OBRIGADO POR FUMAR - Nicotina para o Cérebro

Escrito por Fábio Rockenbach



A indústria do fumo já foi analisada com seriedade inquestionável no filmaço "O Informante", num dos raros momentos em que Michael Mann foi um diretor mais voltado para a mensagem do que para o visual. Agora, é um novato que tem peito para renovar o discurso anti-tabagismo com genialidade usando de um recurso que somente quem sabe o que está fazendo pode usar sem cair no lugar comum: o humor negro e a ironia. "Obrigado por Fumar" de Jason Reitman é um sopro de inteligência no meio de um deserto de boas idéias.
Nick Naylor ( Aaron Heckhardt ), o porta voz da Academia de Estudos do Tabaco, maior instrumento de lobby da indústria tabagista em Washington, define seu trabalho já no início do filme: "Meu trabalho é reinterpretar os fatos. Tenho uma licenciatura que termina com qualquer rival." enquanto o som de sua lábia infalível é substituído pela rajada de uma metralhadora. Naylor é isso mesmo: uma metralhadora de palavras afiadas que consegue convencer qualquer um a respeito do que for necessário. Consegue até mesmo colocar num defensor do anti-tabagismo a culpa pelo câncer em uma criança de 15 anos diante de uma platéia pré-disposta a crucificá-lo, e sem tirar o sorriso dos lábios. Todo o ardil usado por Naylor na defesa da indústria tabagista e na busca por exposição no cinema, nova cruzada encomendada a ele, o torna o centro da atenção de uma jornalista ( Katie Holmes, inexpressiva como sempre ) e alvo de uma ameaça de morte que pode mudar sua maneira de ver as coisas - principalmente quando ele se dá conta de quem o filho está tomando como modelo.
O maior mérito do inteligente roteiro de Reitman é nos apresentar como um homem como Naylor pode viver defendendo uma causa que todos repudiam e abominam - e como seus valores morais e éticos são desvirtuados por ele mesmo, ao ponto de ele deixar de se importar com as conseqüências dessa indústria. Somente rindo da desgraça alheia ele pode, por exemplo, discutir com os dois outros membros do auto-intitulado "esquadrão da morte" – representantes das indústrias de álcool e comércio de armas, que se reúne com ele para um bate-papo em uma mesa redonda tétrica - acerca de qual indústria representada por eles mata mais ao dia e ao ano - estatística da qual ele orgulhosamente sai vencedor
Inteligente e extremamente irônico, "Obrigado por Fumar" conquista o espectador já nos seus primeiros cinco minutos, com uma sucessão de tiradas geniais que mostra que não será preciso falar sério para apresentar o problema: todos sabem os males causados pelo cigarro, todos sabem que Nick Naylor é um calhorda, mas em determinado momento passamos a torcer por ele, não importando qual causa ele defenda. É Jason Reitman mostrando que muitas vezes a causa é substituída por outras razões na hora de escolhermos um lado. O roteiro escrito pelo próprio diretor usa de todos os subterfúgios para destilar o máximo possível de crítica ao politicamente correto, aos Estados Unidos e da própria (falta de) inteligência no cinema moderno.
Ao contrário de filmes como "O Senhor das Armas", "Obrigado por Fumar" escolheu tornar o drama em comédia e rir da própria desgraça. Melhor para o público, que mesmo apoiando o calhorda anti-herói de Aaron Heckhart, ainda vai encontrar espaço para se perguntar como impedir alguém de fazer alguma coisa quando essa pessoa já faz, deliberadamente, o que ela sabe que é errado. Como Naylor diz, "Michael Jordan joga. Charles Manson mata. Eu falo". E como fala...


Humor (negro) politicamente (in)correto
"Matei chineses em 51 na Coréia. Hoje são nossos melhores clientes. Pelo menos da próxima vez, serão menos para nós matarmos."
“Capitão” ( Robert Duvall ), um dos chefões da indústria tabagista.

“Vocês mataram quantos ano passado? Cem mil? 270 por dia? Há... isso é fichinha”
Nick, em conversa informal com a furiosa representando da indústria do álcool

Nick: "Mas um cigarro no espaço não explodiria a nave por causa do oxigênio?"
Jeff Megall, produtor de cinema: "Tem razão. Mas nada que uma linha a mais no roteiro não resolva. - Graças a Deus inventamos o artefato qualquer coisa"

“Hoje, se alguém fuma num filme, ou é psicopata ou é europeu”
Nick Naylor, formulando a estratégia para ganhar novamente os jovens.

Jeff Megall : “Esse é Nick. Ele quer que nos nossos filmes não sejam apenas os RAVs a fumarem”
Nick: “RAVs?
Jeff Megall : “Russos, árabes e vilões”

“Não digo aos outros o que pensarem. Toda informação está disponível. Eu não decido pelos outros: seria moralmente presunçoso”
Jeff Megall, tirando o seu da reta quando a questão é a moral e a saúde no cinema.

"Quem disse que o nosso governo é o melhor do mundo? Não é nem um dos melhores... talvez o mais divertido. Escreva aí como somos bons em executar nossos réus."
Nick Naylor, orientando o filho a responder à pergunta “Porque o Governo dos Estados Unidos é o melhor governo do mundo?” formulado pela professora.