Appaloosa - Uma Cidade sem Lei

Escrito por Fábio Rockenbach

(Appaloosa 2008)
Direção de Ed Harris, com Vigo Mortensen, Ed Harris, Jeremy Irons, Renné Zelweger




Muito se fala em "reinvenção" ou "releitura" de certos gêneros, principalmente o western, gênero americano por excelência. Ed Harris, notável ator - e crescente diretor de idéias interessantes, se não ainda na narrativa, em suas concepções - não quer reinventar o gênero em seu segundo filme como diretor, "Appaloosa", mas se propõe a afirmar que ele pode fazer mais do que passar adiante velhos preceitos. O velho oeste não foi feito, afinal, apenas de tiroteios intrépidos. O mais bravo dos atos podia ser, muitas vezes, o menos compreensível. Seu filme cavalga por caminhos poeirentos que sempre parecem conduzir a um destino, mas mudam bruscamente, como se buscasse seu rumo. No entanto, sempre sabe onde quer chegar. Talvez demore um pouco para se revelar, mas quando o faz é que se percebe o quão é notavelmente bem conduzido em suas intenções. "Appaloosa", adaptação de famosa novela de Robert B. Parker, é a estória da amizade entre dois homens que poderiam ter apenas uma coisa em comum, mas aproximam-se por compartilharem sentimentos que só são afeitos dos heróis formados pela mitologia - inspirados nos homens de verdade e nas histórias que passam de geração a geração, e por isso também tão reais.

Esse conto de amizade se consolida aos poucos, e quando finalmente torna-se límpido, fecha um círculo que parecia conduzir a um caminho desnorteado. Então, todo o resto é segundo plano, mera base para contar a história de Virgil ( Ed Harris ) e Everett ( Vigo Mortensen ), dois homens que constróem sua estrada de cidade em cidade, como pacificadores, vendendo suas armas a serviço da lei, até chegarem em Appaloosa, pequena cidade controlada pelo vil Braggs ( Jeremy Irons ), e se envolverem com Ellie ( Renné Zelwegger ), mulher tão atraente quanto danosa aos olhos de Virgil - mas ainda assim, o melhor que ele já encontrou até hoje.

As cores desbotadas do filme de Harris mostram que não importa ao diretor criar clima para grandes duelos, tampouco injetar emoção em uma caçada ao bandido ou pelo tão famoso acerto de contas. "Appaloosa" transforma esses elementos, tão caros ao western, em meros acessórios para injetar curvas na estrada que conta a amizade dos dois homens da lei. E Virgil, pouco a pouco, revela-se o pesonagem secundário dessa jornada. Se toda a ação o circunda, não é ele quem a conduz, no fim das contas. Nem é ele que transforma em aprendizado os acontecimentos. "Não creio que ela busque todos os homens. Acho que ela quer sempre o manda-chuva mor." prega Everett, anunciando a definição que acaba sendo a bússola que norteará os atos de sacrifício em prol da amizade.

Todo o acerto de contas é desviado para rumos tornos - por ironia, por influência de uma pessoa de moral torta. Mas é tudo feito com correção, com motivações prontas a explodirem, e sempre contidas. Elas só surgem no momento exato. ("Ela me ama, impostor.") Não sei até onde vai a contribuição da novela original, e onde começam os méritos do roteiro que Ed Harris co-assina, mas a simples escolha do texto e seu trabalho nele comprova a visão sobre Harris ser aquele cineasta de idéias interessantes - e o antagonista da história, Jeremy Irons, acaba sendo o elo fraco que liga todos os elementos dessa história, mostrando que "Appaloosa" não é um conto de "quem contra quem", mas sim de "quem por quem", o que é bem mais difícil de se construir.

3 Comentários:

  1. Alex Gonçalves disse...

    Fábio, beleza? Velho, não estou encontrando mais você on-line no Messenger. Queria dizer que só consegui tempo livre a partir do natal para conseguir botar algumas coisas em dia, especialmente o Cine Resenhas. Havia falado para o Pedro te dar um toque que ficaria pouco envolvido por algum tempo com o projeto do site. Enfim, como estou com algumas horas livres, vou começar a ver o que está acontecendo no fórum e, se for preciso, começar a botar o meu teclado para funcionar e digitar alguns textos. Olhei o post abaixo e digo que tudo está S E N S A C I O N A L !

    Logo, logo volto a funcionar, rs.

    Sobre "Appaloosa" não tenho muita vontade de conferir, pois não curti muito o "Pollock" de Harris e não sei se devo confiar neste seu novo trabalho na direção. Mas todos estão falando da Ellie de Renné Zellwegger, do quanto ela é bem desenhada pelo roteiro e tudo mais. Daí, como gosto da atriz, acaba sendo um atrativo.

    Bom final de semana!

  2. Fábio L. Rockenbach disse...

    Renné está bem, ela provoca reações no público, o que diz muita coisa. Mas o filme pertence ao Mortensen.
    Harris não é um Eastwood, mas dá pra entender porque muita gente liga seu começo de carreira com Clint. O que não entendo é como alguns críticos têm coragem de escrever que o filme lembra "Rio Bravo", só porque em determinado momento eles guardam um prisioneiro na prisão. Isso faz dar razão a quem critica a péssima crítica feita atualmente...

  3. Ygor Moretti Fiorante disse...

    OPa, assisti esse fim de smeana o filme, gostei embora esperasse um pouco mais, talvez por causa do elenco que me fez ter muitas expectativas.

    Achei a direção meio contida, o mesmo elenco sim bem natural, bem como sempre, a história sim q ficou faltando algo, devagar demais, simples eu acho.

    Abraço!!!