O Rio das Almas Perdidas

Escrito por Fábio Rockenbach

( The River of no Return, UA, 1954) Direção de Otto Preminger, com Robert Mitchum, Marilyn Monroe, Roy Callhoun




Uma diversão totalmente desprovida de maiores significados para Otto Preminger, mas longe de ser apenas mais um western. Preminger abusa das possibilidades que o Cinemascope lhe oferece. Raramente seu objeto é centralizado, pelo contrário: seus personagens não dividem a tela com a natureza, mas oferecem-na de bandeja, ficando sempre em um dos cantos da larga imagem que, nos cinemas, deveria ser um espetáculo e tanto. Transforma as belas paisagens do noroeste norte-americano em um elemento à parte, intocável, superior. Brinca com a profundidade de campo. Explora a tela larga – expande no aspecto visual o que a trama básica não consegue oferecer além das entrelinhas. E é nas entrelinhas, também, que Preminger oferece as melhores declarações que poderia dar com o material humano que tem em mãos.

Se Marilyn Monroe eternizou-se como símbolo sexual descarado em filmes como “O Pecado Mora ao Lado” ou “Os Homens Preferem as Loiras”, em “O Rio das Almas Perdidas” ela aparece, desprovida de ornamentos e poses propositalmente apelativas, naturalmente sensual. Quando é massageada nas costas por Robert Mitchum, a expressão poderia ser de dor. Poderia ser de alívio. Poderia até ser um orgasmo. Preminger deixa nas entrelinhas vários elementos desse jogo dúbio composto por frases, expressões, reações. Quando Mitchum massageia as pernas de Marilyn, a cena se funde com a fogueira acesa na caverna. O inconsciente acusa, mas o apelo é sutil – culpa dos reflexos do Código Hays nos anos 50, que Preminger, aliás, sempre encarou e enfrentou aberta ou sutilmente. Abusa, é verdade, do potencial daquilo que manipula – quando os índios, retratados da forma mais rasa possível, se jogam no rio com corredeiras atrás da balsa onde fogem Mitchum, seu filho e Marilyn, ninguém entende porque eles perseguem com tanto afinco o trio de fugitivos. Mas todos entendem porque o índio arranca a blusa de Marilyn quando tem a chance. Menos que isso seria desperdício – da mesma forma se Mitchum não tentasse rasgar sua roupa pouco antes também, a câmera de Preminger ignorando os rostos, concentrando-se apenas nos quadris. Uma loira dessas perdida no oeste deixaria qualquer um louco, convenhamos.




Aproveitamento máximo: Preminger usa e abusa da tela larga

Mas mesmo com a trama simples, beirando a superfície do rio onde se desenvolve – pai e filho junto à dançarina de cabaré descem as corredeiras de um rio enfrentando todo o tipo de perigos para chegar a uma cidade, onde esperam encontrar o homem que lhes colocou em perigo, durante a corrida do ouro no norte dos Estados Unidos - seu diretor entrega um produto com assinatura, e um western baseado nas relações de um casal de protagonistas, antecipando muitos dos modernos filmes de ação. Não está na ansiedade pelo duelo final, anunciado com muita antecedência – motivador do filme, aliás - o atrativo principal. É tão leve e agradável que se parece, por vezes, deslocado do ambiente em que ocorre, por mais paradoxal que seja, já que a câmera explora ao máximo esse ambiente e a relação das personagens com ele. Mas em certo ponto ninguém se preocupa muito com o derradeiro encontro. Todos já sabem o que deve acontecer – e é então que Preminger assina sua obra ousando nas soluções, desta vez sem a sutileza de seu jogo erótico sensual anterior, mas descaradamente. É como se dissesse “há alguém com inteligência dirigindo isso, ainda que achem que eu me vendi.” Preminger não se vendeu. Emprestou a alma ao diabo, aliou-se à tentação ( loira e absurdamente linda ) mas preparou o terreno para o céu: os experimentos aqui serviram como base mais tarde. E com Marilyn em cena, ninguém reclama muito.

3 Comentários:

  1. Pedro Henrique disse...

    Não vi este nem o de baixo. Tenho muita coisa da Marilyn para ver ainda. Pelas fotos, são belas paisagens em widescreen...

    Abraço, Fabio!

  2. Helga disse...

    Olá Fábio,

    Acabei de assistir o tal filme, por causa dessa tua crítica aí (or review).

    A widescreen é realmente muito boa.

    :)

  3. Anônimo disse...

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