O realismo fantástico encarado de forma natural em “A Casa do Lago” é herança da maneira latina de ver o amo e a vida
Poucos cineastas têm tanta predileção pelo fantástico quando os diretores latinos. Vale o mesmo para a literatura. O toque mágico que permeia certas histórias, principalmente histórias de amor, é inserido de forma sutil e brilhante na literatura e cinema latino/hispânico. Alfonso Arau, por duas vezes, destilou essa magia em “Caminhando nas Nuvens” e no excelente “Como Água para Chocolate”. Isabel Allende escreveu “A Casa dos Espíritos” com leves toques de realismo fantástico – e quem melhor do que Gabriel García Márquez para inserir realismo fantástico em suas histórias?
Realismo fantástico é o elemento que permeia, também, “A Casa do Lago”, produção da Warner a partir de um roteiro escrito por David Auburn e dirigida pelo argentino Alejandro Agresti ( roteirista de Um Mundo Menos Pior, de 2004 ). Planejado pela Warner para ser um veículo para os astros Sandra Bullock e Keanu Reeves, “A Casa do Lago” consegue, apesar de inverossimilhanças, fugir de algumas armadilhas e até surpreender em alguns momentos. Acima de tudo, o fantástico da história de Auburn é captado de forma maravilhosa pelas lentes de Agresti.
Alex ( Reeves ) é arquiteto, seguiu a profissão do pai, um renomado expoente da arquitetura americana com quem tem problemas de relacionamento, e vive uma vida voltada para seu trabalho. Preza a solidão e compra para si uma casa no lago, construída pelo seu pai décadas atrás. Kate ( Bullock ) é uma médica solitária, que arrasta sua vida amorosa em torno de um relacionamento dos tempos de faculdade, que alugou para si uma casa no lago, construída por um famoso arquiteto décadas atrás.
Ambos moram na mesma casa, mas jamais se viram. Isso porque Alex está em 2004, e Kate, em 2006. Mesmo separados pelo tempo, os dois trocam cartas pela caixa de correspondências da casa onde ambos moram. O realismo fantástico dessa relação de paixão separada pelo tempo é abordado de forma tão sutil por Agresti que, envolvidos pelo clima de nostalgia e romance, pouco importa ao público que seja inusitado ou impossível. É quando se faz sentir uma das máximas da sétima arte: importa ao público o sentimento mais do que a razão quando se busca o escapismo na sala escura do cinema. Semelhante ao que já havia acontecido numa pequena jóia romântica, “Em Algum Lugar do Passado”, de 1980, onde o amor rompe as barreiras do tempo para se consolidar, e a situação é aceita e abraçada pelo público. A maneira latina de ver o realismo fantástico está presente na visão sutil de Agresti, que filma a história como se fosse algo absolutamente normal e corriqueira.

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