias do velho oeste mais contadas. O que por si poderia ser um obstáculo. Não foi, pois George Pan Cosmatos soube manter o nível de interesse para o espectador.

    Abraço.

  4. o cara da locadora disse...

    Acho um filme muito bom, mas merece ser revisto... Atuação fantástica mesmo do Val Kilmer... abraços

  5. antonyelle disse...

    pra mim,uns dos melhores filmes que jar vi,sua partiçipaçao de val kilmer,kurt russil.
    obs:otimo filme.

  6. Sandro disse...

    Sem dúvida, pra mim, é o melhor filme wester que ja vi, atuação impecavel de Val Kilmer,muito realimo, baseado em acontecimentos reais da época, e Doc Hollyday foi um grande atirador daquela época. Quem não assistiu o filme, assista que vale a pena

  7. luiz_1891@yahoo.com disse...

    ja vi nuitos filmes que retratam o oeste americano, , mas TOMBSTONE, supera todas as espectativas, não sei se por se tratar de fato veridico, mas foi o melhor que ja vi, doc hollyday foi sem duvida o mais temivel pistoleiro que ja existiu, não deixe de ver.

  8. Cleuber disse...

    Este filme ultrapassa a barreira do simples western. Não pode ser considerado apenas isso. Ele é um filme sobre amizade, lealdade e sobretudo coragem. Belíssimo de se ver e nos inspira profundamente a pensar ao que tem faltado ao ser humano nos dias de hoje. E considero feliz o espírito americano de construir heróis no cinema, pois isso ajuda a inspirar um sentimento melhor nos cidadãos. Quando se tenta construir heróis no cinema nacional, invariavelmente o diretor é execrado. Não deixem de assistir.

  9. Anônimo disse...

    Genial. Não há como não se apaixonar por este filme. Os diálogos são memoráveis e as atuações impecáveis. Enredo atraente e uma história envolvente. Explora com charme a "mitologia" western hollywoodiana na figura do próprio mito Earp. Infelizmente hoje o western está esquecido na terra do cinema. Tomara que um dia volte. Esse aí deixou saudades. Eu o vi no ano de lançamento.

  10. Anônimo disse...

    Eu gostei do filme. Gosto muito do Michael Biehn. Um ator talentoso nem tão bem reconhecido.