Matar ou Morrer

Escrito por Fábio Rockenbach

(High Noon, EUA, 1952)
Direção de Fred Zinneman, com Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges

Pintura de Renato Casaro

Will Kane é provavelmente o mais humano dos heróis do western. E a despeito de muito que se tem dito ao longo dos anos, e da opinião de Howard Hawks, é um dos mais completos modelos de coragem do cinema norte-americano. Poderia, próximo da aposentadoria, viver seus dias em calma, com a mulher com quem acaba de casar, mas abdica da felicidade pessoal para honrar um compromisso que legalmente nem era mais seu. Will Kane abdicou de suas escolhas pessoais e voltou para a cidade onde era xerife para enfrentar Frank Miller, o homem que ele mandou para a cadeia cinco anos atrás, que agora está voltando no trem do meio-dia disposto a matá-lo, junto de 3 comparsas. Will Kane não é um covarde por pedir ajuda. É corajoso por enfrentar a situação. E Zinneman não cometeu uma afronta a alguns princípios de "macho" do western. Simplesmente usou da história para dar um tapa na cara de colegas de profissão que abandonavam supostos amigos na perseguição macartista dos anos 50.

A lenta agonia de Will Kane é criada por pedaços, como se cada "não" que irrompe em sua cara fossem lentamente construindo uma escada às avessas. Ela sobe em direção a um clímax lembrado a todo o momento pela espera dos comparsas de Miller na estação, ao mesmo tempo que o joga para baixo quando o que conta é a maneira do próprio xerife encarar seu destino. Não à toa, ele passa o filme inteiro perambulando pela cidade, de porta em porta, de amigo ( ou suposto amigo ) em amigo. Ao fundo, a música de Tiomkim clama o "não me abandone". Inútil. E mesmo assim, cada vez mais se afogando no irreversível, Kane insiste em não partir.

É em torno dessa construção que está a força de "Matar ou Morrer", de construir Kane como um legítimo herói do velho oeste, mas mais humano do que qualquer outro, porque se permite a ter dúvidas, a agir como, enfim, um ser humano. É mais humano do que todos os xerifes que já surgiram no gênero, porque não se priva de admitir que tem medo, que está borrando nas calças com a proximidade do meio-dia. Essa sensação de desespero com o passar do tempo é construída de forma primorosa pelos closes nos relógios, que acompanham o filme quase em tempo real - e não acredito na lenda de que o filme foi "salvo" na sala de edição com a adição dessas cenas, porque no filme os personagens procuram o relógio em diversos momentos, como que lutando contra um inimigo invisível, o tempo, cada vez mais escasso e cruel. E quanto mais o tempo passa, mais se aproxima a hora de chegar o trem, e mais Kane vê antigos amigos o abandonarem. Vê crianças brincando e simulando como ele vai morrer. Vê os habitantes rindo de sua tragédia pessoal, olhando-o com desprezo, escárnio. E mais ele ouve conselhos de ir embora da cidade, de fugir. E é em torno dessa construção que Gary Cooper gravita como único elemento do elenco a não soar caricato, em um mar de interpretações rasas. Essa construção resiste a tudo isso, porque é extremamente bem construída.

O que Howard Hawks achou inadmissível foi um xerife pedir ajuda a civis para enfrentar e resolver um problema particular - tanto que respondeu rodando "Onde Começa o Inferno" quatro anos depois. Mas, enquanto John Wayne tem ajuda de um velho, um jovem e um bêbado no filme de Hawks, Kane não tem ajuda de ninguém. Até poderia, mas recusa a ajuda de um garoto e de um velho bêbado. Permanece perambulando solitário pela cidade que lhe deu as costas. Zinneman apóia-se no poder semiótico de certas imagens para estabelecer o sentimento de inevitabilidade. Não apenas o relógio, mas de forma explícita, o movimento em direção à cadeira do tribunal onde Frank Miller sentou-se no momento em que foi condenado e jurou matar Kane. Ele acontece no exato momento em que o apito do trem indica que o meio dia chegou. As batidas secas da trilha de Tomkim confundem-se com o ritmo do pêndulo do relógio, segundo a segundo. Todas as personagens estáticas, imóveis. Kane engole em seco, e encara uma cidade habitada por fantasmas atrás de cada porta. Um movimento de câmera acaba mostrando-o solitário no meio da rua, a expressão inevitável de medo, o suor escorrendo pela testa. Não há imagem mais forte para representar a solidão de um herói. A estrela no chão empoeirado é uma resposta a toda a covardia daquela cidade e daquele tempo na América.



3 Comentários:

  1. Victor Afonso disse...

    Um western excelente, sem dúvida. Mas nesta categoria, eu prefiro Ford e Peckinpah.
    Saudações cinéfilas.

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Também prefiro - e incluo na lista Hawks e Mann antes de Zinnemann.

  3. Marcus Vinícius disse...

    Nada substitui um bom faroeste...